David Patrikarakos - NYT
Quando um estado fraco e corrupto fracassa em equipar seu exército, uma rede virtual de voluntários entra em ação.
Em um posto de fiscalização próximo à cidade ocupada de Donetsk,no leste da Ucrânia, a tenente-coronel Natalia Semeniuk se aproximou de um comboio de dois micro-ônibus que tinham acabado de chegar de Kiev. Pendurado em seu ombro estava um rifle de assalto AK-47. Mechas de cabelos longos e castanhos saíam do gorro que ela usava para se proteger do frio, que estava abaixo dos 6 graus negativos.
A coronel Semeniuk ia ao encontro de Anna Sandalova, uma ex-executiva
da relações públicas e fundadora da Help the Army of Ukraine [Ajude o
Exército da Ucrânia], uma fundação que usa o Facebook para levantar
dinheiro para comprar equipamentos para o exército ucraniano, que está
desesperadamente sem dinheiro.
Sandalova se tornou uma espécie de estrela no país, especialmente para os soldados. Ela fornece tudo para eles, desde coletes à prova de balas até óculos de visão noturna, sacos de dormir e alimentos. Desde que seu grupo foi criado em março, ele levantou mais de US$ 1,3 milhão, disse-me Sandalova, para a luta contra os separatistas pró-Rússia que ocuparam grandes partes do leste da Ucrânia.
Uma parte surpreendente do dinheiro é levantada via crowdfunding, com o povo ucraniano, através do Facebook. O processo é simples: Sandalova tem ligação com as divisões do exército que lutam em campo. Os soldados dizem a ela do que precisam e ela publica seus pedidos no Facebook. As pessoas doam via transferência bancária para a conta da fundação, e Sandalova e seus colegas então levam os itens para o leste da Ucrânia pessoalmente.
Naquele dia, os micro-ônibus estavam cheios a ponto de explodir. Vestida com um colete à prova de balas e um capacete, Sandalova seguiu Semeniuk até um acampamento do Exército Ucraniano na floresta perto de Donetsk para fazer sua primeira entrega. Barracas de lona pontilhavam a área, montadas entre grupos de árvores cobertos de neve. Soldados se reuniam em grupos, conversando e fumando. Alguns ajudaram a descarregar várias unidades de chuveiros portáteis.
Dezenas desses grupos voluntários surgiram à medida que o conflito se intensificou. "Tudo se resume às redes", explicou Sandalova. "O Facebook é perfeito para nossas necessidades porque nos permite, como indivíduos, sermos maiores do que a soma das nossas partes. Ele nos permite formar comunidades que podem conquistar coisas que de outra forma seriam impossíveis para os civis."
Sandalova faz entregas para soldados em várias divisões por toda a zona de guerra e a reação é sempre a mesma: satisfação. Ela tem a política de beijar os soldados solteiros. Em um acampamento próximo das linhas de frente, um soldado de vinte e poucos anos ficou vermelho-vivo quando Sandalova o beijou em cheio na bochecha, enquanto os camaradas dele rugiam em aprovação. Depois de dois dias, os micro-ônibus estavam vazios.
Sandalova é modesta em relação a seu papel. "É o poder da mídia social", diz ela simplesmente.
Ela não está errada. Pergunte a um ucraniano onde encontrar a fonte mais confiável de notícias militares e muito provavelmente ele apontará não para o site do Ministério da Defesa, mas para a "Information Resistance" uma análise amplamente lida, também no Facebook. Quer saber que contratos o governo está abrindo para concorrência? Fácil, cheque a página do Facebook do grupo da sociedade civil "Reformas do Pacote de Estímulo".
A revolução Euromaidan que derrubou o presidente Viktor F. Yanukovich em fevereiro animou o povo da Ucrânia. Ela mostrou do que as pessoas eram capazes. A sociedade civil, não o governo, está agora à frente, especialmente quando se alia à mídia social, que é perfeita para o espaço pós-soviético, onde as instituições se atrofiaram após anos de governo comunista. Tudo o que você precisa é de um laptop e uma conta no Facebook, e você pode agir.
O mais importante, tudo que Sandalova faz é rápido. Usar canais oficiais do governo requer várias permissões, que normalmente levam um tempo que simplesmente não está disponível quando as pessoas estão em guerra. "Não somos um departamento do governo que enfrenta uma burocracia sem fim", diz ela. "Nós simplesmente não temos esses problemas."
