quarta-feira, 26 de junho de 2013

Discurso de Dilma não mencionou futebol nem olimpíadas
Rob Hughes  - IHT                                

 

Quando a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, conversou com governadores e prefeitos sobre os protestos que acompanharam o torneio de ensaio para a Copa do Mundo, em nenhum momento ela mencionou os esportes.
O futebol foi usado como catalisador para os levantes populares contra os problemas sociais e econômicos do Brasil. Os bilhões gastos nos estádios para a Copa do Mundo de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016 –e os lucros que sairão do país nesses eventos– claramente são motivo para parte do descontentamento popular.
As pessoas não engoliram a falsa propaganda de que esses eventos inspirarão uma regeneração urbana duradoura além do ciclo de vida dos dois grandes eventos. Montréal saiu empobrecida após a realização dos Jogos Olímpicos de 1976 e a África do Sul está olhando para os estádios elefantes brancos após a Copa do Mundo de 2010.
Mesmo assim, a Fifa, a federação internacional do futebol, alega que a Copa do Mundo do ano que vem injetará R$ 112,8 bilhões na economia brasileira até 2014, ao custo da realização de 64 jogos nos 12 estádios novos ou reformados que foram pagos com dinheiro público.
E a Fifa nos diz que a Copa do Mundo fornecerá ao país sede "uma plataforma fantástica para mostrar a si mesmo, com a cobertura do evento por mais de 500 emissoras em mais de 200 territórios". Isso em si é um efeito catalisador. Os brasileiros podem adorar futebol, mas nas palavras de Romário, o grande artilheiro que virou deputado, o dinheiro gasto no estádio Mané Garrincha, na capital Brasília, poderia ter sido usado na construção de 150 mil casas para famílias de baixa renda.
Romário está se mostrando tão oportuno como político quanto era como jogador.
Mas foi a presidente Dilma Rousseff que fez o discurso a respeito dos protestos, no Palácio Presidencial, na segunda-feira (26). Ela falou da energia que vem das ruas.

"O povo está agora nas ruas. Ele está nos dizendo que quer mais cidadania, quer uma cidadania plena. As ruas estão nos dizendo que o país quer serviços públicos de qualidade, quer mecanismos mais eficientes de combate à corrupção que assegurem o bom uso do dinheiro público."
O discurso presidencial contou com duas mil palavras. Futebol e olimpíadas não estiveram entre elas.
Foram feitos pactos para lidar com a corrupção, reforma da saúde, transporte público, educação e a insegurança. Foi apresentada uma proposta do governo de uso dos futuros royalties do petróleo para reverter o atraso de um século na educação e para importação de médicos do exterior para fortalecer o sistema de saúde. Nada sobre que papel, se é que teria algum, o futebol teria nesta reconstrução do Estado nacional.
Não foi feita nenhuma menção de Neymar, David Luiz ou do técnico Luiz Felipe Scolari, todos dizendo que os jogadores estão do lado do povo. "Todos nós queremos justiça no nosso país, com tudo que nós imaginamos possível", disse Scolari, após sua equipe derrotar a Itália no sábado.
"Eu espero que vocês do exterior, que estão vivenciando a Copa das Confederações, saibam que esta não é uma situação habitual para nós." As coisas mudarão, disse Scolari. "Talvez em um, dois, cinco ou 20 anos –quem sabe– nós poderemos ser um país melhor. Mas não acontecerá amanhã." Claramente não. Mas é aí onde o esporte, as promessas do governo e a Fifa devem todos se unir.
A presidente Dilma Rousseff disse aos governadores e prefeitos na segunda-feira que há uma necessidade emergencial de encontrar médicos em número suficiente para trabalhar nas áreas mais pobres das principais cidades do Brasil. "Temos hoje regiões em nosso país em que a população não tem atendimento médico", ela declarou. "Isso não pode continuar." Não pode continuar para a população do Brasil e também para o milhão ou mais de visitantes que a Copa do Mundo visa atrair no ano que vem.
Que medida, alguém se pergunta, foi ou pode ser adotada para assegurar que as pessoas que irão ao Brasil para a Copa estarão seguras nas ruas ou receberão atendimento médico caso precisem? Nós fizemos as mesmas perguntas à África do Sul e, em grande parte, esses temores eram redundantes.
Mas se há um pacto entre o país sede e a Fifa na realização de um evento, que dever de atendimento a Fifa deve ter para garantir a segurança de todos os que jogarão ou assistirão? Romário, de novo, expôs sua preocupação de que o Brasil se transformará em um "Estado Fifa" durante a Copa em junho e julho do ano que vem.

Ele também argumentou que "a Fifa anuncia que terá um lucro de R$ 4 bilhões com a Copa no Brasil, livre de impostos". É preciso se preocupar agora com a segurança, não apenas em torno dos estádios, mas nas cidades e fora dos locais batidos para onde os torcedores mais aventureiros poderão viajar.
Talvez as medidas agora propostas pela presidente –de caráter "emergencial", nas palavras dela– sejam suficientes.
Possivelmente os protestos das últimas duas semanas visassem a Copa das Confederações, o ensaio, e não a coisa real no ano que vem, a Copa do Mundo. Mas isso pode depender das promessas feitas hoje sob pressão serem cumpridas amanhã.

E se não forem? O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse nesta semana que não há um plano B, não há intenção de transferir a Copa para outro país. Tomara que não, porque o Brasil, o país mais bem-sucedido e jubiloso na história do futebol, terá esperado 64 anos para realizar sua segunda Copa do Mundo.
Os Estados Unidos, alguém poderia imaginar, poderiam servir como plano de apoio se fosse preciso. Os Estados Unidos contam com os estádios, capacidade, habilidade organizacional e o espírito público para aceitá-la em cima da hora.
Na Europa, a Alemanha ainda conta com a infraestrutura de 2006. A Inglaterra conta com mais de uma dúzia de estádios e a experiência da realização de partidas da Premier League três vezes por semana em todas as grandes cidades.
Logo, é preciso ter um plano B. Mas o custo disso seria mais que apenas financeiro. Seria a remoção da esperança em um país que respira o esporte, uma nação que até agora começava a acreditar em seu renascimento econômico e estrutural.
O futebol não foi mencionado no discurso da presidente, mas é central nele.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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