Rodrigo Constantino - VEJA

O que vai sobrar da Grécia se a esquerda colocar em prática seu discurso vitorioso nas eleições…
O partido de extrema-esquerda, com um
discurso agressivo contra a austeridade, saiu vencedor nas eleições
legislativas deste domingo na Grécia, com quase 40% dos assentos. O Syriza
venceu com uma plataforma contrária ao plano de austeridade assumido
pelo país em troca de auxílio financeiro para pagar as suas dívidas.
A vitória
do grupo que rejeita as exigências da troika de credores — União
Europeia (UE), Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário
Internacional (FMI) — coloca em risco a permanência da Grécia na zona do
euro e traz ainda mais instabilidade para o bloco.
“Esta é uma nova era”, disse
Dimitris Vitsas, secretário do Syriza. “Iremos para a Merkel com os pés,
não de joelhos”, disse Panos Kammemos, chefe dos independentes que
confirmou, após conversa com Alexis Tsipras, o líder do Syriza, a
intenção de formar um governo de coalizão. Tudo muito emocionante do
ponto de vista da retórica, do discurso. Mas e o resultado prático que
vem por aí?
A austeridade virou um palavrão para
muitos europeus. Entende-se: ela exige um aperto de contas para conectar
o povo com a realidade após anos ou décadas de euforia insustentável,
de prosperidade ilusória, bancada à base de crédito farto. A Grécia foi o
país que mais surfou essa onda. Seu grau de endividamento público é
absurdo.
O ímpeto gastador do governo grego tem
batido de frente com a necessidade de manter as contas fiscais
ajustadas. Desde 2001, quando a Grécia aderiu ao euro, o país cumpriu
somente uma vez o teto acordado no Tratado de Maastricht, de 3% do PIB
para o déficit fiscal no ano.
Historicamente, países nessa situação
complicada de contas públicas acabaram apelando para uma desvalorização
de sua moeda. Isso garante alguma sobrevida, mas com pesados custos
depois. Os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha), entretanto, não
dispõem deste instrumento artificial, já que sua moeda é o euro. A
Grécia é o patinho feito dos PIGS.
O controle dessa ferramenta está nas mãos
do Banco Central Europeu, que segue a tradição do seu antecessor
Bundesbank. Este, por sua vez, é conhecido por sua independente
disciplina na defesa do marco, após sua destruição total na
hiperinflação alemã. A independência do BCE dificulta a vida dos
governos perdulários. Como eles não podem simplesmente imprimir moeda
para gerar “crescimento” inflacionário, precisam fazer o duro dever de
casa e cortar gastos.
Mas isso é sempre impopular. É como
obrigar um obeso a realmente fazer dieta alimentar e exercícios físicos.
Sabemos que isso é a única solução a longo prazo e saudável. Mas muitos
acreditam que é possível fingir que o problema não existe, ou
simplesmente decretar uma redução de peso ou mudar a forma de medi-lo.
O BCE resolveu recentemente adotar um
programa agressivo de estímulos monetários, comprando centenas de
bilhões em ativos. A decisão vai contra o desejo dos alemães, pois sabem
melhor os riscos disso na disciplina fiscal. Com tal medida, o BCE pode
ter comprado tempo, inclusive para os mais irresponsáveis como a
Grécia. Mas um dia a conta chega.
O casamento entre Grécia e União Europeia
fica comprometido. O projeto que criou a moeda comum partiu das elites
europeias, incluindo socialistas franceses que sonhavam com um meio para
recuperar seu prestígio e influência. O principal objetivo era
político: domar a Alemanha recém-unificada. A ortodoxia de seu banco
central (Bundesbank) e as reformas conhecidas como “ordoliberalismo”
transformaram o país em uma potência na região. A valorização do marco
frente às demais moedas era uma constante humilhação para todos.
Tudo acertado, foi dada a largada rumo à
convergência. Quando gregos, portugueses, espanhóis e italianos puderam
se endividar pagando taxas alemãs, teve início uma farra de crédito. O
estado de bem-estar social encontrou farto financiamento para suas
benesses. Todos pareciam felizes. Mas havia um detalhe: aqueles países
continuavam muito diferentes entre si.
Enquanto a Alemanha fazia seu dever de
casa, o restante acumulava dívidas impagáveis. A Grécia é um caso
extremo, mas a situação é caótica para os outros também. Com a crise
deflagrada em 2008, a era da bonança de crédito fácil acabou. A Europa,
que nadava nua, ficou exposta.
Logo surgiram fortes pressões para duas
medidas: união fiscal e atuação mais agressiva do BCE. No primeiro caso,
fala-se de “solidariedade”, o que pode ser traduzido como os mais
trabalhadores e produtivos sustentando os mais preguiçosos e
ineficientes. No segundo caso, trata-se da saída inflacionária, uma
espécie de calote disfarçado.
Nenhuma das alternativas agrada os
alemães. Ficar transferindo mesada para gregos não pode ser uma solução
séria para a crise. Quanto à inflação, os alemães morrem de medo, pois
já passaram por isso e o resultado foi Hitler. Por isso os alemães
insistem tanto na necessidade de duras reformas de austeridade.
Apertar os cintos, contudo, exige postura
de estadista, que foca no longo prazo. Estadistas estão em falta na
Europa (e no mundo). Os políticos parecem preocupados apenas com as
próximas eleições, e desejam empurrar os problemas com a barriga. O que
querem é mais estímulo fiscal e monetário. Mas foi justamente isso que
agravou a crise!
O que existe na Europa é um grave
problema de baixa competitividade nos países periféricos, além da enorme
dívida e de uma bomba-relógio demográfica, mortal para o welfare state.
A região perdeu dinamismo, as “conquistas” trabalhistas engessam a
economia, e os privilégios do setor público criaram uma classe de
parasitas acomodados. Nada disso vai ser resolvido com mais estímulos do
governo.
Austeridade ou crescimento? Trata-se de
uma falsa dicotomia. O governo, para gastar, precisa tirar do setor
privado via impostos ou produzir inflação, o que dá no mesmo. A
diferença é que alguns focam somente no curtíssimo prazo, enquanto
outros estão preocupados com a sustentabilidade do crescimento.
A esquerda populista grega convenceu os
eleitores, após alguns anos de dolorosos ajustes, que esse era o caminho
errado, e que fadas e duendes existem. A irresponsabilidade venceu
essas eleições, colocando em risco um casamento já muito delicado, pois o
“marido” não aguenta mais a “esposa” gastadora. A Grécia pode muito bem
ter tomado o primeiro grande passo rumo ao divórcio. O que seria do
país fora do euro?
A primeira coisa que podemos apostar com
mais convicção é que o dracma, sua antiga moeda, perderia muito valor e
produziria uma elevada inflação. Os gregos sofreriam ainda mais do que
com os ajustes impostos pela força da realidade econômica. A
irresponsabilidade da extrema-esquerda poderá levar à ascensão de um
governo fascista à frente, após os efeitos negativos do “combate à
austeridade”.
Mas nem tudo é notícia ruim. Os casais
brasileiros poderão desfrutar de uma lua de mel bem mais em conta nas
ilhas gregas. Só deverão tomar cuidado com seus pertences, pois a
criminalidade tende a aumentar num país destruído economicamente. Com
tal alerta em mente, terão a chance de ver de perto as ruínas gregas…
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