sexta-feira, 29 de junho de 2012

FRANÇA E ALEMANHA: HAVERÁ LUZ NO FINAL DO TÚNEL?

Diário da crise: Paris e Berlim procuram a luz no fim do túnel
Claudi Pérez e Miguel Mora - El Pais
A Espanha diz que conta com o apoio alemão para uma recapitalização direta dos bancos. A Comissão afirma que a cúpula ajudará a estabilizar os mercados
A supercúpula, a cúpula do fim do mundo, a mãe de todas as cúpulas: a inflação desse tipo de história ameaça arruinar a credibilidade da Europa, empenhada em colocar-se mais uma vez à beira do precipício. À razão de uma reunião do mais alto nível por mês desde que começou a crise, o euro enfrenta hoje, mais uma vez, algo parecido com um ser ou não ser. Muda o roteiro, mas algumas coisas se repetem: a Alemanha diz não; Paris e cada vez mais países aumentam a pressão sobre Berlim; e um sócio europeu vai ficar com água pelo pescoço, ou mesmo mais acima, se não houver soluções enérgicas, com a crise entrando em território comanche.
A diferença para o leitor espanhol é que esse país, desta vez, tem sua capital em Madri. Mas a Itália também está em suspenso: se seu primeiro-ministro, Mario Monti, voltar de Bruxelas de mãos vazias poderá se detonar uma crise em Roma, com um Silvio Berlusconi ameaçador.
Para que isso não aconteça, a cúpula de chefes de Estado e de governo tem de recuperar uma narrativa verossímil sobre o projeto europeu em médio e longo prazos. As fontes consultadas consideram possível que isso aconteça, depois do ambicioso documento apresentado na terça-feira (26) pelo Conselho, que marca o caminho para uma união política. Mas, sobretudo, se exige uma saída em curtíssimo prazo, diante da suspeita de que a filosofia relativa ao projeto do edifício europeu não será suficiente se os mercados continuarem cheirando sangue. Há indícios de que algo está cozinhando. A alternativa é o desastre: sem um acordo, a roda da crise voltará a girar com uma força endiabrada em forma de crise política italiana, ou de um estampido bancário no sul, ou do enésimo incêndio nos explosivos mercados de dívida.
A França aumentou na quarta-feira (27) a pressão sobre a Alemanha para que dê um respiro a Espanha e Itália nesse perigoso curto prazo. Ganha força a ideia da recapitalização direta dos bancos, no quadro da união bancária europeia. Esse será um dos pontos centrais da cúpula, segundo fontes comunitárias e segundo vários diplomatas europeus. França e Itália apoiam sem fissuras essa ideia. O governo espanhol afirmou na quarta-feira a este jornal que a Alemanha está interessada -embora com matizes: mais o ministro das Finanças, o europeísta Wolfgang Schäuble, do que a chanceler Angela Merkel. Berlim não confirmou esse extremo, mas deixou claro que as injeções de capital diretas nos bancos através dos mecanismos de solidariedade europeus nunca serão feitas sem estritas condições e sem algum tipo de garantia por parte dos Estados. A chave da negociação é o prazo: se a cúpula o deixar para dentro de alguns meses, ou mesmo alguns anos, é pouco provável que consiga relaxar a tensão nos mercados.
Se for assim, não serviria para a Espanha. Madri está consciente de que o resgate que solicitou formalmente na segunda-feira (25) não lhe permite optar por essa via de imediato, mas o Executivo confia em que mesmo que as primeiras partes das ajudas cheguem através do fundo de resgate bancário espanhol (engordarão a dívida pública e avivarão os temores dos investidores), os bancos espanhóis poderão optar mais adiante por uma recapitalização direta.
A outra opção em curtíssimo prazo é uma intervenção no mercado da dívida pública: a compra de bônus através do Banco Central Europeu ou dos mecanismos de resgate, uma saída abominável do ponto de vista alemão, mas que foi discutida no último G-20. O BCE conseguiu já ser, com grande probabilidade, o supervisor bancário europeu: em troca poderia voltar a disparar no mercado da dívida, segundo várias fontes, ou pelo menos reduzir as taxas de juros e implantar outras medidas excepcionais.
