sexta-feira, 3 de abril de 2015

Ex-militares americanos e ex-combatentes se unem a milícias que lutam contra o Estado Islâmico
Joan Faus - El País
Khalid Mohammed/AP
Membros do grupo militante xiita iraquiano Imam Ali lançam foguetes contra extremistas do Estado Islâmico durante confrontos em Tikrit, a 130 quilômetros ao norte de Bagdá, no Iraque Membros do grupo militante xiita iraquiano Imam Ali lançam foguetes contra extremistas do Estado Islâmico durante confrontos em Tikrit, a 130 quilômetros ao norte de Bagdá, no Iraque
Sentir que o esforço e as vidas perdidas foram inúteis é um apelo interior muito intenso. A ascensão do grupo jihadista Estado Islâmico (EI) faz os soldados americanos que estiveram mobilizados nos últimos anos no Afeganistão e no Iraque reviverem traumas. E propicia decisões drásticas: deixar uma vida como militar aposentado nos EUA para ir lutar como voluntário contra o EI no Iraque ou na Síria.
Dezenas de americanos, muitos deles ex-militares, uniram-se nos últimos meses a milícias que combatem os extremistas sunitas, que controlam amplas partes do Iraque e da Síria e pretendem estabelecer um califado. "Em geral, simplesmente querem derrotar o EI", disse Matthew VanDyke, um americano de 35 anos que participou da criação de uma milícia de cerca de 300 cristãos sírios no norte do Iraque.
Quatro soldados americanos aposentados os treinaram entre dezembro e fevereiro em uma base de nacionalistas curdos nos arredores de Mosul, o maior feudo do EI no Iraque. Já voltaram aos EUA. Não recebiam soldo e a maioria está na faixa dos 20 anos. Participaram das intervenções no Iraque entre 2003 e 2011, ou no Afeganistão, que se mantém desde 2001.
Diante da difícil adaptação à vida civil nos EUA, a saudade de um ambiente militar e o anseio por justiça, a luta contra o EI torna-se atraente para os ex-militares. Alguns dão o passo e viajam para o Iraque ou a Síria. Sua história simboliza os transtornos da geração que combateu nas chamadas guerras contra o terrorismo e está marcada pelo estresse pós-traumático.
Os voluntários pretendem compensar a ausência de tropas de combate americanas em campo. "Estamos onde os governos fracassam em agir. Podemos fazê-lo muito rápido, não precisamos de um voto do Congresso", afirma VanDyke em uma entrevista em Washington.
Em 2011, VanDyke lutou com os rebeldes líbios e passou seis meses preso pelas forças de Muammar Gaddafi. Antes viveu no Iraque e depois na Síria.
Os EUA lideram uma coalizão internacional de bombardeios contra o EI no Iraque e na Síria, que começaram em agosto e setembro, respectivamente. No Iraque estão mobilizados 3 mil militares, que treinam e assessoram as forças nacionais e curdas. Mas, à diferença da intervenção que terminou há quatro anos, quando se acreditava ter estabilizado o Iraque, exclui tropas para lutar em campo. A Casa Branca pediu em fevereiro autorização ao Congresso para que possam lutar em terra em casos excepcionais, mas o pedido está estagnado.
VanDyke fundou em outubro a Filhos da Liberdade Internacional, uma organização que pretende administrar o treinamento de cristãos sírios no Iraque para que possam voltar a suas localidades conquistadas pelo EI. VanDyke se encarregou de captar - e depois colaborou com eles no Iraque - os veteranos que treinaram a milícia conhecida como Unidade de Proteção da Planície de Nínive (NPU), enquanto as autoridades locais recrutaram os combatentes cristãos e coordenaram a logística.
"El País" confirmou com três fontes, e por meio de fotografias e vídeos, a existência dessa milícia. A NPU se alimenta de doações de cristãos. Um deles é a Organização Mesopotâmica Americana, com sede na Califórnia e cujo objetivo é a criação de uma província para a minoria síria no Iraque, que vive perseguida. Entregou "dezenas de milhares de dólares" à NPU para seu treinamento (sem incluir armas), segundo explica por telefone seu porta-voz, Jeff Gardner.
No final de fevereiro, a organização rompeu relações com VanDyke por discrepâncias pessoais. Atualmente ele tenta promover outra milícia de cristãos treinada por ex-militares americanos. Enquanto isso, a NPU negocia com as autoridades curdas sua mobilização na frente e prevê ampliar seu contingente.
Os serviços de inteligência estimam que cerca de 150 americanos viajaram à Síria, ou tentaram fazê-lo, para se unir a grupos jihadistas. Mas não há cálculos sobre quantos tomaram a decisão inversa. Um porta-voz de uma milícia curda disse ao jornal "The New York Times" que mais de cem americanos combatem o EI na Síria. No Iraque, líderes curdos anunciaram que há uma dezena de ocidentais, mas depois o desmentiram.
Não é um fenômeno novo. Brigadistas americanos participaram da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais antes que os EUA entrassem oficialmente nos conflitos. Também o fizeram na Guerra Civil espanhola.
Agora aumenta a preocupação: "O governo não aprova que cidadãos americanos viajem ao Iraque ou à Síria para lutar contra o EI", explica um funcionário graduado do Departamento de Estado. Além dos riscos próprios de uma guerra, há os legais: lutar com milícias que têm ligações com grupos que os EUA consideram organizações terroristas. Segundo um porta-voz do Departamento da Justiça, cada caso é diferente porque depende da atividade do voluntário e com quem ele combate.
Lutar com certos grupos pode acarretar um delito de apoio material ao terrorismo. O único caso recente que se conhece é o de um ex-militar que em 2013 foi detido nos EUA acusado de combater na Síria com a Frente Al Nusra, um ramo da Al Qaeda que luta contra o regime sírio. Enfrentava inclusive a pena de morte, mas seis meses depois foi libertado ao fazer um acordo com a promotoria e declarar-se culpado de um delito menor. Segundo seus advogados, a promotoria admitiu que havia se equivocado porque o voluntário se uniu a uma milícia rebelde não terrorista.
As dúvidas legais se estendem aos promotores dessa atividade, que pode chegar a ser considerada uma guerra privada, e que solicitam financiamento em suas páginas na web, como VanDyke e a Organização Mesopotâmia Americana. Todo cidadão ou entidade americano precisa de uma licença para prover serviços de defesa, incluindo treinamento, no estrangeiro, explicam no Departamento de Estado. A aprovação depende de fatores como a quem se treina ou se está em jogo o interesse da segurança nacional dos EUA.
Na hora de escolher os voluntários, VanDyke os divide entre os que têm "boa" ou "má" motivação. De um lado "há pessoas que saíram do exército, têm um trabalho civil, mas não estão contentes e querem fazer algo que os faça sentir-se importantes de novo". E do outro, "os doentes mentais, os caçadores de emoções", que incluem desde ex-militares frustrados porque nunca foram à guerra até civis desorientados.
Chez, um ex-fuzileiro naval de 38 anos que passou três meses mobilizado no Iraque, conhece vários veteranos que manifestaram interesse nas redes sociais por lutar contra o EI. Ele não pensa nisso, por sua família e porque não acredita que a estratégia contra os jihadistas deva ser militar. Mas crê entender os motivos dos outros. "Muitos morreram tentando se desfazer das pessoas que agora usam o nome de EI. Por isso estão principalmente motivados pelo desejo de acabar o trabalho", escreve em um e-mail, da Califórnia.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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