terça-feira, 4 de outubro de 2011

Alexandra




Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor
Hilda Hilst

I


Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca


Austera. Toma-me AGORA, ANTES


Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes


Da morte, amor, da minha morte, toma-me


Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute


Em cadência minha escura agonia.






Tempo do corpo este tempo, da fome


Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,


Um sol de diamante alimentando o ventre,


O leite da tua carne, a minha


Fugidia.


E sobre nós este tempo futuro urdindo


Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida


A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.






Te descobres vivo sob um jogo novo.


Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,


Antes do muro, antes da terra, devo


Devo gritar a minha palavra, uma encantada


Ilharga


Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar


Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo


Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.








Tateio. A fronte. O braço. O ombro.


O fundo sortilégio da omoplata.


Matéria-menina a tua fronte e eu


Madurez, ausência nos teus claros


Guardados.






Ai, ai de mim. Enquanto caminhas


Em lúcida altivez, eu já sou o passado.


Esta fronte que é minha, prodigiosa


De núpcias e caminho


É tão diversa da tua fronte descuidada.






Tateio. E a um só tempo vivo


E vou morrendo. Entre terra e água


Meu existir anfíbio. Passeia


Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:


Noturno girassol. Rama secreta.


(...)

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