Víctor Lapuente Giné e Rocío Martínez-Sampere - El País
Muitos dos crentes social-democratas recorrem ao insulto, ao desprezo ou à indignação diante dos que também querem levantar a bandeira da mudança e da justiça social. Mesmo sob o risco de parecermos hereges, não nos parece a melhor maneira de encarar o que é um fato hoje: cada dia mais gente de nossos meios diz que vai votar no Podemos. E não é porque tenham se tornado radicais, nem porque não pensem - como já pensavam antes - que o mundo é complexo e as soluções também. Tampouco porque tenham desempoeirado cartazes de líderes duvidosamente democráticos, semelhantes aos que, certamente, a geração da Transição tinha em suas salas. Não é nada disso. Vão votar no Podemos porque emocionalmente estão indignados com todos os responsáveis por um sistema que consideram carcomido e de um pacto social cozido na Transição que saltou pelos ares. E se convenceram de que, como ninguém tem credibilidade, o Podemos é o remédio mais racional para regenerar um sistema de partidos e instituições caduco, que todo mundo diz que mudará mas que ninguém muda.
A política deve ganhar crédito próprio, mais que tirá-lo do adversário. Com o que a social-democracia perderá se se dedicar a ser o valor de refúgio e cair na armadilha de contrapor razão e emoção: um aluvião de propostas que não incomodam, mas tampouco encantam. Não nos referimos a vender a ilusão das grandes declarações, de uma "sacudida democrática" ou de "assaltar o céu". Referimo-nos a vender a ilusão da única revolução que funciona na democracia: a da mudança progressiva. Uma revolução das pequenas coisas, capaz de gerar ao mesmo tempo interesse e credibilidade. Uma política com sentido e substância, mas também autêntica; isto é, com tantas contradições e incertezas quanto tem a própria vida. Que tanto em fins como em meios saia da zona de conforto.
Porque dizer que nosso fim é a regeneração, o crescimento ou a
manutenção do Estado do bem-estar; prometer mais direitos em mais leis
ou apelar para a igualdade ou a transparência, admitamos, não significa
mais nada. E configura esse modo tão espanhol de fazer política: "Olá.
Vote em mim! Vou solucionar seus problemas. Sou a favor do bem e contra o
mal".
A centro-esquerda radicalmente reformista deveria fazer um programa com tantos "nãos" quanto "sins", que fuja das soluções aparentes. Podemos deixar de falar tanto em contundência com os corruptos e começar a propor mudanças nas instituições que evitem, por exemplo, o desvio de verbas das obras públicas? Podemos deixar de falar tanto em utilizar montanhas de dados na web e começar a abrir a câmara blindada da tomada de decisões para que, por exemplo, se possa saber em tempo real de que empresa o governo compra o papel de escritório? Podemos deixar de falar tanto em impostos progressivos (os EUA são o país com o sistema fiscal mais progressivo do mundo, e não são exatamente um modelo de igualdade) e começar a falar em como se distribuem os gastos? Podemos começar a falar que não temos a fórmula - nem depende só da Espanha - para criar todo o emprego necessário? E que certamente terá mais a ver com "worksharing" do que com abolir ou aprovar uma lei? Podemos deixar de falar tanto na divisão entre empresários e trabalhadores e começar a falar em ser produtores e consumidores ao mesmo tempo, de Uber e Airbnb? Podemos deixar de falar tanto em despolitização e começar a tirar os membros de nossos partidos das instituições falsamente independentes? Podemos dizer que a imoralidade de os ricos estarem mais ricos hoje se soluciona não só fazendo que paguem mais, como controlando seu acesso às licitações? Podemos deixar de sacralizar as chapas que põem uma mulher como número 2, mas não solucionam um problema que é de distribuição do poder? Podemos aceitar que enquanto o número 2 de cada partido for o secretário de organização as estruturas ficarão imunes à mudança?... Queremos enfrentar esses fantasmas, ou preferimos o conforto das frases feitas de sempre? E se desta vez não servirem?
Em um mundo onde faltam certezas e sobra complexidade, é mais efetivo fazer-se perguntas sugestivas e aceitar a autenticidade do "depende" do que prometer (falsas) respostas lineares. Não podemos confabular sobre governar uma coletividade sem contradições.
