Periferia é o futuro do setor ferroviário na França
Philippe Escande - Le Monde
Jacques Demarthon/AFP
Usuários de trem em estação de Paris
Nós gostávamos tanto deles, desses monstros fumegantes todos de aço que levaram a França de uma revolução industrial, a do vapor, para a da eletricidade. Eles se aperfeiçoaram com o tempo. O touro negro virou uma serpente laranja, mas as pessoas ainda têm esse estranho sentimento de familiaridade e de orgulho quando passam pelas grandes estações ferroviárias parisienses, assim como as das cidadezinhas do interior. Quanto não se brincou ali durante a infância, quantos parentes e amigos não esperamos em plataformas lotadas, quanto não se sonhou com viagens longínquas…?
A eficiência vingou. Mas não a igualdade, como mostra o aumento constante do preço das passagens. Isso porque um trem, muito antes de ser uma locomotiva e vagões, é primeiramente uma rede. E a do TGV custa caro: mais de 20 milhões de euros o quilômetro. Nenhuma rede, seja ela telefônica, elétrica ou rodoviária custa tanto assim. Esse é o equivalente aos gastos anuais de uma cidade de 10 mil habitantes para cada milhar de metros instalado!
Não são as gesticulações de Ségolène Royal [ministra de Ecologia, Desenvolvimento Sustentável e Energia] que mudarão essa situação. Esses aumentos traduzem, antes de tudo, o aumento constante dos pedágios destinados a cobrir a manutenção das vias e a conter a dívida colossal que surgiu com sua construção.
Periferia é o futuro do setor ferroviário
Como o Estado patrocinador e onipotente nunca teve recursos para financiar tal esforço, ele inchou uma dívida que hoje está fora de controle. Em quase 40 bilhões de euros hoje, a dívida da SNCF [companhia estatal ferroviária] chegará a 61 bilhões até 2025.A razão desse descontrole se deve em grande parte à inconsequência do Estado e das administrações locais que, atendendo ao interesse geral de planejamento do território e a interesses particulares de políticos locais, permitiram a expansão de linhas de TGV, com lucro não garantido, na direção de Estrasburgo e Bordeaux, por exemplo. Por fim, a locomotiva ferroviária saiu de controle, assim como a energia nuclear, outro totem tecnológico dos anos 1980, com um abuso de custos que comprometeu toda a estrutura do sistema.
No entanto, o trem tem um belo futuro pela frente, que é conectar as zonas densas já saturadas de automóveis. O trem de periferia, tão desprezado que se esqueceram de investir em sua modernização, é o futuro do setor ferroviário. Os anéis ferroviários que estão sendo feitos em torno da Grande Paris são sinal disso.
O trem, assim como o Estado, precisa se reconstruir em torno de dois valores principais um tanto esquecidos, e sem os quais não há ambição que dure: a modéstia e a eficiência.
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