quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

AS TREVAS DO ISLÃO ENGOLEM O EGITO. O ÚLTIMO QUE SAIR FECHE A PORTA DA PIRÂMIDE

Egito tem pela frente um futuro caracterizado por um islamismo radical
Daniel Steinvorth - Der Spiegel
O grupo islamita Irmandade Muçulmana ficou em primeiro lugar no primeiro turno das eleições parlamentares do Egito. O segundo lugar ficou com o ainda mais radical partido salafista Al-Nour. Este grupo gostaria de implementar uma forma ultraconservadora do código de leis muçulmanas shariah – e a proibição do uso de biquínis.
Ainda bem que o visitante é do sexo masculino. O xeque não fala com mulheres. Mas, por outro lado, o repórter é estrangeiro, o que é também preocupante. Conforme diz o xeque Fawzi al-Sayeed, existem muitos preconceitos em relação ao islamismo. Mas ele acrescenta que talvez esta conversa ajude a disseminar a verdade.
Sayeed, 70, é um homem de expressão séria e de barba grisalha. Ele usa sandálias, uma espécie de boina de crochê muçulmana e o tradicional vestuário egípcio chamado Jellabiya. Sayeed convida o repórter a entrar na mesquita Al-Tawheed. São 6h30, e os indivíduos reunidos lá dentro acabaram de concluir as suas orações matinais. Agora eles formam um meio círculo em volta do xeque, que sentou-se em uma cadeira de madeira colocada no meio da sala.
A Mesquita Al-Tawheed, situada na zona norte do Cairo, é um edifício simples, que não tem colunas ornamentadas nem qualquer outra decoração. Não há nenhum detalhe desnecessário capaz de fazer com que os fiéis se distraiam da sua devoção a Deus.
Conforme faz todas as manhãs, Sayeed pede aos seus seguidores que reafirmem a sua devoção à "verdadeira fé". Ele pede também a eles que filmem com os seus telefones celulares a entrevista que se seguirá ao sermão. O xeque diz que isso é uma simples precaução. Sayeed, que é formado em engenharia elétrica, é um dos mais conhecidos imames salafistas do Egito. Hoje em dia nem sempre é fácil reconhecer os amigos e os adversários do islamismo.
Como o salafista Al-Nour, ou "Partido da Luz", ficou em segundo lugar na primeira fase das eleições parlamentares egípcias, atrás da Irmandade Muçulmana, o mundo está olhando com preocupação para o Cairo. Os dois grupos conquistaram cerca de 60% das cadeiras designadas com base na lista de candidatos apresentadas pelos partidos. Um terço das cadeiras está reservado a candidatos individuais. Esta foi a primeira fase das eleições parlamentares de 2011 e 2012. A segunda etapa teve início na última quarta-feira (14).
O resultado eleitoral preliminar confirma uma tendência nítida: toda vez que eleições livres ocorreram em países muçulmanos no Oriente Médio nos últimos anos, os partidos religiosos venceram: na Faixa de Gaza em 2006, no Iraque em 2010, e na Turquia, na Tunísia e em Marrocos em 2011.
Exibição chocante de poder
Mas somente no Egito um grupo tão radical como os salafistas foi capaz de se estabelecer como partido. Isso resulta em sérias implicações, já que este é o país mais populoso e culturalmente mais influente do mundo árabe. A palpitação revolucionária que ocorre na Praça Tahir, no Cairo, nos últimos 11 meses, pode ser sentida na Líbia, na Síria, no Irã e nos Estados do Golfo Pérsico.
A forte exibição de força política dos salafistas chocou muitos egípcios, e especialmente a juventude revolucionária, os liberais, os esquerdistas, os cristãos coptas e os muçulmanos moderados do país. Afinal, foram os salafistas que promoveram agitações contra os coptas e boicotaram a revolução, alegando que esta estava infiltrada por "prostitutas e sionistas". E eram os salafistas que, até há pouco tempo, rejeitavam as eleições livres, chamando-as de "anti-islâmicas". Como é que agora eles estão chegando ao poder como democratas?
O Partido Al-Nour foi criado na primavera como um centro de agregação de vários elementos conservadores e grupos militantes. Os seus membros não eram conhecidos exatamente pelas suas ambições democráticas, mas sim pelos seus vínculos estreitos com o reino da Arábia Saudita. Desde a criação do "Partido da Luz", mais de US$ 100 milhões (cerca de R$ 184 milhões) para financiamento de campanhas políticas teriam sido fluído do reino wahhabista e rico em petróleo para as margens do Nilo.
As ideias políticas dos salafistas são tão simples quanto as suas mesquitas. Eles são unidos pelo desejo de viver de acordo com o exemplo dado pelo profeta Maomé e os seus companheiros há quase 1.400 anos. Isso inclui as regras salafistas referentes a vestuário e barbas, que exigem a cobertura da face das mulheres e o uso de uma barba grande, geralmente sem bigode, para os homens.
Em outras palavras, o objetivo dos salafistas é retornar à época inicial do islamismo. Mas qual é o programa deles para o Egito?
"O mundo muçulmano ainda sofre com a grande injustiça que foi cometida em relação à nossa religião. Mas a solução é muito fácil: nós precisamos simplesmente aplicar o Alcorão e a shariah para consertar o nosso país, assim como foi ordenado por Deus". Ele acrescenta que isso, obviamente, inclui o apedrejamento de adúlteros e o decepamento das mãos de ladrões. O xeque não entende como alguém pode achar que essas práticas sejam bárbaras.
Fenômeno transitório
Durante a campanha, lideranças do Partido Al-Nour pareciam indivíduos vindos de uma era diferente. Isso contrastava bastante com a tradição liberal egípcia. Por exemplo, quando o porta-voz do partido, Abdul Munaim al-Shahat, participou de uma entrevista na televisão, ele exigiu que fosse colocada uma divisão entre ele e uma convidada do sexo feminino.
