quinta-feira, 9 de abril de 2015

O que os candidatos à presidência dos EUA precisam possuir
David Brooks - NYT
Domínio Público/ Biblioteca do Congresso dos EUAUma das últimas fotos do presidente Abraham Lincoln, assassinado em 1865 Uma das últimas fotos do presidente Abraham Lincoln, assassinado em 1865
Eu tenho duas tradições em eleições presidenciais. Começo a cobertura de cada campanha pela leitura de um livro sobre Abraham Lincoln e termino a noite da eleição, geralmente depois da meia-noite, na estátua do Memorial Lincoln.
Começo lendo um livro sobre Lincoln não porque seja justo esperar que qualquer um dos candidatos alcance o patamar de Lincoln, mas porque ele faz você pensar sobre qual tipo de coisas deveríamos procurar em um candidato presidencial. Qualquer candidato digno de apoio deve ter pelo menos os rudimentos do que Lincoln tinha em abundância: uma visão dos fundamentos, um temperamento de ouro e uma estratégia sagaz para saber como lidar com as realidades políticas do momento.
Lincoln desenvolveu sua visão fundamental de uma forma que parece refutar nossas práticas educativas contemporâneas. Hoje nós acumulamos anos de estudos. Lemos centenas de livros ao longo dos anos. Nós agrupamos os alunos por grupos com notas e resultados semelhantes.
Lincoln teve muito pouca educação formal. Ele não ficou enclausurado em um campus; passou seus anos de formação em contato diário com uma espantosa variedade de personagens. Se sua experiência social era grande, sua experiência literária era estreita. Ele leu menos livros ao longo de toda sua formação do que muitos estudantes contemporâneos leem em um único ano. Em termos literários, ele preferia profundidade à quantidade. Ele leu intensamente Shakespeare, a Bíblia King James, "The Pilgrim's Progress" (em tradução livre: "O progresso do peregrino") e "The Life of Washington" (em tradução livre: "A vida de Washington") de Parson Weems.
Esta formação deu-lhe uma visão moral que emergia da vida, não da leitura.
Ele viu os EUA como uma terra onde os meninos e meninas pobres e ambiciosos como ele poderiam transformar-se pelo trabalho duro, de melhoria moral. Ele acreditava em um governo que constrói canais e ferrovias e bancos para atiçar o fogo da indústria. Ele acreditava que a escravidão era errada, em parte porque as pessoas devem ser livres para controlar o seu próprio trabalho. Ele acreditava em uma providência ativa, mas incognoscível.
Esta visão era seu norte. Ele podia variar os caminhos conforme a política exigia, mas avançava gradualmente sempre nesta direção transformadora. Qualquer candidato presidencial precisa desse tipo de visão motivadora consistente -uma imagem de um país ideal tão profundamente entranhada em seus ossos que permanece no inconsciente, útil como uma bússola quando as distrações da vida de Washington vêm como uma enxurrada.
O temperamento de Lincoln ultrapassa qualquer explicação. Sua experiência precoce com depressão e sofrimento deu-lhe um sentido radical de honestidade consigo mesmo. Ele tinha a personalidade dupla necessária a todos os nossos líderes. Entrou em uma sangrenta guerra civil, mas não sabia odiar. Envolvia-se profundamente, mas também era capaz de voltar atrás; defendia apaixonadamente sua posição, mas também era capaz de ver o ponto de vista de seu inimigo; era consciente de seu próprio poder, mas sabia quando estava indefeso nas mãos do destino; era extremamente autoconfiante, mas extremamente humilde. Os candidatos que não têm um temperamento contraditório não têm uma forma de avaliar e conter seus excessos e, portanto, são perigosos.
As habilidades de Lincoln como estrategista político parecem ser o menor de seus dons, mas de fato estão entre seus maiores. É fácil acreditar cegamente, ou governar ou fazer uma campanha com o pé no pedal o tempo todo. É muito mais difícil saber quando tocar no freio e quando pisar no acelerador.
Nós estudamos as mudanças de fase táticas de Lincoln no curso de Estratégia Maior I que eu ajudo a lecionar em Yale. Nunca há tempo suficiente para cobrir todas.
A maioria dos esforços de Lincoln foi projetada para conter a paixão em favor de um progresso sustentável. Outros teriam feito um discurso de posse heroico, mas Lincoln fez uma descrição breve e seca. Outros teriam enchido a Proclamação da Emancipação com exclamações, mas o projeto de Lincoln é tão sem graça quanto possível. Outros queriam o fim imediato da escravidão. Lincoln tentou acabar com ela através de meios econômicos pouco românticos e graduais. Ele esperava que, se limitasse a demanda por escravos (detendo a propagação da escravidão e pagando as pessoas para não mantê-los), poderia fazer baixar o preço e tornar o empreendimento financeiramente inviável.
Este ano, a contenção estratégica de Lincoln seria o mais necessário de seus traços. Vivemos em um tempo partidário, com movimentos que tratam com dureza aqueles que defendem os ajustes, os que querem fechar acordos e os querem avançar aos poucos. Mas, para aprovar leis, o próximo presidente terá de perpetuamente decepcionar os mais fervorosos e elaborar uma estratégia legislativa que consiga obter consistentemente uma maioria na Câmara e 60 votos no Senado.
Nós não vamos conseguir um Lincoln. Uma pessoa com o rosto dele não sobreviveria à era da TV. Uma pessoa com a sua capacidade de introspecção não poderia sobreviver no atual ambiente de campanha pessoal 24 horas por dia. Mas nós precisamos de alguém com uma parcela dos seus dons –uma pessoa filosoficamente firme, emocionalmente madura e taticamente astuta.
Bem, pelo menos podemos encontrar a melhor aproximação possível.
Tradutora: Deborah Weinberg 

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