O paradoxo do terrorismo cometido em nome da religião está enraizado em uma revolta contra a modernidade.
Kenan Malik - TINYT
Farooq Khan/EFE
17.dez.2014
- Muçulmanos participam de cerimônia em Srinagar, na Índia, em memória
às vítimas do ataque a uma escola militar em Peshawar, no PaquistãoDiante de um horror como a matança de 148 alunos e funcionários de uma escola pelo Taleban no Paquistão, é tentador descrever o ato como "desumano" ou "medieval". O que tornou o massacre particularmente assustador, porém, é que não foi nenhum dos dois. A chacina foi demasiadamente humana e do nosso tempo.
O que esses grupos parecem ter em comum é que afirmam agir em nome do islã. Muitos se perguntam por que tantos dos conflitos mais violentos de hoje parecem envolver islamitas? E por que os grupos islâmicos parecem muito mais cruéis, sádicos ou até mesmo diabólicos?
Os muçulmanos não são o único grupo religioso envolvido na perpetração de horrores. Desde as milícias cristãs na República Centro-africana que supostamente comem seus inimigos até os monges budistas que organizam pogroms contra os muçulmanos em Mianmar, há uma abundância de crueldade do mundo. E tampouco os religiosos são os únicos a cometer atos grotescos. No entanto, segundo os críticos, parece haver algo particularmente potente dentro do islã no fomento à violência, ao terror e à perseguição.
Estas são questões explosivas e precisam ser examinadas com cuidado. O problema é que esse debate permanece preso entre a intolerância e o medo. Para muitos, as ações de grupos como o Estado Islâmico ou o Taleban meramente fornecem munição para promover o ódio contra os muçulmanos.
Muitos liberais, por outro lado, preferem contornar a questão, sugerindo que o Taleban ou o Estado Islâmico não representam "o verdadeiro islã" -uma reivindicação feita recentemente tanto pelo presidente Obama quanto pelo primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron. Muitos argumentam, também, que as ações desses grupos são movidas pela política, não pela religião.
Nenhuma das duas alegações é sólida. Uma religião se define não apenas por seus textos sagrados, mas também pela forma como seus fiéis interpretam esses textos -ou seja, por suas práticas. As formas pelas quais os fiéis agem com base em sua fé definem aquela fé. O fato de extremistas islâmicos praticarem sua religião de uma forma abominável para os liberais não torna essa prática menos real.
Também não faz sentido pensar que o Taleban ou o Estado Islâmico sejam motivados simplesmente pela política, assim como não são puramente motivados pela religião. O islamismo radical é a forma religiosa através da qual um determinado tipo de ira política bárbara se expressa.
Em vez disso, precisamos indagar por que a revolta política contra o Ocidente assume essas formas niilistas hoje. E por que o islã radical tornou-se seu principal veículo?
O caráter do sentimento anti-ocidental mudou notavelmente nas últimas décadas. Há uma longa história de movimentos anti-imperialistas que se estende desde a revolução haitiana da década de 1790 até os movimentos de independência das décadas de 60 e 70 na África e na Ásia. Enquanto desafiaram o poder ocidental e muitas vezes usaram meios violentos, eles raramente foram essencialmente "anti-Ocidente". Na verdade, seus líderes muitas vezes adotavam ideias revolucionárias que vinham do Ocidente, localizando-se na tradição do Iluminismo europeu.
Frantz Fanon, nacionalista argelino nascido na Martinica, foi um dos mais importantes teóricos anticoloniais. Ele sugeria que o objetivo não era rejeitar as ideias ocidentais, e sim recuperá-las.
"Todos os elementos de uma solução para os grandes problemas da humanidade existiram, em diferentes momentos, no pensamento europeu", escreveu. "Mas os europeus não executaram, na prática, a missão que lhes cabia".
Os anti-imperialistas do passado viam a si mesmos como parte de um projeto político mais amplo, que queria modernizar política e economicamente o mundo não ocidental. Hoje, no entanto, o próprio projeto político mais amplo é considerado a base do problema. Há um desencanto considerável com muitos aspectos da modernidade, desde o individualismo à globalização, desde a quebra de culturas tradicionais à fragmentação das sociedades, desde a perda das fronteiras morais até a aparente insensibilidade do mundo contemporâneo.
No passado, os racistas muitas vezes consideravam a modernidade como uma propriedade do Ocidente e consideravam o mundo não-ocidental incapaz de modernização. Hoje, são os radicais que muitas vezes consideram a modernidade como um produto ocidental e rejeitam tanto ela quanto o Ocidente como se fossem produtos contaminados.
A consequência foi uma transformação do sentimento anti-ocidental, que antes era um questionamento da política imperialista, para uma revolta incipiente contra a modernidade. Muitas vertentes do pensamento contemporâneo, incluindo as adotadas pelos "verdes profundos" e a extrema esquerda, expressam aspectos de tal descontentamento. Mas foi o islamismo radical que se tornou o para-raios desta fúria.
Há muitas formas de islamismo, do Taleban ao Hamas, da Irmandade Muçulmana ao Boko Haram. O que eles têm em comum é a capacidade de fundir a hostilidade contra o Ocidente com ódio à modernidade e, aparentemente, fornecer uma alternativa para ambos. Os islamistas casam a militância política com uma sensibilidade social conservadora, uma hostilidade à globalização com a adoção da ummah global (comunidade mundial dos fiéis muçulmanos). Ao fazê-lo, eles transformam em força os aspectos contraditórios de sua raiva contra a modernidade.
O jihadismo fornece à ideologia islamista um formato militar e aparentemente cria um movimento social global, em um momento em que as alternativas radicais entraram em colapso. O que o jihadismo não possui é a estrutura moral e filosófica que guiou os movimentos anti-imperialistas. Sem essa estrutura, e reduzidos a brandir contra o mundo, os jihadistas adotam o terror como um fim em si mesmo.
O banho de sangue em Peshawar, como as decapitações em massa por parte do Estado Islâmico, nos dizem algo sobre o caráter do islã contemporâneo e do islamismo. Diz-nos ainda mais sobre o estado da política contemporânea, especialmente da política radical.
Tradutor: Deborah Weinberg
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