terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O niilismo do islamismo radical 
O paradoxo do terrorismo cometido em nome da religião está enraizado em uma revolta contra a modernidade. 
Kenan Malik - TINYT
Farooq Khan/EFE
17.dez.2014 - Muçulmanos participam de cerimônia em Srinagar, na Índia, em memória às vítimas do ataque a uma escola militar em Peshawar, no Paquistão 17.dez.2014 - Muçulmanos participam de cerimônia em Srinagar, na Índia, em memória às vítimas do ataque a uma escola militar em Peshawar, no Paquistão
Diante de um horror como a matança de 148 alunos e funcionários de uma escola pelo Taleban no Paquistão, é tentador descrever o ato como "desumano" ou "medieval". O que tornou o massacre particularmente assustador, porém, é que não foi nenhum dos dois. A chacina foi demasiadamente humana e do nosso tempo.
O massacre de Peshawar pode ter sido particularmente detestável, mas os Talebans atacaram pelo menos 1.000 escolas ao longo dos últimos cinco anos. Eles massacraram centenas de pessoas em atentados suicidas contra igrejas e mesquitas. E, além do Paquistão, há a brutalidade de grupos como o Estado Islâmico, Boko Haram e Shabab.
O que esses grupos parecem ter em comum é que afirmam agir em nome do islã. Muitos se perguntam por que tantos dos conflitos mais violentos de hoje parecem envolver islamitas? E por que os grupos islâmicos parecem muito mais cruéis, sádicos ou até mesmo diabólicos?
Os muçulmanos não são o único grupo religioso envolvido na perpetração de horrores. Desde as milícias cristãs na República Centro-africana que supostamente comem seus inimigos até os monges budistas que organizam pogroms contra os muçulmanos em Mianmar, há uma abundância de crueldade do mundo. E tampouco os religiosos são os únicos a cometer atos grotescos. No entanto, segundo os críticos, parece haver algo particularmente potente dentro do islã no fomento à violência, ao terror e à perseguição.
Estas são questões explosivas e precisam ser examinadas com cuidado. O problema é que esse debate permanece preso entre a intolerância e o medo. Para muitos, as ações de grupos como o Estado Islâmico ou o Taleban meramente fornecem munição para promover o ódio contra os muçulmanos.
Muitos liberais, por outro lado, preferem contornar a questão, sugerindo que o Taleban ou o Estado Islâmico não representam "o verdadeiro islã" -uma reivindicação feita recentemente tanto pelo presidente Obama quanto pelo primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron. Muitos argumentam, também, que as ações desses grupos são movidas pela política, não pela religião.
Nenhuma das duas alegações é sólida. Uma religião se define não apenas por seus textos sagrados, mas também pela forma como seus fiéis interpretam esses textos -ou seja, por suas práticas. As formas pelas quais os fiéis agem com base em sua fé definem aquela fé. O fato de extremistas islâmicos praticarem sua religião de uma forma abominável para os liberais não torna essa prática menos real.
Também não faz sentido pensar que o Taleban ou o Estado Islâmico sejam motivados simplesmente pela política, assim como não são puramente motivados pela religião. O islamismo radical é a forma religiosa através da qual um determinado tipo de ira política bárbara se expressa.
Em vez disso, precisamos indagar por que a revolta política contra o Ocidente assume essas formas niilistas hoje. E por que o islã radical tornou-se seu principal veículo?
O caráter do sentimento anti-ocidental mudou notavelmente nas últimas décadas. Há uma longa história de movimentos anti-imperialistas que se estende desde a revolução haitiana da década de 1790 até os movimentos de independência das décadas de 60 e 70 na África e na Ásia. Enquanto desafiaram o poder ocidental e muitas vezes usaram meios violentos, eles raramente foram essencialmente "anti-Ocidente". Na verdade, seus líderes muitas vezes adotavam ideias revolucionárias que vinham do Ocidente, localizando-se na tradição do Iluminismo europeu.
Frantz Fanon, nacionalista argelino nascido na Martinica, foi um dos mais importantes teóricos anticoloniais. Ele sugeria que o objetivo não era rejeitar as ideias ocidentais, e sim recuperá-las.
"Todos os elementos de uma solução para os grandes problemas da humanidade existiram, em diferentes momentos, no pensamento europeu", escreveu. "Mas os europeus não executaram, na prática, a missão que lhes cabia".
Os anti-imperialistas do passado viam a si mesmos como parte de um projeto político mais amplo, que queria modernizar política e economicamente o mundo não ocidental. Hoje, no entanto, o próprio projeto político mais amplo é considerado a base do problema. Há um desencanto considerável com muitos aspectos da modernidade, desde o individualismo à globalização, desde a quebra de culturas tradicionais à fragmentação das sociedades, desde a perda das fronteiras morais até a aparente insensibilidade do mundo contemporâneo.
No passado, os racistas muitas vezes consideravam a modernidade como uma propriedade do Ocidente e consideravam o mundo não-ocidental incapaz de modernização. Hoje, são os radicais que muitas vezes consideram a modernidade como um produto ocidental e rejeitam tanto ela quanto o Ocidente como se fossem produtos contaminados.
A consequência foi uma transformação do sentimento anti-ocidental, que antes era um questionamento da política imperialista, para uma revolta incipiente contra a modernidade. Muitas vertentes do pensamento contemporâneo, incluindo as adotadas pelos "verdes profundos" e a extrema esquerda, expressam aspectos de tal descontentamento. Mas foi o islamismo radical que se tornou o para-raios desta fúria.
Há muitas formas de islamismo, do Taleban ao Hamas, da Irmandade Muçulmana ao Boko Haram. O que eles têm em comum é a capacidade de fundir a hostilidade contra o Ocidente com ódio à modernidade e, aparentemente, fornecer uma alternativa para ambos. Os islamistas casam a militância política com uma sensibilidade social conservadora, uma hostilidade à globalização com a adoção da ummah global (comunidade mundial dos fiéis muçulmanos). Ao fazê-lo, eles transformam em força os aspectos contraditórios de sua raiva contra a modernidade.
O jihadismo fornece à ideologia islamista um formato militar e aparentemente cria um movimento social global, em um momento em que as alternativas radicais entraram em colapso. O que o jihadismo não possui é a estrutura moral e filosófica que guiou os movimentos anti-imperialistas. Sem essa estrutura, e reduzidos a brandir contra o mundo, os jihadistas adotam o terror como um fim em si mesmo.
O banho de sangue em Peshawar, como as decapitações em massa por parte do Estado Islâmico, nos dizem algo sobre o caráter do islã contemporâneo e do islamismo. Diz-nos ainda mais sobre o estado da política contemporânea, especialmente da política radical.
Tradutor: Deborah Weinberg

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