Mas não só no quê, como também no como, é preciso abandonar a zona de conforto. Porque, embora seja verdade que precisamos de muito mais contundência contra os abusos de uma má distribuição do poder e de elites mais meritocráticas e representativas do que resistencialistas, instalar-se em uma mera narrativa contra os poderosos de pouco serve. Outras formações "sem mochila", seja a Podemos ou a Cidadãos, sempre parecerão mais convincentes no combate. O PSOE não pode ser inovador na guerra, mas pode sê-lo na paz. Nesta estratégia tem margem e modelos a seguir. Pois se aprendemos algo comparando países em todo tipo de indicadores é que o céu não se conquista por assalto, senão por consenso. Lugares como a Dinamarca, onde esquerda e direita - ou empresários e trabalhadores, castas e "descastados" - entraram historicamente em dinâmicas consensuais têm maior renda per capita, um crescimento econômico mais sustentável e respeitoso com o meio ambiente, mais igualdade (econômica, de oportunidades ou de gênero), mais satisfação geral com a vida, protegem melhor os direitos básicos de seus cidadãos - da saúde à educação, passando por todo tipo de direitos civis e sociais - e são os mais generosos em ajuda ao desenvolvimento além de suas fronteiras. Mais empreendedores, mais ricos, mais progressistas e mais solidários.
Com isto não queremos dizer que a Dinamarca ou os países nórdicos em geral sejam sociedades perfeitas. Sofrem inúmeros problemas. Mas, parafraseando Churchill, podemos dizer que, de um ponto de vista progressista, a Dinamarca é a pior sociedade do mundo com exceção de todas as que já existiram. Se a política é a arte de fazer felizes - ou menos infelizes - os cidadãos, não conhecemos política que o tenha conseguido melhor que as políticas de consenso social-democrata.
Entretanto, o triste paradoxo é que, enquanto a evidência indica que o maior progresso humano foi alcançado sob essa política de consenso social-democrata, não há nada mais desprestigiado hoje em dia que o consenso, percebido como uma divisão de poder para não mudar nada. A palavra "social-democracia" tampouco goza de boa saúde, e hoje só se escreve depois da locução "a crise da". Mas nisto residiu historicamente a força da social-democracia: em ter uma resposta original em seus momentos mais baixos, quando pareciam mais incompatíveis a economia de mercado e a justiça social; em romper com inércias adquiridas para buscar uma sociedade mais justa em médio e longo prazo.
Os social-democratas nórdicos, tão admirados hoje por Pablo Iglesias, tiveram êxito porque fizeram justamente o que ele recrimina em Pedro Sánchez: "Estar perdidos" em relação a políticas concretas - em vez de ser dogmáticos - e "não saber se vai pactuar ou não" com partidos da direita - em vez de manter-se puros. Pelo contrário, os socialistas franceses, os gregos, os italianos e inclusive os alemães foram mais fiéis às essências, da reforma trabalhista à administrativa.
Sem isso, sem duvidar, sem se atrever, sem arriscar novas soluções além das manchetes, a social-democracia ficará reduzida a mera espectadora dessa épica bíblica na qual muitos querem transformar a política em tempos de crise: a justiça poética dos Davis contra os Golias. Enquanto isso, o céu terá que esperar.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
A centro-esquerda radicalmente reformista deveria fazer um programa com tantos "nãos" quanto "sins", que fuja das soluções aparentes. Podemos deixar de falar tanto em contundência com os corruptos e começar a propor mudanças nas instituições que evitem, por exemplo, o desvio de verbas das obras públicas? Podemos deixar de falar tanto em utilizar montanhas de dados na web e começar a abrir a câmara blindada da tomada de decisões para que, por exemplo, se possa saber em tempo real de que empresa o governo compra o papel de escritório? Podemos deixar de falar tanto em impostos progressivos (os EUA são o país com o sistema fiscal mais progressivo do mundo, e não são exatamente um modelo de igualdade) e começar a falar em como se distribuem os gastos? Podemos começar a falar que não temos a fórmula - nem depende só da Espanha - para criar todo o emprego necessário? E que certamente terá mais a ver com "worksharing" do que com abolir ou aprovar uma lei? Podemos deixar de falar tanto na divisão entre empresários e trabalhadores e começar a falar em ser produtores e consumidores ao mesmo tempo, de Uber e Airbnb? Podemos deixar de falar tanto em despolitização e começar a tirar os membros de nossos partidos das instituições falsamente independentes? Podemos dizer que a imoralidade de os ricos estarem mais ricos hoje se soluciona não só fazendo que paguem mais, como controlando seu acesso às licitações? Podemos deixar de sacralizar as chapas que põem uma mulher como número 2, mas não solucionam um problema que é de distribuição do poder? Podemos aceitar que enquanto o número 2 de cada partido for o secretário de organização as estruturas ficarão imunes à mudança?... Queremos enfrentar esses fantasmas, ou preferimos o conforto das frases feitas de sempre? E se desta vez não servirem?
