Anna Villechenon - Le Monde
"Eles gritaram 'Allah Akbar' durante dois dias. Também fizeram ameaças: 'Se não foi suficiente para você, quando sairmos vamos fazer como os irmãos Kouachi'". Entre 7 e 9 de janeiro, o presídio de alta segurança de Condé-sur-Sarthe (departamento de Orne) viveu ao som dos gritos de alguns presidiários, exaltados pelos ataques terroristas na região parisiense, que eles acompanhavam ao vivo pela TV e pelo rádio.
"Eles gritaram 'Allah Akbar' durante dois dias. Também fizeram ameaças: 'Se não foi suficiente para você, quando sairmos vamos fazer como os irmãos Kouachi'". Entre 7 e 9 de janeiro, o presídio de alta segurança de Condé-sur-Sarthe (departamento de Orne) viveu ao som dos gritos de alguns presidiários, exaltados pelos ataques terroristas na região parisiense, que eles acompanhavam ao vivo pela TV e pelo rádio.
Tendo visto conversões e radicalizações no meio carcerário, Emmanuel Guimarães fala do islamismo na prisão como uma "espécie de moda". "Alguns deles nos dizem 'Alá vai te castigar' mesmo não sendo muçulmanos. Alguns só têm raiva, outros querem obter vantagens, como para o ramadã, por exemplo", ele diz. Se cerca de um entre cada quatro detentos observa o jejum tradicional nos presídios franceses, muitos deles o fazem para receber o jantar mais abundante. "Mas a maioria se converte para ter paz", diz o carcereiro com naturalidade.
O "perigo" dos "imames autoproclamados"
Franck Steiger, solto há um ano, passou no total seis anos em detenção, em oito prisões diferentes. Sem nenhuma religião, ele diz ter vivido seus anos em cárcere como "minoria". "Os muçulmanos têm o monopólio. Então para não terem problemas e serem protegidos, muitos se convertem, para fazer parte do grupo", ele afirma. Ele também foi "abordado", mas se direcionou para outros grupos. Segundo ele, as condições de detenção são determinantes nesse processo. "A falta de respeito, a violência, as medidas de retaliação, tudo isso provoca ódio" e vontade de se voltar para a religião, ele diz revoltado.
"A gente vê os detentos mudando, raspando a cabeça e deixando a barba crescer, trocando de companhias", conta Richard Payet, carcereiro no presídio de Ensisheim. "Eles criam para si uma nova família". A religião se torna então para muitos o meio de se redefinirem em um universo carcerário onde os presos têm poucas ou nenhuma referência. "Eles estão em um estado de fragilidade e precariedade, precisam ser ouvidos e orientados para não se perderem", alerta Missoum Chaoui, capelão penitenciário na região de Ile-de-France.
Para ele, assim como para os carcereiros, o "perigo" é a ausência ou a falta de uma figura de referência muçulmana em uma prisão, que deixa o território livre para os "imames autoproclamados". Então não há mais ninguém ali para "evitar a contaminação" de ideias que não têm nada a ver com esse culto junto a "jovens perdidos em busca de identidade", afirma Chaoui. Embora ele reconheça que os valores republicanos têm sido cada vez mais criticados pelos detentos que dizem seguir o islã, ele lamenta "um exagero midiático". "Alguns deles estão mais para casos psiquiátricos do que para o islamismo. Os radicais são pouquíssimos" e não representam os muçulmanos da França. Segundo o Ministério da Justiça, há 152 deles encarcerados atualmente, a maior parte deles na região de Ile-de-France.
"Contradiscurso"
Em quatro anos de exercício, Abdelhafid Laribi, capelão efetivo na penitenciária de Nanterre (Hauts-de-Seine) diz só ter confrontado um deles. "Era um convertido que não tinha nenhuma noção básica sobre o islamismo. Tentei conversar, ele não quis ouvir nada. Ele nunca voltou. Nesses casos, não se pode fazer nada, só evitar que outros caiam nesse radicalismo", ele suspira, sentado na biblioteca da Grande Mesquita de Paris. Quanto àqueles que possam cair, "a ideia é distinguir o verdadeiro do falso, fazê-los se questionarem, trazer outros pontos de vista, com paciência e didatismo para convencê-los", ele explica com um ar sério.
Essa capacidade ele adquiriu no instituto de teologia El Ghazali, da Grande Mesquita de Paris. Ali os capelões se formam em dois anos e aprendem, entre outras coisas, aquilo que eles chamam de "contradiscurso", ou seja, saber como responder ponto a ponto, com base em versículos do Corão, às incertezas e aos argumentos radicais. Seria um papel essencial segundo eles, que lamentam em uníssono não estarem em maior número.
Em janeiro, os capelães penitenciários muçulmanos eram em 182, contra 681 para o culto católico e 71 para o culto israelita. Sua presença foi reforçada em 2013 e 2014, "para pacificar a detenção e difundir um islamismo esclarecido", afirma o Ministério da Justiça. E 60 capelães serão recrutados no decorrer dos três próximos anos.
"Se a situação não mudar, ela vai piorar"
Em geral eles se queixam de uma falta de reconhecimento, uma vez que recebem compensações mínimas que muitas vezes são uma simples ajuda de custo, não possuem status [legal], aposentadoria ou previdência social. "Há uma falta de vontade política, sendo que estamos aqui para evitar a radicalização", se revolta Laribi. "Se a situação não mudar, ela vai piorar". Na quarta-feira, Manuel Valls também anunciou que iria dobrar as verbas dedicadas à capelania muçulmana. Enquanto isso, doadores complementam da forma que podem para financiar a compra de tapetes de orações e a impressão de folhetos religiosos para os detentos.
Impotentes diante do tamanho da missão, alguns capelães estão prestes a desistir. "Sinto-me desencorajado", suspira um deles, efetivo em uma grande penitenciária da região parisiense, que prefere manter o anonimato. Assim como a maioria de seus colegas, ele não consegue receber todos na oração de sexta-feira. Depois de terem feito um pedido para a prática do culto, somente 90 pessoas foram autorizadas a entrar na sala, por questões de segurança. Na lista de espera "há cerca de 700. Somos obrigados a fazer uma escolha", ele explica, irritado.
Os outros são obrigados a rezar dentro das celas. "Mas nem sempre há lugar, eles podem ser perturbados durante a oração por algum companheiro de cela ou um carcereiro. É óbvio que os muçulmanos têm mais dificuldades para exercer seu culto na prisão do que os detentos de outras religiões", critica Sarah Dindo, responsável pelas publicações no Observatório Internacional das Prisões. "Tudo isso cria neles um sentimento de injustiça, de desprezo em relação à sua religião."
Nenhum comentário:
Postar um comentário