A outra possibilidade é fazê-lo através dos fundos de solidariedade europeus. O vice-presidente da Comissão, Olli Rehn, deu a entender essa resposta: "Estamos trabalhando junto com os sócios da zona do euro para permitir a estabilização em curto prazo dos mercados, especialmente dos Estados sob mais pressão". Rehn não deu pistas sobre "a substância dessas medidas em curto prazo". Mas não é preciso dar nós no cérebro para identificar os países a que são dirigidas: os juros da dívida espanhola para dez anos beiram os 7%; os da italiana, 6%. As duas cifras são insustentáveis. Os dois países exigem tratamento de choque.
A Alemanha e a França eram obrigadas a se apresentar nesta quinta-feira (28) em Bruxelas com um acordo convincente e sólido. Do contrário (e quase certamente será do contrário) se presume uma noite de facas longas. Esta é uma cúpula estranha por vários motivos. Há os desacordos, há a pressão sobre vários países, há os debates de curto e longo prazo, mas sobretudo influi o fato de que a reunião será interrompida na sexta-feira à tarde para que Merkel volte a Berlim para votar o mecanismo de resgate permanente. Diante desse limitado horizonte de tempo que praticamente representa uma jornada maratoniana no primeiro dia, François Hollande e Merkel jantaram juntos na quarta-feira no Eliseu com o objetivo declarado de buscar denominadores comuns.
Antes dessa entrevista, o entorno do presidente socialista francês se mostrava totalmente confiante em um acordo franco-alemão. "A relação é muito profissional, muito séria, os dois estão plenamente conscientes de sua responsabilidade, há entendimento em quase tudo. Merkel e Hollande falaram com muita frequência por telefone e as equipes trabalham de forma muito fluida. O que mudou é que o método de tomar decisões é diferente, mais regular e metódico que o anterior."
Paris mostrou-se durante todo o dia otimista e confiante em que Berlim cederá em suas linhas vermelhas e compartilhará as receitas promovidas por Hollande: austeridade, sim; disciplina e mais supervisão também, mas ao mesmo tempo mais crescimento para sair da depressão, gerar empregos e evitar a ascensão dos populismos, e mais solidariedade para garantir que os doentes não serão deixados para trás. Mas Berlim também quer contrapartidas por parte de Paris: reformas - às quais Hollande vem resistindo - e a possibilidade de ceder soberania a Bruxelas para avançar na direção da união política.
Altos funcionários do Eliseu manifestaram sua convicção de que na sexta-feira será selado "um acordo importante de consenso que se parecerá muito com o documento elaborado pelo presidente do Conselho, Herman Van Rompuy".
Mas antes de viajar a Paris Merkel mostrou seu perfil clássico de negociadora dura. Em uma declaração ao plenário da Câmara Baixa do Parlamento, a chanceler voltou a criticar as propostas de mutualizar a dívida europeia e afirmou que sofrem de "um claro desequilíbrio entre responsabilidade e controle", informa Juan Gómez. A chanceler acredita que "se fala demais" de "todo tipo de ideias" para emitir dívida europeia ou coletivizar as garantias, mas "muito pouco" na necessidade de "controles comuns e reformas estruturais", no que parece um ataque à França. Os "eurobônus, euroletras ou o fundo de amortização da dívida" são "incompatíveis com a Constituição alemã", reiterou, "além de economicamente equivocados e contraproducentes".
Na realidade, Berlim e Paris estão de acordo em 95% das medidas que o Conselho debateria nesta quinta-feira, sobretudo em médio e longo prazo. A agenda está clara. Primeiro se acordarão as medidas urgentes para relançar a atividade - o pacote de crescimento apresentado em Roma, com 130 bilhões de euros em estímulos. Além disso, haverá um acordo, reclamado pela Itália, para proteger a produção europeia, e se dará o tiro de partida para a taxa financeira que deverá entrar em vigor em 2013. Depois se verá a proposta de Van Rompuy para redesenhar a UE. No jantar e ao longo de sexta-feira se discutirá sobre Grécia e Espanha, sobre como tapar o buraco nos bancos e como relaxar a tensão na dívida.
Mas resta ver se a montanha poderá parir algo mais que um rato. A França adverte que só aprovará o tratado orçamentário se houver condições políticas suficientes: isto é, se obtiver as contrapartidas que Hollande considera indispensáveis. A Alemanha só dará o braço a torcer se vir avanços, passo a passo, para a Europa que Berlim vislumbra e com a Alemanha no comando. Berlim apenas se molha; na França a água chega aos tornozelos: mas Madri e Roma estão até o pescoço.

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