A matriz energética em crise
SACHA CALMON - CORREIO BRAZILIENSE
O
Brasil tinha tudo para ter a melhor matriz energética do mundo, baseada
na hidroeletricidade, na energia eólica e nos biocombustíveis (etanol).
De quebra, poderíamos usar o gás natural e, por último, o petróleo.
Duas poderosas empresas, a Eletrobras e a Petrobras, detentoras de
grande expertise e quadros competentes, poderiam, com o prestimoso
capital de empresas privadas nacionais e internacionais, alavancar o
país, como nenhum outro, com baixo e aceitável nível de emissões de CO2.
Bastaram
12 anos de PT para inviabilizar, jurídica e operacionalmente, a
Petrobras e a Eletrobras, embaralhando a nossa política energética com
modelos operacionais inadequados, de tal modo que estamos envolvidos em
severa crise, segundo os especialistas e institutos dedicados ao setor,
como, por exemplo, o Acende Brasil, voltado à pesquisa, e as dezenas de
consultorias de nível internacional aqui sediadas.
Enquanto Lula e
Dilma se deram ao empenho de complicar a matriz energética, no exterior
muitos fatos aconteciam sem que nos déssemos conta das consequências.
Vamos listar os mais importantes: a) a alteração do regime competitivo
de concessão (pesquisa e lavra) pelo de partilha com a Petrobras,
necessariamente sócia com 30% em qualquer exploração operada por
empresas privadas, afastou os grandes players, forçando a estatal
brasiliera a ser a empresa mais endividada do mundo no setor petrolífero
(obrigada a arcar sozinha com uma tarefa difícil que deveria ser
compartilhada, em nome da celeridade e do lucro); b) os leilões de áreas
exploráveis, mesmo no modelo de participação de 30% da Petrobras,
praticamente pararam.
Valiosos capitais de risco e empresas de
alta tecnologia deixaram de ser usados nos esforços de pesquisa e
exploração de petróleo e gás (pura perda de tempo); c) a exigência de
conteúdo nacional nas encomendas da Petrobras encareceram o custo dos
equipamentos e a rapidez das entregas, atrasando o aproveitamento das
jazidas; d) o regime diferenciado de contratação (RDC) adotado pela
companhia, degenerou na maior corrupção da história recente do Brasil,
minando a sua credibilidade internacional; e) enquanto isso, os EUA, no
Texas e no nordeste, elevaram ao máximo a exploração do xisto
betuminoso, tornando-se exportador.
O México saiu do modelo
estatal e franqueou o Golfo do México às grandes petroleiras privadas; a
Rússia triplicou a capacidade de extrair e vender petróleo e gás. A
China tornou-se a quinta maior produtora do mundo. A Arábia Saudita,
para frear o avanço dos EUA e das energias não fósseis, porém de alto
custo, derrubou os preços da commoditie, negando-se a reduzir a produção
(dizem alguns que trará o preço a 45 dólares o barril, para
inviabilizar a exploração do xisto nos EUA).
Em conclusão, a
ausência de um quadro estratégico próprio fez a Petrobras fechar os
olhos para o exterior e para seu setor de negócios. A baixa de preço do
petróleo a pegou com as calças arriadas. O pré-sal só dá lucro, assim
mesmo mínimo, com o barril a 60 dólares. Abaixo desse preço torna-se
antieconômico. Para uma empresa que não aumentou o preço interno dos
combustíveis enquanto podia (para gerar caixa), obstada pelos interesses
de Lula-Dilma e do PT, forçando-a ao prejuízo, a situação agora está
insustentável. Com Drumond é de se perguntar: "E agora José Inácio?"
Na
área da energia limpa, a antecipação (quebra de contrato) das
concessões atrapalhou geradoras e, principalmente, distribuidoras de
energia elétrica. Dilma reduziu o setor elétrico a um monte de cacos,
desde uma dívida de curto prazo de R$ 80 bilhões, que, nós consumidores,
vamos pagar, ao uso errado de usinas de geração a fio d"água, sem
grandes reservatórios, e ao atraso generalizado na construção de linhas
de transmissão. Estamos emporcalhando o meio ambiente com termoelétricas
de alto custo. Aqui, os ambientalistas do PT calam-se, mas impediram
obras estruturantes atrasando as licenças ambientais. Um romântico
indianismo, uma adoração quase fálica pelos troncos das árvores e um
afeto ridículo pelas rãs, impediram, quando não atrasaram, usinas
hidroelétricas de energia limpa, com grandes reservatórios que tanta
falta nos fazem em quadras de estiagem no Sudeste, como a que estamos
passando.
Navegantes felizes de mares por outros desbravados,
mormente por FHC, o estabilizador da economia do país, os governos do PT
(Lula e Dilma) haverão de ser vistos no futuro como de desvairado
populismo, no melhor estilo da idiotia sul-americana de que nos fala
Vargas LLosa, e como destruidores da economia do país, algozes de
estatais submissas à politicagem. A Eletrobras e a Petrobras não
mereciam esse triste destino, nem o humilde povo do Brasil, vitimado
pela demagogia da luta de classes, o tal do "nós" contra "eles", em voga
durante as recentes eleições.
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