E a burocracia sem sentido é o menor dos problemas do governo. O estopim da revolução Euromaidan pode ter sido o fracasso de Yanukovich de assinar o acordo de associação à União Europeia, mas sua causa raiz foi o desgosto popular com duas décadas de corrupção onipresente.
É difícil superestimar a escala do problema. Em seu Índice de Percepção da Corrupção de 2013, a organização independente de pesquisa Transparência Internacional colocou a Ucrânia em 144º lugar, empatada com a República Centro Africana e abaixo do Cazaquistão.
Em nenhum outro lugar a corrupção é mais predominante do que nas forças militares. O Exército ucraniano é o estado em miniatura. Ele emergiu, como o país, da União Soviética em 1991 - enorme, mas inchado e apodrecido por dentro. A corrupção havia impedido o progresso desde a independência.
De acordo com o jornal ucraniano em língua inglesa The Kyiv Post, o orçamento militar da Ucrânia para 2014 foi de cerca de 3,4% do PIB, e boa parte disso desaparece nos bolsos de oficiais corruptos. A promoção nas fileiras depende não só da habilidade mas também da propina; soldados não são treinados na arte da guerra, mas na arte do roubo. Peças, armas, e até uniformes estão todos à venda.
O Serviço de Pesquisa do Congresso relatou que, em 2014, a União Europeia anunciou um pacote de ajuda de 11,1 bilhões de euros (US$ 15,5 bilhões) para a Ucrânia, enquanto o Congresso aprovou US$ 1 bilhão em garantias de empréstimos para completar mais de US$ 184 milhões em ajuda ao governo ucraniano para "reformas políticas e econômicas". Boa parte deste dinheiro será roubada, e mais ainda desperdiçada.
A estratégia internacional está errada. A sociedade civil ucraniana em todas as suas formas está cada vez mais fazendo o que o estado não consegue. Onde a atuação do estado falha, as pessoas estão fazendo a diferença; onde ela é lenta e flácida, elas são rápidas e eficientes.
Os Estados Unidos e a União Europeia deveriam destinar mais ajuda, financiamento e expertise, desviando do governo corrupto e esclerosado da Ucrânia e indo diretamente para os principais grupos da sociedade civil do país. A Ucrânia está lutando uma guerra na qual os meios do século 21 surgiram para permitir que redes de cidadãos, empoderados pelas mídias sociais, tenham um desempenho melhor que o do estado. A lição em campo é clara: para derrotar os separatistas, financie o povo ucraniano, não só o seu governo.
Tradutor: Eloise De Vylder
Sandalova se tornou uma espécie de estrela no país, especialmente para os soldados. Ela fornece tudo para eles, desde coletes à prova de balas até óculos de visão noturna, sacos de dormir e alimentos. Desde que seu grupo foi criado em março, ele levantou mais de US$ 1,3 milhão, disse-me Sandalova, para a luta contra os separatistas pró-Rússia que ocuparam grandes partes do leste da Ucrânia.
Uma parte surpreendente do dinheiro é levantada via crowdfunding, com o povo ucraniano, através do Facebook. O processo é simples: Sandalova tem ligação com as divisões do exército que lutam em campo. Os soldados dizem a ela do que precisam e ela publica seus pedidos no Facebook. As pessoas doam via transferência bancária para a conta da fundação, e Sandalova e seus colegas então levam os itens para o leste da Ucrânia pessoalmente.
Naquele dia, os micro-ônibus estavam cheios a ponto de explodir. Vestida com um colete à prova de balas e um capacete, Sandalova seguiu Semeniuk até um acampamento do Exército Ucraniano na floresta perto de Donetsk para fazer sua primeira entrega. Barracas de lona pontilhavam a área, montadas entre grupos de árvores cobertos de neve. Soldados se reuniam em grupos, conversando e fumando. Alguns ajudaram a descarregar várias unidades de chuveiros portáteis.
Dezenas desses grupos voluntários surgiram à medida que o conflito se intensificou. "Tudo se resume às redes", explicou Sandalova. "O Facebook é perfeito para nossas necessidades porque nos permite, como indivíduos, sermos maiores do que a soma das nossas partes. Ele nos permite formar comunidades que podem conquistar coisas que de outra forma seriam impossíveis para os civis."
