Romance do Pantaju
(César Leal - Autobiografia)
Nasci numa casa grande
dos Inhamuns, no Ceará,
terra onde engorda e cresce
o melhor gado que há
em todo o Brasil-Nordeste
se a seca não o devasta:
é o vale do Jaguaribe,
terra dos Feitosa e Monte,
terra dos Caracarás,
dos Leal, dos Cavalcanti.
Muito jovem fui treinado
nas artes do pastoreio
— criei cedo um nobre estilo
no desafiar de peito
ao cinzento aço bicórneo
que se aos homens degrada
no perfil nobre de um touro
o faz belo e respeitado.
Seguia sempre o meu dono
junto ao pataleo do gado,
olhos recuados na sombra
de uma tranqüila humildade,
patas pisando ligeiras
os ossos da relva parda
Circundava-me o pescoço
de leão, quase de touro,
uma coleira de couro
com três argolas de prata.
Chamavam-me Pantaju
— pêlos de bronze polido —
quando o solo ao sol rachava
nas margens do Jaguaribe
punha meu rabo de molho
no limo sujo do rio;
meus dentes da cor do orvalho
mordendo jamais feriam,
exceto o touro zebu,
terror de outros Pantajus.
Termino aqui nesta quadra
minha pobre biografia,
tu, César, foste o meu dono,
conta o resto em poesia!
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