Da água para o vinho
TEMA EM DISCUSSÃO: Hidrelétricas na Amazônia
O Globo
Entre as novas hidrelétricas dos rios Madeira, Tocantins, Xingu, Teles
Pires e as que foram construídas pioneiramente na Amazônia há uma
gigantesca diferença. De dimensões amazônicas — para se usar uma
expressão que faz referência a esse imenso território.
No passado, foram cometidos erros graves, tanto do ponto ambiental
como social. Já os novos projetos são concebidos buscando-se colocar as
usinas em um contexto de desenvolvimento das regiões que as envolvem,
considerando-se as questões sociais, econômicas e ambientais. E
nacional, pela contribuição que podem dar para assegurar o fornecimento
de eletricidade proveniente de um fonte limpa e renovável. Não é mais
possível se pensar em investimentos vultosos, de longo prazo, sem o
conceito da sustentabilidade.
Nesse sentido, o projeto da usina de Belo Monte, por exemplo, ficou
condicionado a uma série de de compensações, em valores da ordem de R$
3,6 bilhões, dos quais a maior parte será desembolsada antes mesmo que o
aproveitamento hidrelétrico acione a primeira turbina. Situada numa
região paupérrima, Belo Monte teve que assumir obras de infraestrutura
que deveriam ser de responsabilidade do poder público. Escolas foram
construídas ou reformadas, assim como hospitais e postos de saúde.
Estradas pavimentadas, redes de água, coleta e tratamento de esgotos —
antes inexistentes — vão melhorar consideravelmente a qualidade de vida
dos municípios. Somente em Altamira, cinco mil famílias deixaram de
viver em palafitas, sempre em situação de risco no período da cheia. A
construção da usina criou um mercado para os agricultores locais,
movimentou o comércio e aumento significativamente as receitas
municipais. E, principalmente, gerou oportunidade de emprego e de
qualificação profissional para milhares de pessoas que não tinham
perspectiva. Pescadores artesanais, que se viam ameaçados pela
construção das barragens e diques, passaram a ser apoiados por centros
de pesquisas e vários se tornaram piscicultores.
No rio Tapajós, a proposta de construção de grandes usinas é outra.
Depois de prontas, não terão acesso por terra e nem será permitida a
formação de núcleos urbanos nas suas proximidades. Com isso, se
conseguirá isolar e preservar os parques vizinhos, além proporcionar
receitas permanentes para os municípios relativamente distantes, mas em
cuja jurisdição geográfica as usinas estarão situadas.
Em Rondônia, a construção das usinas do rio Madeira contribuiu para
alavancar a economia do Estado, que cresceu, no período, muito acima da
média nacional. Problemas sociais graves, esquecidos pelo país, vieram à
tona, pelo interesse que essas obras despertaram na opinião pública, e
não só no Brasil. Fábricas de equipamentos, que jamais seriam atraídas
para a região, hoje estão instaladas e produzindo na área da Suframa.
Não se pode questionar a construção de hidrelétricas na Amazônia com a
visão do passado, porque os conceitos mudaram quase que da água para o
vinho. E não é segredo que o país precisa de energia.
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