Deputado recua e diz agora que colegas são 'gente boa'
Pivô de escândalo na Assembleia baixa tom de acusações de venda de emendas
Roque Barbiere (PTB) diz ao Conselho de Ética da Casa que declarações foram mal interpretadas e reclama do governo
Adriano Vizoni -FSP
O deputado estadual Roque Barbiere (PTB), que enviou uma carta ao Conselho de Ética NIEL RONCAGLIA
O deputado que acusou os colegas na Assembleia Legislativa de São Paulo de negociar a distribuição de recursos do Orçamento do Estado para prefeitos e empreiteiras recuou ontem, baixando o tom das acusações e declarando que os outros integrantes da Casa são "gente boa".
Em depoimento por escrito ao Conselho de Ética da Assembleia, o deputado estadual Roque Barbiere (PTB) disse que foi mal interpretado em suas recentes entrevistas e que não tem condições de dizer quantos parlamentares negociam suas emendas ao Orçamento estadual, por não ser "médium ou adivinho".
O deputado criticou a imprensa e voltou a atacar o governo do Estado, que teria deixado sem resposta seus questionamentos sobre a maneira como as indicações dos parlamentares são tratadas pelos secretários estaduais.
A assessoria do governador Geraldo Alckmin (PSDB) nega que o governo tenha sido alertado pelo deputado em algum momento. Alckmin afirmou no início da semana que Barbiere tem o "dever" de apontar os colegas que teriam praticado ilegalidades ao negociar suas emendas.
Convidado pelo Conselho de Ética da Assembleia a se explicar, Barbiere apresentou ontem uma carta de 22 páginas. O documento foi entregue ao presidente do PTB de São Paulo, deputado Campos Machado, e lido por um assessor da Assembleia.
Barbiere acusou a imprensa de ter distorcido suas declarações. Em agosto, em entrevista ao jornal "Folha da Região", de Araçatuba, ele disse estimar que "25 a 30%" dos deputados estaduais negociariam suas emendas.
Na carta entregue ontem, ele disse ter notícias de que "um pequeno grupo" de deputados negocia suas emendas, mas se recusou a apontar nomes e disse que o número usado antes não era um "percentual matemático e devidamente comprovado".
Ameaçado pelos colegas com a possibilidade de um processo de cassação se não comprovar as suas acusações, Barbiere disse que não quis "ofender" ninguém: "Sempre afirmei e reafirmo que a grande maioria dos deputados era, e é, gente boa".
Na próxima terça-feira, o Conselho de Ética deve votar um requerimento para convocar Barbiere para se explicar no plenário da comissão.
O Conselho de Ética da Assembleia também aprovou convite para que o secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas (PSDB), explique a entrevista em que recentemente disse ter recebido uma oferta de propina para propor uma emenda ao Orçamento.
Deputado estadual licenciado e um dos prés-candidatos tucanos à Prefeitura de São Paulo nas eleições do ano que vem, Covas disse depois que falava de um caso hipotético na entrevista. Ontem, ele não deixou claro se irá depor. "Vai depender se os deputados querem que eu diga aquilo que já disse."
Na Birigui de 'Roquinho', mãe dá nome a bairro e biblioteca pública
Pivô de crise é descrito como 'sem papas na língua' por aliados e 'populista' por desafetos
RODRIGO VIZEU - ENVIADO ESPECIAL A BIRIGUI (SP)
No conjunto residencial Thereza Maria Barbiere, em Birigui (507 km de São Paulo), é difícil encontrar quem não acompanhe as acusações do deputado estadual Roque Barbiere (PTB-SP) de venda de emendas na Assembleia.
Moradores do bairro, batizado com o nome da mãe do deputado quando ele era vice-prefeito, dizem ser eleitores de Barbiere e o apoiam na polêmica. No local também há uma biblioteca com o nome da mãe do petebista.
Birigui integra a base eleitoral de Barbiere, conhecido por lá apenas como Roquinho. Na região, ele é descrito como "populista" e "agressivo" por adversários e como "brigador" e "sem papas na língua" por aliados.
Eleitores citam entre suas ações o pagamento de consultas médicas e a distribuição de cadeiras de rodas.
O comerciante Jaime Carvalho, que diz conhecer o deputado há anos, afirma que Barbiere deve ter feito a acusação porque, "se pisar no calo dele, o bicho é brabo, não gosta de segredo".
Desafeto do deputado, o prefeito de Birigui, Wilson Borini (PMDB), disse que o adversário pode ter decidido expor o caso porque algum rival começou a destinar recursos para a região.
Borini sustenta a hipótese em um diálogo que teve, em 2005, com o deputado Pedro Tobias (PSDB), atual presidente estadual da legenda.
Em uma conversa sobre emendas com o prefeito, Tobias teria dito: "Eu não posso mandar, senão vai ter problema com o Roquinho". O tucano confirmou o diálogo.
Em entrevista nessa semana, Barbiere disse não se importar com a concorrência.
O prefeito define o deputado como político "de tempo antigo". Conta que decidiu disputar a reeleição após Barbiere citar sua mãe, que é cega, em um discurso: "Wilson não cuida nem da mãe, vai cuidar da população?".
Aliados de Barbiere, os vereadores Cristiano Salmerão (PPS) e Vadão da Farmácia (PTB) disseram que preferem não polemizar.
Sobre a hipótese de a interferência de outros deputados na região ter motivado as acusações de venda de emendas, Salmerão, que é sobrinho de Barbiere, diz que ele "não tem essa vaidade".
Nascido em Coroados, vizinha a Birigui, onde tem uma fazenda, Barbiere, 59, é casado e acaba de ter uma filha prematura, que passa por acompanhamento médico.
Em 2008, ele disputou a Prefeitura de Birigui e perdeu para Borini. Deputado de sexto mandato, tem seu gabinete na Assembleia decorado por uma foto dele montado em um avestruz e uma coleção de retratos do governador Mário Covas (PSDB).
Do Blog:
Num post passado eu disse que isso iria acontecer. O que o sujeito quer, ninguém sabe. Ser prefeito de Birigui? "Alguém pisou no calo dele" segundo um morador, o vereador "Vadão" da Farmácia quer contemporizar. Pelo enredo e os personagens, tem-se a capacidade de discernimento do eleitorado. Zero.
Cada "polvo" tem o governo que merece.
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