Em um mundo onde faltam certezas e sobra complexidade, é mais efetivo fazer-se perguntas sugestivas e aceitar a autenticidade do "depende" do que prometer (falsas) respostas lineares. Não podemos confabular sobre governar uma coletividade sem contradições.
Mas não só no quê, como também no como, é preciso abandonar a zona de conforto. Porque, embora seja verdade que precisamos de muito mais contundência contra os abusos de uma má distribuição do poder e de elites mais meritocráticas e representativas do que resistencialistas, instalar-se em uma mera narrativa contra os poderosos de pouco serve. Outras formações "sem mochila", seja a Podemos ou a Cidadãos, sempre parecerão mais convincentes no combate. O PSOE não pode ser inovador na guerra, mas pode sê-lo na paz. Nesta estratégia tem margem e modelos a seguir. Pois se aprendemos algo comparando países em todo tipo de indicadores é que o céu não se conquista por assalto, senão por consenso. Lugares como a Dinamarca, onde esquerda e direita - ou empresários e trabalhadores, castas e "descastados" - entraram historicamente em dinâmicas consensuais têm maior renda per capita, um crescimento econômico mais sustentável e respeitoso com o meio ambiente, mais igualdade (econômica, de oportunidades ou de gênero), mais satisfação geral com a vida, protegem melhor os direitos básicos de seus cidadãos - da saúde à educação, passando por todo tipo de direitos civis e sociais - e são os mais generosos em ajuda ao desenvolvimento além de suas fronteiras. Mais empreendedores, mais ricos, mais progressistas e mais solidários.
Com isto não queremos dizer que a Dinamarca ou os países nórdicos em geral sejam sociedades perfeitas. Sofrem inúmeros problemas. Mas, parafraseando Churchill, podemos dizer que, de um ponto de vista progressista, a Dinamarca é a pior sociedade do mundo com exceção de todas as que já existiram. Se a política é a arte de fazer felizes - ou menos infelizes - os cidadãos, não conhecemos política que o tenha conseguido melhor que as políticas de consenso social-democrata.
Entretanto, o triste paradoxo é que, enquanto a evidência indica que o maior progresso humano foi alcançado sob essa política de consenso social-democrata, não há nada mais desprestigiado hoje em dia que o consenso, percebido como uma divisão de poder para não mudar nada. A palavra "social-democracia" tampouco goza de boa saúde, e hoje só se escreve depois da locução "a crise da". Mas nisto residiu historicamente a força da social-democracia: em ter uma resposta original em seus momentos mais baixos, quando pareciam mais incompatíveis a economia de mercado e a justiça social; em romper com inércias adquiridas para buscar uma sociedade mais justa em médio e longo prazo.
Os social-democratas nórdicos, tão admirados hoje por Pablo Iglesias, tiveram êxito porque fizeram justamente o que ele recrimina em Pedro Sánchez: "Estar perdidos" em relação a políticas concretas - em vez de ser dogmáticos - e "não saber se vai pactuar ou não" com partidos da direita - em vez de manter-se puros. Pelo contrário, os socialistas franceses, os gregos, os italianos e inclusive os alemães foram mais fiéis às essências, da reforma trabalhista à administrativa.
Sem isso, sem duvidar, sem se atrever, sem arriscar novas soluções além das manchetes, a social-democracia ficará reduzida a mera espectadora dessa épica bíblica na qual muitos querem transformar a política em tempos de crise: a justiça poética dos Davis contra os Golias. Enquanto isso, o céu terá que esperar.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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