Petrobrás - cadê os sindicatos?
SUELY CALDAS - O Estado de S.Paulo
A multiplicação, defesa e proteção de
empresas estatais está presente no programa e no discurso de
representantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e dos sindicatos a ele
ligados por meio da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Mas nos
governos petistas de Lula e Dilma Rousseff ocorreu o inverso: a prática
negou o discurso e o programa foi rasgado. O excessivo e desarvorado uso
político das duas maiores empresas estatais brasileiras - Petrobrás e
Eletrobrás - as levou, 12 anos depois, a um desfecho dramático de
colapso financeiro a que nenhum governo megaliberal ousaria conduzi-las.
E pior: tudo se passou em absoluto silêncio, sem nenhuma pressão
política, alerta, contestação, protesto, campanha nas ruas, seja lá o
que for de parte dos sindicatos de petroleiros e eletricitários, sempre
tão atuantes, ciosos e barulhentos quando gritam contra a privatização.
Cabe a pergunta: se destruídas elas não servem aos brasileiros, a quem
devem servir? A resposta o leitor encontra nas investigações reveladas
pela Operação Lava Jato na Petrobrás, em que Polícia Federal e
Ministério Público encontraram indícios e prometem estender à
Eletrobrás.
Atacada por gestões de diretores corruptos, políticos gananciosos,
empreiteiras que superfaturam obras e doleiros que lavam dinheiro, a
Petrobrás migrou da editoria de economia para as páginas policiais dos
jornais: é acusada de trapaças e de corrupção por acionistas
minoritários nos EUA e, no Brasil, é manchete diária na imprensa,
inclusive nos telejornais que chegam a quase 100 milhões de brasileiros.
Primeiro efeito: perdeu pontos na sua classificação de risco e não tem
mais crédito barato no exterior. E mais: no Brasil o crédito também
minguou, pois a empresa de auditoria externa negou aval ao seu balanço e
a saída pelo mercado de capitais ficou inviável com a queda expressiva
de suas ações. Além de acrescentar despesas ao seu caixa com pagamento
de advogados caros nos EUA, como ela vai sustentar seu assombroso plano
de investimentos que lhe impôs a presidente Dilma ao jogar no seu colo
30% de todos os poços do pré-sal?
Mas não é isso o que preocupa Dilma e a direção da Petrobrás no momento.
O problema financeiro da estatal é mais urgente: ou entra dinheiro
agora ou ela para investimentos importantes. Fornecedores já têm se
queixado de atraso de pagamentos; estaleiros na Bahia e no Rio Grande do
Sul demitem trabalhadores em razão de contratos por ela cancelados; e
centrais sindicais pressionam o governo para ela bancar indenizações
trabalhistas aos demitidos dessas empresas. Logo ela, que passou anos
acumulando prejuízos pelo congelamento forçado dos preços de
combustíveis, como vai dar conta do fluxo de caixa cotidiano, que já é
pesado, mais essas despesas extras que não seriam de sua
responsabilidade?
Como o crédito secou, o jeito foi chamar o mágico e montar mais uma
operação de alquimia: a Eletrobrás reconhece dívida de R$ 9 bilhões, que
antes questionava, a Petrobrás emite títulos lastreados nessa dívida e
garantidos pelo Tesouro e vende esses papéis no mercado sabe-se lá com
que deságio. Resultado: com as finanças também combalidas, a Eletrobrás
sai ilesa e não subtrai um tostão na operação; para a Petrobrás entra o
dinheiro abatido pelo deságio; e, para o contribuinte de impostos, resta
pagar a conta ao Tesouro.
A esse roteiro de desmoralização da maior e mais prestigiada empresa do
País, orgulho dos brasileiros, o PT e os sindicatos assistiram não como
contestadores, mas como protagonistas. O PT, beneficiado com 3% das
comissões dos contratos entre a Petrobrás e empreiteiras, e os
sindicatos, com suas lideranças ocupando cargos de chefia na Petrobrás.
Como Dilma Rousseff espera que os brasileiros acreditem em suas
promessas de apurar crimes e punir corruptos "doa a quem doer", se seu
partido inocenta políticos e empreiteiras no relatório final da CPI?
Como petroleiros vão acreditar e respeitar seus sindicatos se eles nem
sequer protestaram, ao contrário, calaram em cumplicidade diante de
gestões irresponsáveis que há 12 anos desmoralizam a Petrobrás?
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