Alemanha 'apaga as luzes' contra movimento que defende a islamofobia
Frédéric Lemaître - Le Monde
Martin Meissner/AP
Luzes da catedral de Colônia foram apagadas em
protesto contra ato convocado pelo grupo Pegida (Europeus Patrióticos
contra a Islamização do Ocidente, em tradução livre)Por trás de uma grande faixa escrita "Bem-vindos, refugiados", milhares de pessoas participaram de uma manifestação no começo da noite de segunda-feira (5) nas ruas de Berlim. Entre elas estava Heiko Maas, ministro da Justiça (do SPD, partido socialdemocrata). A esquerda e a maioria dos partidos políticos alemães não iam de maneira alguma deixar as ruas para os adeptos do Pegida, movimento de Dresden dos "patriotas europeus contra a islamização do Ocidente", que tem protestado toda segunda-feira em diversas cidades.
Crítica da chanceler
Na segunda-feira (5), o principal opositor do Pegida nem mesmo precisou sair às ruas. Para mostrar seu desacordo com as ideias extremistas desse movimento, o cardeal Woelki, responsável pela catedral de Colônia, decidiu apagar a iluminação desse prédio diante do qual os membros do Pegida pretendiam protestar. Era só o que ele podia fazer contra esses manifestantes que costumam segurar uma grande cruz com as cores da Alemanha, já que o pátio em frente à igreja fica a cargo das autoridades municipais. Essa iniciativa inspirou um movimento chamado "Sem luz para os racistas".Em Colônia, além da catedral, foi todo o centro antigo que mergulhou na escuridão por iniciativa da prefeitura, bem como as pontes que os manifestantes percorreriam. Em Dresden, onde o Pegida reuniu 18 mil manifestantes --recorde até o momento--, a casa de ópera da cidade, o célebre Semperoper, ficou no escuro, assim como os prédios da Volkswagen. "Somos a favor de uma sociedade aberta, livre e democrática", explicou a montadora de automóveis para justificar sua adesão. Até o Portão de Brandemburgo, em Berlim, foi apagado na segunda-feira à noite.
No dia 31 de dezembro, em seu discurso de fim de ano, Angela Merkel surpreendeu ao criticar, sem dar nomes, esse movimento que pretende "defender o Ocidente" e protesta aos gritos de "Nós somos o povo!", o slogan dos opositores da Alemanha Oriental em 1989. "Eles dizem que são o povo, mas na verdade eles querem dizer que vocês não fazem parte dele por causa da cor da sua pele ou da sua religião", declarou a chanceler.
Alguns dias antes, em uma entrevista à "Der Spiegel", o ex-ministro do Interior, Hans-Peter Friedrich, membro da União Social-Democrata (CSU), havia apontado a política excessivamente centrista de Angela Merkel como responsável direta pela ascensão do Pegida. "Acho que, no passado, nós nos preocupamos muito pouco com a questão da identidade de nosso povo e de nossa nação", ele declarou. A chanceler evidentemente não levou nada disso em consideração.
Na terça-feira (6), o jornal popular "Bild" se posicionou claramente contra o Pegida, publicando um manifesto de 50 personalidades do meio político, empresarial, esportivo e artístico contra esse movimento.
Ruptura confirmada
Enquanto os pró e os contra-Pegida se medem toda segunda à noite, vários pesquisadores reunidos no conselho de imigração apresentaram na segunda-feira (5) um estudo sobre a "Alemanha pós-migratória". Os resultados confirmam a ruptura que caracteriza a sociedade alemã sobre esse assunto. Entre os alemães, 36% aprovam uma cultura de acolhimento e integração mais forte, mas 31% não veem necessidade disso. Aprovam a diversidade 47% dos alemães, mas 25% a rejeitam. E embora 54% dos alemães achem bom que "os imigrantes se sintam em casa na Alemanha", somente 36% gostam que "tantos imigrantes escolham a Alemanha como nova pátria".Para esses pesquisadores, "a ideia segundo a qual a integração dos imigrantes espanta os preconceitos é falsa (…). As pessoas que acham que a coesão da sociedade está em risco pensam assim porque acreditam em uma nação culturalmente homogênea e rejeitam a diversidade".
Além disso, 69% das pessoas entrevistadas superestimam o número de muçulmanos que vivem na Alemanha. Dos entrevistados, 23% acreditam que os muçulmanos constituem mais de 20% da população, sendo que na verdade eles representam cerca de 5%.
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