A sua exigência mais recente foi que os egípcios "destruam os templos". Ele quer que o Egito acabe finalmente com o "culto idólatra" da sua herança faraônica. Se Shahat tivesse o seu desejo atendido, esculturas, estátuas e pinturas que cobrem 5.000 anos de história egípcia seriam cobertas por uma camada de cal, e as ruas com nomes de faraós passariam a ter denominações muçulmanas.
Outro membro da liderança do partido está pedindo a proibição do álcool, até mesmo para cristãos e estrangeiros, que na maioria dos países muçulmanos podem consumir bebidas alcoólicas sem serem punidos. Ele deseja também fechar as praias nas quais mulheres ocidentais mostram muita pele e proibir o uso de biquínis. Como alternativa, ele sugere que sejam oferecidos aos turistas estrangeiros passeios de camelo e aulas de esqui nas dunas de areia.
Foi para isso que a juventude egípcia saiu às ruas no final de janeiro? E foi para isso que eles derrubaram o regime autocrático do presidente egípcio Hosni Mubarak?
Não, diz Amr Iss al-Rigal. "Mas isto é apenas um fenômeno transitório. Nós achávamos que os grupos religiosos a princípio triunfariam - porque eles, a exemplo dos salafistas, têm amigos nas monarquias do petróleo. E também porque eles, a exemplo da Irmandade Muçulmana, há muito tempo estavam na oposição, o que lhes proporcionou tempo para se organizarem".
Rigal, 28, está em uma rua movimentada em Imbaba, um bairro de classe operária do Cairo. Já é bem mais de meia noite, e ele parece estar cansado enquanto suporta pacientemente a enxurrada de flashes das câmeras fotográficas dos jornalistas egípcios. Acima dele, pendurada entre duas árvores, há uma faixa com o seu retrato. As palavras "Coalizão da Juventude Revolucionária" estão escritas na faixa. O candidato posa uma vez mais para os fotógrafos. Esse é o seu último evento do dia com a imprensa. "No longo prazo, os democratas prevalecerão", assegura ele com um sorriso de desafio e autoconfiança.
A causa pela qual vale a pena lutar
Este jovem advogado é um dos heróis da revolução. Todos os que lutaram na Praça Tahrir o conhecem. Em 2004, ele ingressou em um partido liberal que disputou a eleição presidencial de 2005 contra Mubarak, embora sem sucesso. Em 2008, Rigal foi um dos protagonistas do "Movimento da Juventude 6 de abril", que desempenhou um papel importante para o início da revolução – com um grupo do Facebook que inicialmente tinha milhares de apoiadores, e que depois passou a ter dezenas e a seguir centenas de milhares.
Rigal e os amigos dele foram alguns dos primeiros a protestar na Praça Tahrir, onde perseveraram, correram da polícia, entoaram slogans e cantaram canções. Ele jamais irá se esquecer da mágica daqueles dias e da descoberta de que a liberdade é uma causa pela qual vale a pena lutar.
O ex-revolucionário virou agora candidato ao parlamento. E as suas perspectivas são boas, ainda que ele esteja concorrendo diretamente com os islamitas no bairro pobre de Imbaba. Como filho de um motorista de ônibus, Rigal conhece bem o povo que vota nos islamitas. E como o pai dele já foi membro do grupo radical Al-Gamaa Al-Islamiyya, ele sabe também o que faz com que os islamitas tenham tanto sucesso. "Eles apelam para o sentimento religioso e a consciência do indivíduo. Eles doam carne e carvão. Mas isso não se constitui em uma plataforma. Ninguém cria empregos apenas sendo devoto". Rigal diz que toda vez que falou aos eleitores sobre os seus direitos políticos, o direito de participação no processo democrático, a educação e o sistema de saúde, quase todos eles reagiram com espanto e curiosidade.
"Muito distantes do modelo turco"
Rigal diz que pessoas como ele são alvo de suspeitas ainda maiores por parte do conselho militar que governa o país do que os islamitas. A liderança do exército poderia fazer um acordo com a pragmática e cada vez mais oportunista Irmandade Muçulmana, conforme ficou demonstrado diversas vezes. "Os salafistas prosperaram durante o regime de Mubarak porque a postura ameaçadora dos grupos militantes permitia que o regime mantivesse o seu aparato policial e as leis de emergência", explica Rigal. "Já o movimento democrático é incontrolável, e isto é algo que os generais detestam".
Os egípcios estão aguardando ansiosamente para ver qual será a posição adotada pela poderosa Irmandade Muçulmana e o seu "Partido da Liberdade e da Justiça". Irão eles se distanciar dos salafistas e procurar fazer uma aliança com as forças liberais? Ou eles irão se juntar aos salafistas para a criação de um Egito ortodoxo islâmico?
Cristãos, liberais e secularistas não são os únicos atormentados pelo medo de que, por meios democráticos, o Egito se transforme em um país não democrático. Quando o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan viajou ao Cairo em setembro último, dois meses antes do início das eleições, a Irmandade Muçulmana comemorou a chegada ele. Mas a seguir ele fez um discurso, dizendo: "Uma nação secular respeita todas as religiões. Não temam o secularismo".
Subitamente a Irmandade Muçulmana parou de festejar, e os salafistas criticaram duramente o secularismo, classificando-o de "obra do demônio". Ao que parece os islamitas egípcios estão ainda muito distantes do modelo turco.
Tradução: UOL

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