quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Alemanha 'apaga as luzes' contra movimento que defende a islamofobia
Frédéric Lemaître - Le Monde
Martin Meissner/AP
Luzes da catedral de Colônia foram apagadas em protesto contra ato convocado pelo grupo Pegida (Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente, em tradução livre) Luzes da catedral de Colônia foram apagadas em protesto contra ato convocado pelo grupo Pegida (Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente, em tradução livre)
Por trás de uma grande faixa escrita "Bem-vindos, refugiados", milhares de pessoas participaram de uma manifestação no começo da noite de segunda-feira (5) nas ruas de Berlim. Entre elas estava Heiko Maas, ministro da Justiça (do SPD, partido socialdemocrata). A esquerda e a maioria dos partidos políticos alemães não iam de maneira alguma deixar as ruas para os adeptos do Pegida, movimento de Dresden dos "patriotas europeus contra a islamização do Ocidente", que tem protestado toda segunda-feira em diversas cidades.
Como costuma acontecer, os contra-manifestantes estavam nitidamente em maior número em Berlim do que as poucas centenas de membros do Pegida, ainda que as associações turcas, que anunciaram a intenção de reunir 10 mil manifestantes em frente ao Portão de Brandemburgo, só tenham atraído algumas dezenas. Já no final de dezembro, 12 mil pessoas haviam marchado nas ruas de Munique contra o Pegida, um movimento que praticamente não existe na capital bávara. Na segunda-feira, foram 10 mil em Munster, 8.000 em Stuttgart e 4.000 em Hamburgo.

Crítica da chanceler

Na segunda-feira (5), o principal opositor do Pegida nem mesmo precisou sair às ruas. Para mostrar seu desacordo com as ideias extremistas desse movimento, o cardeal Woelki, responsável pela catedral de Colônia, decidiu apagar a iluminação desse prédio diante do qual os membros do Pegida pretendiam protestar. Era só o que ele podia fazer contra esses manifestantes que costumam segurar uma grande cruz com as cores da Alemanha, já que o pátio em frente à igreja fica a cargo das autoridades municipais. Essa iniciativa inspirou um movimento chamado "Sem luz para os racistas".
Em Colônia, além da catedral, foi todo o centro antigo que mergulhou na escuridão por iniciativa da prefeitura, bem como as pontes que os manifestantes percorreriam. Em Dresden, onde o Pegida reuniu 18 mil manifestantes --recorde até o momento--, a casa de ópera da cidade, o célebre Semperoper, ficou no escuro, assim como os prédios da Volkswagen. "Somos a favor de uma sociedade aberta, livre e democrática", explicou a montadora de automóveis para justificar sua adesão. Até o Portão de Brandemburgo, em Berlim, foi apagado na segunda-feira à noite.
No dia 31 de dezembro, em seu discurso de fim de ano, Angela Merkel surpreendeu ao criticar, sem dar nomes, esse movimento que pretende "defender o Ocidente" e protesta aos gritos de "Nós somos o povo!", o slogan dos opositores da Alemanha Oriental em 1989. "Eles dizem que são o povo, mas na verdade eles querem dizer que vocês não fazem parte dele por causa da cor da sua pele ou da sua religião", declarou a chanceler.
Alguns dias antes, em uma entrevista à "Der Spiegel", o ex-ministro do Interior, Hans-Peter Friedrich, membro da União Social-Democrata (CSU), havia apontado a política excessivamente centrista de Angela Merkel como responsável direta pela ascensão do Pegida. "Acho que, no passado, nós nos preocupamos muito pouco com a questão da identidade de nosso povo e de nossa nação", ele declarou. A chanceler evidentemente não levou nada disso em consideração.
Na terça-feira (6), o jornal popular "Bild" se posicionou claramente contra o Pegida, publicando um manifesto de 50 personalidades do meio político, empresarial, esportivo e artístico contra esse movimento.

Ruptura confirmada

Enquanto os pró e os contra-Pegida se medem toda segunda à noite, vários pesquisadores reunidos no conselho de imigração apresentaram na segunda-feira (5) um estudo sobre a "Alemanha pós-migratória". Os resultados confirmam a ruptura que caracteriza a sociedade alemã sobre esse assunto. Entre os alemães, 36% aprovam uma cultura de acolhimento e integração mais forte, mas 31% não veem necessidade disso. Aprovam a diversidade 47% dos alemães, mas 25% a rejeitam. E embora 54% dos alemães achem bom que "os imigrantes se sintam em casa na Alemanha", somente 36% gostam que "tantos imigrantes escolham a Alemanha como nova pátria".
Para esses pesquisadores, "a ideia segundo a qual a integração dos imigrantes espanta os preconceitos é falsa (…). As pessoas que acham que a coesão da sociedade está em risco pensam assim porque acreditam em uma nação culturalmente homogênea e rejeitam a diversidade".
Além disso, 69% das pessoas entrevistadas superestimam o número de muçulmanos que vivem na Alemanha. Dos entrevistados, 23% acreditam que os muçulmanos constituem mais de 20% da população, sendo que na verdade eles representam cerca de 5%.

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