sexta-feira, 3 de abril de 2015

Carne vermelha não é a inimiga
Aaron E. Carroll - NYT
Thinkstock
Alertas contra a carne vermelha são mais fortes do que precisavam ser Alertas contra a carne vermelha são mais fortes do que precisavam ser
Há pessoas nos Estados Unidos que comem carne vermelha demais. Elas deveriam reduzir a quantidade. Há pessoas comendo carboidratos demais. Elas também deveriam reduzir a quantidade. Também há pessoas comendo gordura demais, e o mesmo se aplica a elas.
O que está ficando mais difícil justificar, entretanto, é o foco em um nutriente específico como culpado por tudo.
Eu já escrevi artigos para o portal "The Upshot" sobre como fortes alertas contra o sal e colesterol não são devidamente apoiados por evidências. Mas é possível que nenhum alimento tenha sido mais atacado nas últimas décadas que a carne vermelha.
Assim como outros bandidos na guerra dos alimentos, os alertas contra a carne vermelha são mais fortes do que precisavam ser.
Os americanos estão mais obesos e acima do peso do que nunca. Também não há dúvida de que estão comendo mais carne do que em eras anteriores. Mas nós reduzimos nosso consumo de carne vermelha ao longo da última década. Isso não resultou em uma diminuição imensa dos índices de obesidade ou óbito por problemas cardiovasculares.
Os mesmos relatórios também mostram que estamos comendo significativamente mais hortifrutis do que décadas atrás. Nós também estamos comendo mais grãos e adoçantes.
E aí que está o problema: nós estamos ingerindo mais calorias do que precisamos. Mas em grande parte de nossa discussão sobre dieta, nós buscamos um culpado nutricional individual. Nós também tendemos a generalizar todos como "comendo demais".
Eu vi muitas pessoas apontarem para um estudo do ano passado, que mostrou que a maior ingestão de proteína estava associada a um maior índice de mortalidade por todas as doenças, com aumentos elevados na chance de morte por câncer ou diabete. Mas um exame atento do relatório, entretanto, conta uma história diferente.
Esse foi um estudo de coorte realizado pelo Levantamento Nacional de Saúde e Nutrição (Nhanes, na sigla em inglês). Ele apontou que não havia associação entre consumo de proteína e morte por todas as causas, doença cardiovascular ou câncer individualmente quando todos os 50 pacientes com mais de 50 anos foram considerados. Ele detectou uma associação estatisticamente significativa entre o consumo de proteína e morte por diabete, mas os pesquisadores alertaram que o número de pessoas na análise era pequeno demais, de modo que os resultados deveriam ser considerados com cautela.
Os resultados assustadores de dois parágrafos acima são de uma subanálise que se concentrou apenas em pessoas de 50 a 65 anos. Mas se você olhar para pessoas com mais de 65 anos, o oposto é verdadeiro. O alto consumo de proteína estava associado a níveis mais baixos de mortalidade por todas as causas e especificamente por câncer. Se você realmente acreditar que esse estudo prova o que as pessoas dizem, nós devemos aconselhar a pessoas com mais de 65 anos a consumirem mais carne. Ninguém aconselha isso.
Além disso, o estudo definiu as pessoas no grupo de "alto consumo de proteína" como aquelas que comiam 20% ou mais de suas calorias na forma de proteína. Quando o Departamento de Agricultura recomenda que os americanos obtenham 10% a 35% de suas calorias a partir de proteínas, 20% não deveria ser considerado alto.
Se eu quisesse escolher a dedo os estudos, eu poderia apontar para um estudo de 2013 que usou os mesmos dados do Nhanes para concluir que o consumo de carne não está associado à mortalidade.
Mas vamos evitar escolher a dedo. Uma meta-análise de 2013 de estudos sobre dietas com carne, incluindo os acima, apontou que as pessoas no grupo de consumo mais alto de todas as carnes vermelhas apresentava um aumento relativo de 29% de mortalidade por todas as causas em comparação ao grupo de consumo mais baixo. Mas grande parte disso era causado por carnes vermelhas processadas, como bacon, linguíça ou salame.
Evidência epidemiológica só pode nos levar até certo ponto. Como já escrevi antes, esse tipos de estudos podem ser falhos. Nada ilustra isso melhor do que uma clássica revisão sistemática de 2012 que basicamente mostrou que tudo o que comemos está associado tanto a índices mais altos quanto mais baixos de câncer.
Nós realmente precisamos de testes aleatórios controlados para responder essas perguntas. Eles existem, mas em relação aos níveis de lipídeos como colesterol e triglicérides. Uma meta-análise examinando oito testes apontou que a carne bovina em comparação ao consumo de carne de aves e peixe não alterava significativamente os níveis de colesterol e triglicérides.
Mas tudo isso ignora o ponto principal. É importante entender o que quanto "muito" realmente é. As pessoas no grupo de maior consumo de carne vermelha comiam apenas uma ou duas porções por dia. As pessoas no grupo mais baixo comiam cerca de duas porções por semana. Se você come múltiplas porções de carne vermelha por dia, então, sim, seria bom considerar reduzir. Mas eu apostaria que a maioria das pessoas lendo este artigo não come tanto assim. Se você come algumas porções por semana, então provavelmente você está agindo bem.
Tantos alertas parecem ter feito a diferença em nossos hábitos alimentares. Os americanos comem menos carne vermelha hoje do que em qualquer momento desde os anos 70. As recomendações dos médicos não foram ignoradas. Nós também estamos um pouco melhor no consumo de hortifrutis. Nosso consumo de carboidratos, como grãos e açúcar, entretanto, está crescendo. Isso se deve, em parte, à nossa obsessão em evitar gorduras e carne vermelha.
Nós estamos comendo calorias demais, mas não necessariamente da mesma forma. Reduzir o que estamos comendo demais de um modo equilibrado parecer ser a abordagem mais sensata.
No final do ano passado, uma meta-análise de programas de dieta de grife foi publicada na "Journal of the American Medical Association". O estudo comparou os resultados tanto das próprias dietas individuais quanto de três classes, que incluem baixo carboidrato (como Atkins), macronutrientes moderados (Vigilantes do Peso) e baixa gordura (Ornish). Todas as dietas levaram a uma redução da ingestão de calorias, e todas levaram a perda de peso em seis meses e, em menor grau, em 12 meses. Não havia uma vencedora clara, nem uma perdedora clara.
Onde isso nos deixa? É difícil encontrar uma mensagem melhor do que esta: a melhor dieta é aquela que você provavelmente manterá. O que não é de ajuda é escolher um culpado nutricional para a saúde ruim e proclamar que todo mundo está comendo errado. Há notavelmente pouca evidência de que isso é verdadeiro sempre que acontece.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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