domingo, 4 de janeiro de 2015

Na batalha para enfraquecer Estado Islâmico, EUA investem na psicologia
Eric Schmitt - NYT
O major general Michael K. Nagata, comandante de Operações Especiais das forças norte-americanas no Oriente Médio, procurou ajuda neste verão para responder uma questão urgente dos militares dos EUA: o que torna o Estado Islâmico tão perigoso?
Tentando decifrar este complexo inimigo --um híbrido entre uma organização terrorista e um exército convencional-- é um enigma tão grande que Nagata montou um grupo não oficial de cérebros fora dos domínios tradicionais de expertise do Pentágono, do Departamento de Estado e das agências de inteligência, em busca de novas ideias e inspiração. Professores de administração, por exemplo, estão a analisando as estratégias de marketing e marca do Estado Islâmico.
"Nós não entendemos o movimento e a menos que isso aconteça, não conseguiremos derrotá-lo", disse ele, de acordo com a ata confidencial de uma teleconferência que manteve com os especialistas. "Nós não derrotamos a ideia. Nem sequer entendemos a ideia."
A frustração de Nagata é compartilhada por outros oficiais dos EUA. Mesmo enquanto o presidente Barack Obama e seus principais assessores civis e militares expressam uma confiança crescente de que as tropas iraquianas apoiadas por ataques aéreos dos aliados enfraqueceram o ímpeto do Estado Islâmico no Iraque e minaram sua base de apoio na Síria, outros funcionários reconhecem que eles mal conseguiram avançar na campanha maior e de longo prazo para acabar com a ideologia que anima o movimento terrorista.
Quatro meses depois de sua primeira sessão com os consultores externos, Nagata, uma das estrelas em ascensão do Exército e o homem que Obama designou para treinar um exército de rebeldes sírios apoiados pelo Pentágono para combater o Estado Islâmico, ainda está à procura de respostas.
"Essas questões e observações são a minha forma de investigar e questionar", disse Nagata, que se recusou a falar mais, sob ordens de seus superiores.
As atas das teleconferências internas entre Nagata e mais de três dúzias de peritos convocados por ele através de canais Pentágono em agosto e outubro oferecem uma visão incomum na luta para compreender o Estado Islâmico como um movimento, e sobre onde os altos líderes militares dos EUA estão mais concentrados.
Uma das observações iniciais do painel, que deixou Nagata intrigado, é a "capacidade de controle" do Estado Islâmico sobre uma população, de acordo com as atas.
Não se trata tanto do número de tropas ou dos tipos de armas que os militantes usam, disseram os especialistas. Pelo contrário, tratam-se dos meios intangíveis pelos quais o Estado Islâmico, também chamado ISIS ou ISIL, toma posse e mantém controle sobre o território e seu povo.
Essa habilidade, segundo eles, gira em torno de "táticas psicológicas para aterrorizar populações, de narrativas religiosas e sectárias e até de controles econômicos".
As atas, que são confidenciais, mas não restritas, revelam divergências entre os especialistas sobre se o objetivo principal do Estado Islâmico é ideológico ou territorial --Nagata encoraja visões concorrentes, instigando o grupo a ter "um debate e tanto" sobre suas perguntas.
Mas o painel levantou dúvidas sobre se o Estado Islâmico "tem a sofisticação burocrática necessária para governar".
"O fato de alguém tão experiente no contraterrorismo como Mike Nagata estar fazendo esse tipo de perguntas mostra que este é um problema muito difícil", disse Michael T. Flynn, um general de três estrelas aposentado do Exército e ex-diretor da Agência de Inteligência da Defesa que levantou preocupações parecidas publicamente.
Um relatório final do grupo, que é composto por membros da indústria, universidades e organizações de pesquisa de políticas, deve ser concluído no mês que vem.
Uma estratégia para enfraquecer a narrativa sedutora do Estado Islâmico pesa sobre os ombros de muitos outros altos funcionários do governo, bem como de altos líderes do Oriente Médio e da Europa.
Este mês, Lisa Monaco, conselheira de contraterrorismo e segurança interna de Obama, disse que o aumento do esforço do Estado islâmico para se estender a países como Arábia Saudita, Jordânia, Líbano e Líbia "é uma enorme área de preocupação". Cerca de mil combatentes estrangeiros vão para o Iraque e Síria a cada mês, dizem funcionários da inteligência dos Estados Unidos, a maioria para se juntar ao Estado islâmico.
"Acho que nós, como uma comunidade internacional, temos que chegar a um acordo na forma como vamos lidar com essas ideologias e movimentos que estão explorando os pontos fracos de vários países", disse John O. Brennan, diretor da CIA. "Temos que encontrar uma forma de lidar com alguns desses fatores e condições que estão ajudando e permitindo que estes movimentos cresçam."
Quando Nagata reuniu os especialistas pela primeira vez em uma teleconferência em 20 de agosto, ele descreveu suas prioridades e os desafios que o Estado Islâmico representa.
"O que torna o EI tão magnético e inspirador?", questionou ele. Ele expressou uma preocupação específica de que a organização militante tem "uma ressonância profunda com uma parte grande e específica da população islâmica, particularmente os homens jovens que buscam um e com uma parte específica, mas de grande população islâmica, particularmente homens jovens à procura de uma causa para seguir."
"Há uma atração magnética pelo EI, que está trazendo recursos, talentos e armas para aumentar, endurecer, e fortalecer o grupo de formas alarmantes", disse Nagata.
Durante a conferência, Nagata fez alusão ao uso sofisticado que o Estado Islâmico faz das mídias sociais para projetar e amplificar sua propaganda, e insistiu que os Estados Unidos precisavam de "pessoas nascidas e criadas na região" para ajudar a combater o problema.
"Quero começar um diálogo de longo prazo para chegar a uma compreensão conjunta do poder psicológico, emocional e cultural do EI em termos de uma diversidade de públicos", disse o general. "Eles estão atraindo pessoas em massa. Existem camisetas e canecas do EI".
Nagata zombou daqueles que, segundo ele, questionaram sua decisão de se concentrar tanto em compreender os valores intangíveis do Estado islâmico.
"O que nos foi pedido para fazer precisará de cada grama de criatividade que temos", disse ele. "Isto pode soar como uma excursão bizarra no surreal, mas para mim diz respeito a evitar o fracasso." 
Tradutor: Eloise De Vylder

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