Sandalova faz entregas para soldados em várias divisões por toda a zona de guerra e a reação é sempre a mesma: satisfação. Ela tem a política de beijar os soldados solteiros. Em um acampamento próximo das linhas de frente, um soldado de vinte e poucos anos ficou vermelho-vivo quando Sandalova o beijou em cheio na bochecha, enquanto os camaradas dele rugiam em aprovação. Depois de dois dias, os micro-ônibus estavam vazios.
Sandalova é modesta em relação a seu papel. "É o poder da mídia social", diz ela simplesmente.
Ela não está errada. Pergunte a um ucraniano onde encontrar a fonte mais confiável de notícias militares e muito provavelmente ele apontará não para o site do Ministério da Defesa, mas para a "Information Resistance" uma análise amplamente lida, também no Facebook. Quer saber que contratos o governo está abrindo para concorrência? Fácil, cheque a página do Facebook do grupo da sociedade civil "Reformas do Pacote de Estímulo".
A revolução Euromaidan que derrubou o presidente Viktor F. Yanukovich em fevereiro animou o povo da Ucrânia. Ela mostrou do que as pessoas eram capazes. A sociedade civil, não o governo, está agora à frente, especialmente quando se alia à mídia social, que é perfeita para o espaço pós-soviético, onde as instituições se atrofiaram após anos de governo comunista. Tudo o que você precisa é de um laptop e uma conta no Facebook, e você pode agir.
O mais importante, tudo que Sandalova faz é rápido. Usar canais oficiais do governo requer várias permissões, que normalmente levam um tempo que simplesmente não está disponível quando as pessoas estão em guerra. "Não somos um departamento do governo que enfrenta uma burocracia sem fim", diz ela. "Nós simplesmente não temos esses problemas."
E a burocracia sem sentido é o menor dos problemas do governo. O estopim da revolução Euromaidan pode ter sido o fracasso de Yanukovich de assinar o acordo de associação à União Europeia, mas sua causa raiz foi o desgosto popular com duas décadas de corrupção onipresente.
É difícil superestimar a escala do problema. Em seu Índice de Percepção da Corrupção de 2013, a organização independente de pesquisa Transparência Internacional colocou a Ucrânia em 144º lugar, empatada com a República Centro Africana e abaixo do Cazaquistão.
Em nenhum outro lugar a corrupção é mais predominante do que nas forças militares. O Exército ucraniano é o estado em miniatura. Ele emergiu, como o país, da União Soviética em 1991 - enorme, mas inchado e apodrecido por dentro. A corrupção havia impedido o progresso desde a independência.
De acordo com o jornal ucraniano em língua inglesa The Kyiv Post, o orçamento militar da Ucrânia para 2014 foi de cerca de 3,4% do PIB, e boa parte disso desaparece nos bolsos de oficiais corruptos. A promoção nas fileiras depende não só da habilidade mas também da propina; soldados não são treinados na arte da guerra, mas na arte do roubo. Peças, armas, e até uniformes estão todos à venda.
O Serviço de Pesquisa do Congresso relatou que, em 2014, a União Europeia anunciou um pacote de ajuda de 11,1 bilhões de euros (US$ 15,5 bilhões) para a Ucrânia, enquanto o Congresso aprovou US$ 1 bilhão em garantias de empréstimos para completar mais de US$ 184 milhões em ajuda ao governo ucraniano para "reformas políticas e econômicas". Boa parte deste dinheiro será roubada, e mais ainda desperdiçada.
A estratégia internacional está errada. A sociedade civil ucraniana em todas as suas formas está cada vez mais fazendo o que o estado não consegue. Onde a atuação do estado falha, as pessoas estão fazendo a diferença; onde ela é lenta e flácida, elas são rápidas e eficientes.
Os Estados Unidos e a União Europeia deveriam destinar mais ajuda, financiamento e expertise, desviando do governo corrupto e esclerosado da Ucrânia e indo diretamente para os principais grupos da sociedade civil do país. A Ucrânia está lutando uma guerra na qual os meios do século 21 surgiram para permitir que redes de cidadãos, empoderados pelas mídias sociais, tenham um desempenho melhor que o do estado. A lição em campo é clara: para derrotar os separatistas, financie o povo ucraniano, não só o seu governo.
Tradutor: Eloise De Vylder
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