A dor de já não ser e a vergonha de já ter sido
A The Economist coloca o Brasil na 43ª posição
(outro ranking!) quando o critério é ambiente de negócios. Fica atrás,
entre outros, do Chile, Malásia, Qatar, Estônia
Elton Simões - O Globo
A gente gosta de estar em primeiro. Até demais. Muito melhor que o
recomendado ou desejável. Encontrar um representante da pátria verde e
amarela é na maior parte das vezes, para um estrangeiro, ser confrontado
com enormes volumes de estatísticas e ranking a respeito de um local
que é, ou foi um dia, o maior ou o melhor em varias áreas.
Para o estrangeiro, boa parte do discurso não faz muito sentido. Deste
ponto de vista, as informações soam como um elenco de curiosidades
cuidadosamente colecionado por um povo com algum tipo de obsessão por
informações obscuras.
Não que as informações estejam erradas. Longe disso. São, normalmente,
verdadeiras. Uma verdade que é sempre apresentada como regra, mas, na
realidade, trata-se apenas de uma lista de exceções que criam ilusão
onde a pátria verde amarela sempre ganha.
Ilusão apenas. Não vem sequer travestida de realidade. E, para a ilusão
desaparecer, basta um passeio por um supermercado, loja, ou mesmo
assistir televisão em outros países. Encontrar a bandeira verde e
amarela, um “made in Brazil”, ou citação positiva do país é tarefa árdua
de resultado positivo improvável.
A Branddirectory não lista marcas brasileiras entre as 50 mais valiosas
do mundo. De acordo com a Interbrand, a bandeira verde e amarela não
aparece no ranking das 100 mais valiosas. Nem de acordo com a BrandZ.
As fontes são varias. As metodologias diversas. Mas os resultados são os
mesmos. Sempre consistentes e implacáveis.
A The Economist coloca o Brasil na 43ª posição (outro ranking!) quando o
critério é ambiente de negócios. Fica atrás, entre outros, do Chile,
Malásia, Qatar, Estônia, México, Bahrain, Chipre, Latvia e Lituânia.
No fundo, a realidade apenas espelha o comportamento de um país que
tomou o isolamento como decisão estratégica. Que ficou a margem do
moderno ou da modernização. Que viveu a ilusão de que poderia fechar
suas fronteiras e se dar ao luxo de não se integrar a cadeia global de
produção.
Apostar no isolamento é e continua sendo erro. Mas acima de tudo, é uma
impossibilidade. Em um mundo cada vez mais integrado, o isolamento não
leva a nada, exceto andar para trás. E ser forcado a melhorar a
autoestima através do garimpo de estatísticas a varejo.
Condenados a reviver em perpetuidade a dor de já não ser, e a vergonha de já ter sido.
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