terça-feira, 25 de junho de 2013

A história de uma filha bastarda persegue o rei da Bélgica
Lucía Abellán - El Pais                                           
Benoit Doppagne/AFP
Rei da Bélgica posa para foto durante gravação de sua mensagem para o Natal, em dezembro de 2012
Rei da Bélgica posa para foto durante gravação de sua mensagem para o Natal, em dezembro de 2012
O rei Alberto da Bélgica vive seus últimos meses de reinado, mas a polêmica ameaça acompanhá-lo até o dia de sua previsível abdicação, que a imprensa belga situa perto do fim do ano.
Poucos dias depois de uma mulher de 45 anos ter reivindicado sua paternidade nos tribunais, a mãe dessa suposta filha revelou à imprensa todos os detalhes de seu romance com o monarca. Sybille de Sélys Longchamps, uma aristocrata de 71 anos, decidiu desenterrar uma história que remonta aos anos 1960.
"Quero que acabe a discriminação que minha filha sofre habitualmente", argumenta.
A baronesa de Sélys usa uma linguagem própria de romances açucarados para contar o que define como "uma história de amor". Em uma entrevista publicada sábado nos jornais belgas "Le Soir" e "De Standaard", explica que manteve silêncio durante todo esse tempo para não prejudicar sua filha nem a monarquia.
Alberto (então irmão e herdeiro do rei Balduíno) e Sybille se encontraram pela primeira vez na Grécia em 1966. "Comíamos todos os dias juntos, compartilhávamos a vida diária", relata a baronesa, acrescentando que o atual rei lhe declarou seu amor enquanto dançavam, e que não foi ela --também casada nesse momento-- quem o seduziu.
A relação continuou e em fevereiro de 1968 nasceu Delphine. Ela decidiu separar-se e Alberto lhe disse que faria o mesmo, segundo seu relato. "Para minha filha, Alberto era um amigo meu. Via Delphine praticamente todos os dias", descreve.
A situação se manteve durante dez anos, período em que Alberto e Paola, sua esposa, "moravam em andares diferentes do palácio e praticamente não se viam". Essas palavras agravam a já deteriorada imagem matrimonial dos reis belgas.
A história da filha extraconjugal do rei é conhecida desde 1999 e boa parte da opinião pública é a favor de que o monarca a reconheça. Mas os detalhes dados pela mãe de Delphine colocam a família real em uma posição incômoda. A baronesa afirma que tudo estava pronto para o divórcio de Alberto e Paola, que o rei Balduíno já tinha dado seu consentimento e que até o havia comunicado ao primeiro-ministro.
Sybille afirma que foi ela quem se renunciou a fazê-lo. "As condições eram muito duras para Alberto", alega. Os filhos de seu casamento com Paola nunca poderiam estar com ela, os direitos de visita eram estritos... "Não fui capaz de carregar tudo isso nas costas, suportar todas as críticas e derrubar a monarquia." E, com ares de telenovela, acrescenta: "Os filhos de Alberto e Paola ainda eram pequenos. Eu tinha a impressão de que seria 'a má'".
A baronesa mudou-se para o Reino Unido com sua filha, mas continuou mantendo com Alberto "uma relação profunda de amizade e confiança", com uma linha de telefone privativa que usavam para se manter a par de suas vidas.
Em 1984, de um dia para outro, essa linha foi cortada e a partir daí começou a sofrer o que chama de consequências negativas de sua relação: colégios nos quais não admitiam sua filha porque já havia um membro da família real, reuniões em que não era bem-vinda por motivos semelhantes... Quando Delphine completou 17 anos, sua mãe lhe revelou a identidade do pai e agora, com 45 anos e dois filhos, ela decidiu exigir uma prova de seu DNA.
A aristocrata diz que não quer dinheiro nem causar danos. No final da entrevista, quando o jornalista lhe pergunta se ainda é monárquica, De Sélys responde: "É claro! Minha vida demonstra isso". E conclui com o toque que caracteriza todo o relato: "Vivi um grande amor, uma bela história que tem um grande valor. É uma pena que termine assim, mas agi de acordo com meu coração."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Nenhum comentário: