Forças dos EUA voltam ao Iraque e descobrem passado deixado por colegas
Tim Arango - NYT
Ayman Oghanna/The New York Times
Soldado deixa sala com lixo e objetos deixados para trás por tropas dos EUA em 2011O calendário na parede diz Novembro de 2011.
No chão está uma lata pela metade de tabaco sem fumaça Copenhagen. Espalhados aqui e acolá estão garrafas de Gatorade, latas de bebida energética Rip It, fichas de pôquer, dinheiro do jogo Monopoly e lâminas de barbear.
Gravado em uma parede está o slogan de um soldado: "Eu sempre colocarei a missão em primeiro lugar. Nunca aceitarei a derrota". Preso com fita adesiva em outra está um bilhete de encorajamento enviado por um escoteiro em casa: "Você é nosso herói e seu compromisso com a liberdade é honorável".
Há até mesmo um frasco de molho ainda na geladeira.
Quando as tropas americanas foram embora do Iraque há três anos, elas deixaram para trás um país frágil que mergulhou na guerra civil. Elas também deixaram para trás os detritos das vidas de soldados que, nos anos que se seguiram, permaneceram intocados, congelados no tempo.
Agora que as forças americanas, em números muito menores, estão voltando para ajudar os iraquianos a enfrentarem os extremistas do Estado Islâmico, elas se veem reocupando alguns de seus velhos locais. E estão escavando o que parece ser uma cápsula do tempo em lenta degradação, à medida que descobrem o que foi deixado para trás.
Quando os americanos partiram, eles entregaram suas bases para os iraquianos. Mas aqui em Taji, fora alguns prédios que foram claramente saqueados, muitos dos espaços, agora cobertos com uma grossa camada de poeira, foram deixados intactos.
Um soldado disse ter encontrado pôsteres da "Maxim", uma revista masculina, ainda nas paredes. E as últimas edições de "Stars and Stripes", o jornal das forças armadas, entregues pouco antes da partida americana, ainda estão espalhadas pelo chão de um dos banheiros. O resultado de uma partida do playoff da NFL em 2011, agora considerada uma zebra clássica, está pintado em um toldo: Saints 36, Seahawks 41.
Em Taji, a cerca de 30 quilômetros ao norte de Bagdá e novamente lar de uma ampla base aérea americana, até mesmo as placas de rua colocadas pelos americanos ainda permanecem no lugar. Separando um grupo de alojamentos dos hangares cavernosos das aeronaves está a esquina da Avenida Longhorn e Rua 46.
Laith al-Khadi trabalha na base, em uma loja de conveniência repleta das necessidades da vida dos soldados: bebidas energéticas, charutos cubanos, DVDs e muitas outras coisas. Ele está feliz em ver os americanos de volta e, para atendê-los, está tentando encontrar um estoque de Copenhagen.
"É bom para nós", disse. "As vendas estão em alta."
Até o momento, os americanos se instalaram em dois de seus velhos centros, aqui e na Base Aérea Al Asad, na província de Anbar. O Exército está aqui e o Corpo dos Marines em Anbar. É uma pegada minúscula em comparação ao passado –cerca de 180 soldados aqui, com cerca de 200 militares adicionais em Anbar.
Por semanas, antes de iniciarem seus programas de treinamento com novos recrutas iraquianos, os marines e soldados tiveram que recuperar suas áreas nas bases, enchendo sacos de areia, fortificando os perímetros e religando a fornecimento de energia elétrica.
Um major do Corpo dos Marines em Anbar, que já esteve no Iraque e tinha acabado de voltar do Afeganistão em setembro quando foi ordenado a voltar ao Iraque, disse que a volta era "estranha" e "assustadora". Outro disse que o lugar parecia um "trem descarrilado".
O primeiro-tenente Nolan Gore, um marine do Texas que estava ocupado montando o campo em Anbar, disse que quando chegou, o local parecia "apocalíptico". Então ele pensou a respeito e disse que na verdade parecia "pós-apocalíptico".
Quando os marines são atacados por foguetes ou morteiros –como são com frequência, mas até o momento sem baixas– eles podem apontar com frequência a fonte dos disparos, enviar informação pela cadeia de comando e então assistir em uma tela em seu quartel-general os agressores serem eliminados por ataques aéreos.
O major marine, que falou sob condição de anonimato por estar preocupado que sua identificação possa colocar sua família em risco de um ataque pelo Estado Islâmico, disse que vem tentando explicar aos iraquianos: "Nós não voltaremos a este país para limpá-lo de novo".
Muitos dos soldados, mas nem todos, que vieram ao Iraque já estiveram aqui antes, às vezes múltiplas vezes. A missão é diferente desta vez –não para lutar, mas para treinar as unidades de iraquianos para lutarem sozinhas.
Muitos sentem que para que os iraquianos sejam mais eficazes contra o Estado Islâmico, eles precisam que consultores americanos os acompanhem de perto na linha de frente ou pelo menos para ajudá-los a apontar com precisão os alvos para os ataques aéreos. O presidente Barack Obama tem resistido até o momento a dar esse passo.
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