Alemanha precisa escolher entre uma zona do euro diferente ou fim do conglomerado
Martin Wolf - NYT
"Talvez os futuros historiadores considerem Maastricht como um passo decisivo para o surgimento de um poder estável na Europa como um todo. Mas há outra possibilidade mais sombria. O esforço para unir os Estados pode levar, em vez disso, a um aumento imenso dos atritos entre eles. Se isso ocorrer, o evento atenderia a definição clássica de tragédia; húbris (arrogância); ate (estupidez); nêmesis (destruição)."
Eu escrevi o parágrafo acima no "Financial Times" há quase 20 anos. Meus temores estão se concretizando. Esta crise fez mais do que demonstrar que o projeto inicial da zona do euro era defeituoso, como a maioria dos analistas inteligentes sabia; ele também revelou –e, no processo, exacerbou– uma falta fundamental de confiança, sem contar o senso de identidade compartilhada, entre povos amarrados no que se transformou em um casamento de inconveniência.
A extensão da dissolução não tinha ficado clara para mim com a renúncia do alemão Jürgen Stark do conselho do Banco Central Europeu (BCE), nem pelo próximo calote grego, nem, pelas novas restrições impostas pelo tribunal constitucional alemão. O que a deixou clara foi uma visita a Roma.
Eu ouvi um político italiano dizer: "Nós desistimos das antigas válvulas de segurança de inflação e desvalorização em troca de taxas de juros mais baixas, mas agora não temos nem mesmo as taxas de juros baixas". Depois: "Algumas pessoas parecem achar que ingressamos em um comitê monetário, mas a Itália não é a Letônia". E também: "Seria melhor sair do que suportar 30 anos de dores". Esses comentários falam de uma perda de fé tanto no projeto quanto nos parceiros.
Jean-Claude Trichet, o presidente de saída do BCE, apontou para o retrospecto contrainflacionário estelar do banco, muito melhor do que o do Bundesbank. Mas a baixa inflação mascara o surgimento de desequilíbrios profundos dentro da zona e a falta de meios –ou vontade– para resolvê-los. Como resultado, um calote por um grande governo, a separação da zona do euro ou ambos passam a ser concebíveis. A consequente fuga para segurança, que deve incluir tentativas de compensar exposições transnacionais em uma zona monetária supostamente integrada, gera a ameaça de um colapso. Nós estamos testemunhando a inter-relação letal entre os temores de insolvência soberana, falta de liquidez soberana e estresse financeiro.
Da forma como foi projetada, a zona do euro carece de instituições essenciais, a mais importante sendo um banco central capaz de atuar como emprestador de último recurso em todos os mercados importantes, um fundo de resgate grande o suficiente para assegurar liquidez aos mercados de títulos e formas eficazes de administrar uma teia de insolvências soberanas e crises bancárias.
Na ausência de instituições fortes, as atitudes e políticas do país central se tornaram cruciais. Eu admiro a reconstrução da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial e após a unificação, o compromisso com a estabilidade econômica e suas exportações de primeira classe. Infelizmente, eles são insuficientes. Os autores de políticas alemães persistem em ver o mundo pelo prisma de uma economia relativamente pequena, aberta e altamente competitiva.
Mas a zona do euro não é uma economia pequena e aberta; ela é grande e relativamente fechada. O país central dessa união deve fornecer um mercado aquecido para os países com menos crédito quando estes não mais conseguem financiar suas dívidas, ou precisa financiá-las. Se o setor privado não fornece o financiamento, o setor público deve fazê-lo. Se este último fracassar em agir, uma onda de calotes no setor público e privado ocorrerá. Ela certamente também causará danos ao setor financeiro e às exportações do país central.
O fracasso dos líderes alemães em explicar esses fatos em casa impossibilita uma solução para a crise. Em vez disso, eles persistem na fantasia de que todos podem ser credores, simultaneamente. Para economias pequenas e abertas como a Letônia e a Irlanda, a recuperação da competitividade e crescimento por meio da deflação pode funcionar. Para um país grande como a Itália, é doloroso demais para ser crível. Wolfgang Schäuble, o ministro das finanças da Alemanha, pode pedir por essa austeridade. Ela não acontecerá.
Hoje, as chamas precisam ser apagadas. Apenas depois disso as tentativas de construir uma zona do euro mais à prova de fogo podem começar. A mais recente opção ruim seria o BCE assegurar a liquidez dos governos solventes e instituições financeiras, sem limites. Não deveria ser difícil argumentar que a compra de títulos é compatível com a continuidade da estabilidade monetária, já que a oferta de dinheiro está crescendo a meros 2% ao ano. Mas certamente seria politicamente difícil, particularmente para Mario Draghi, o próximo presidente italiano do BCE. Mas é o que precisa ser feito dado o tamanho inadequado do fundo europeu de estabilização financeira caso seja acionado para ajudar os maiores membros do euro em dificuldades. Os políticos precisam ousar apoiar essa ação.
O que aconteceria se o governo alemão decidisse que não pode apoiar esse passo ousado? O BCE deveria seguir em frente assim mesmo, em vez de permitir o desdobramento do colapso. Então caberia à Alemanha decidir se fica ou sai, talvez com a Áustria, Holanda e Finlândia. O povo alemão precisa ser informado que entre os resultados estariam um aumento da taxa de câmbio, um enorme declínio da lucratividade das exportações alemãs, um imenso choque financeiro e uma queda acentuada no produto interno bruto. Tudo isso fora o fracasso dos esforços de duas gerações para construção de uma forte estrutura europeia em torno da própria Alemanha.
A Alemanha conta com um poder de veto aos esforços para expandir o apoio fiscal oficial. Mas ela está perdendo controle sobre seu banco central. Em uma crise tão ameaçadora, a única instituição europeia com capacidade de agir na escala necessária deveria ousar fazê-lo, já que os custos de não fazê-lo provavelmente provariam ser devastadores. Isso certamente causaria uma crise política, mas seria um resultado melhor do que uma crise financeira causada pelo fracasso em tentar.
A Alemanha precisa escolher entre uma zona do euro perturbadoramente diferente da Alemanha maior que ela esperava, ou nenhuma zona do euro. Eu reconheço o quanto seus líderes e população devem odiar essa escolha. Mas é a que está diante deles. A chanceler Angela Merkel deve ousar fazer essa escolha, de forma clara e aberta.
Tradução: George El Khouri Andolfato
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