"Nosso sistema de integração produz segregação enquanto acredita ser igualitário"
Maryline Baumard - Le Monde Seria preciso falar de apartheid para descrever a França, como fez o primeiro-ministro Manuel Valls, no dia 20 de janeiro? O diretor de pesquisas no instituto nacional de estudos demográficos (INED) e sociodemógrafo Patrick Simon propõe uma avaliação do modelo de integração francês. No final de fevereiro ele publicará um trabalho aprofundado na revista "Cahiers Français", do qual ele faz uma análise em primeira mão para o "Le Monde".
Le Monde: O primeiro-ministro usou o termo "apartheid". O uso dessa palavra tão forte lhe parece justificado na França de 2015?
Patrick Simon: Seria interessante saber exatamente aquilo que Manuel Valls coloca por trás dessa palavra. O termo apartheid remete primeiramente a um sistema de separação etnorracial, religioso, ou até social e sexual, institucionalizado. Em sua acepção mais ilustrativa, o apartheid remete ao "gueto", à segregação residencial.
Ele quis denunciar o fato de que certos bairros não possuem diversidade étnica ou social e que não haveria mais contato entre seus habitantes e o resto da sociedade? Ou ele queria alertar para o fato de que nossas instituições tais como elas funcionam hoje contribuem para uma divisão etnorracial da sociedade?
Le Monde: Sua pesquisa mostra que a sociedade francesa relega em vez de integrar?
Simon: Sim, as instituições e as políticas têm uma responsabilidade nas discriminações e na segregação que marcam o déficit de integração de certos grupos étnicos.
Le Monde: Como o senhor define a integração?
Simon: É um processo que pode ser abordado do ponto de vista da sociedade – os grupos sociais ocupam um lugar que contribui para a coesão do todo, ou do ponto de vista dos grupos e indivíduos que serão "integrados" caso se fundam no corpo social. Nessa segunda abordagem, que é a das instituições, um grupo minoritário se integra quando sua distância em relação à "norma majoritária" diminui. Para os imigrantes, isso se mede pelo uso da língua, pelas práticas culturais, pelo acesso ao emprego, pela segregação residencial, pelos casamentos mistos e pela participação na vida social e política.
Nós abordamos esses indicadores como recursos para participar da sociedade, mas eles são difíceis de interpretar. Assim, o acesso ao emprego ou a segregação residencial se avaliam mais em termos de discriminação, ou seja, tratamentos desfavoráveis e desigualdade nos mercados.
Le Monde: Que avaliação o senhor faz da integração das minorias na França?
Simon: A pesquisa "Trajetórias e origens" do INED e do Insee permite uma avaliação, pois ela faz uma varredura de todos os temas que acabo de citar. Ali é possível observar resultados diferentes de um indicador para outro.
Assim, 19% dos imigrantes e 14% de seus filhos hoje vivem em zonas urbanas sensíveis (ZUS) onde só reside 6% da população. Isso significa que, mesmo que ela venha diminuindo de uma geração para outra, a segregação espacial continua muito ativa. Ela é muito mais forte para as pessoas originárias do Magrebe e da África subsaariana: 28% dos imigrantes argelinos e 25% de seus descendentes vivem em um bairro de ZUS.
As trajetórias escolares são relativamente díspares. Ainda que, em meio social igual, os filhos de imigrantes se saiam melhor do que os da população majoritária, é muito frequente que abandonem a escola sem diploma e se voltem para setores pouco valorizados. As discriminações no mercado de trabalho se somam às qualificações menos procuradas culminando em um acesso ao emprego nitidamente mais difícil: o índice de desemprego entre os jovens de origem magrebina, africana ou turca é o dobro daquele vivido pelos jovens do grupo majoritário.
Por fim, a formação dos casais, que é um indicador do grau de abertura da estrutura social, mostra que são numerosas as misturas: 40% a 80% dos imigrantes que chegam jovens ou seus descendentes vivem junto com um parceiro oriundo do grupo majoritário.
Le Monde: Então tanto para a moradia quanto para o emprego temos de fato uma lógica de apartheid?
Simon: É mais sutil que o apartheid, que é uma política planificada. O sistema produz discriminações e segregações enquanto acredita ser igualitário. Só que nem as rendas, nem a situação familiar, nem o nível de educação bastam para explicar as discrepâncias observadas… O fato de pertencer a uma minoria visível é uma penalidade real e nosso modelo, que continua assimilacionista, é responsável por isso.
Na França, as políticas sociais são cegas às origens, mas os atores das políticas não. É possível até mesmo dizer que a questão das minorias racializadas é onipresente nas políticas de habitação, na escola, no mercado de trabalho, nos serviços públicos. Mas como a República supostamente deve ignorar as diferenças culturais, a consideração das origens se dá na zona cinzenta das políticas, e sem controle.
Veja o funcionamento da instituição de ensino. Ela passa por fortes desigualdades, que vêm se agravando nos últimos anos, e a relação das famílias de imigrantes com a escola, as posições específicas dos filhos de imigrantes na transmissão do saber ou as orientações por raça muito raramente são objeto de reflexão na instituição. Os dispositivos só dizem respeito ao acolhimento dos alunos não-francófonos, é pouco como abordagem. Esse avanço às cegas impede que sejam desconstruídos os mecanismos que produzem as desigualdades e que se ofereça o necessário àqueles que possuem necessidades específicas!
Le Monde: Isso remete ao problema francês da refutação das estatísticas étnicas...
Simon: A rejeição às estatísticas étnicas é somente uma manifestação dessa vontade mais geral de não ver as diferenças, de não levá-las em conta. Isso evidentemente impede que se conduzam políticas eficazes de integração e de combate às discriminações.
Le Monde: Quais são as políticas especificamente integrativas que a França está conduzindo?
Simon: Eu vejo dois dispositivos dedicados concretos, somente dois: a assinatura do contrato de acolhimento e integração, e a formação linguística.
Le Monde: Como o senhor avalia nosso modelo de integração?
Simon: Nós temos uma integração segmentada. Em matéria de ensino e emprego, de mobilidade na hierarquia social, o caminho ainda será longo para os descendentes de imigrantes do Magreb e da África subsaariana. Em compensação, nós observamos que os imigrantes estabelecidos na França têm uma rede de relações mais aberta do que se acredita. Quando perguntamos sobre os amigos com quem tiveram contato nos últimos quinze dias, 50% dos imigrantes e 60% de seus descendentes respondem que passaram tempo com amigos de alguma origem diferente da sua. É prova de que não há uma xenofobia.
Já nos Estados Unidos se observa uma menor porosidade das fronteiras raciais. Ao reservar vagas nas universidades, a política de "affirmative action" permitiu que as elites se abrissem um pouco e se formasse uma classe média afroamericana ou hispânica, mas na base as relações sociais e os bairros permanecem divididos de acordo com uma linha etnorracial. Eles têm uma integração por cima que nós não temos, pois estamos em uma sociedade de reprodução. E como os imigrantes entraram no sistema tendo pouco, e seus filhos um pouco mais, mas não muito…
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