Corine Lesnes - Le Monde
Com um inverno clemente e uma primavera chuvosa, 2013 está sendo o ano do carrapato nos Estados Unidos. Segundo o professor Thomas Mather, que dirige o centro de doenças de transmissão vetorial da Universidade de Rhode Island, o recorde de 2012 já está sendo batido. "Estão encontrando cada vez mais carrapatos em cada vez mais lugares", ele resume.
Com um inverno clemente e uma primavera chuvosa, 2013 está sendo o ano do carrapato nos Estados Unidos. Segundo o professor Thomas Mather, que dirige o centro de doenças de transmissão vetorial da Universidade de Rhode Island, o recorde de 2012 já está sendo batido. "Estão encontrando cada vez mais carrapatos em cada vez mais lugares", ele resume.
O entomologista acompanha há 30 anos o avanço dos insetos portadores de Borrelia burgdorferi, a bactéria responsável pela doença de Lyme. Quando ele era um jovem pesquisador em Harvard, precisava se embrenhar nas florestas para correr o risco de ser picado. O desmatamento empurrou os cervos para cada vez mais perto das casas. E cada cervo é um portador em potencial de cerca de 450 mil larvas. Somam-se a isso os invernos cada vez mais curtos, que prolongam o período de atividade dos insetos. Resultado: entre 1992 e 2006, o número de pessoas infectadas dobrou.
Segundo o Center for Disease Control and Prevention (CDC), a agência americana de proteção da saúde pública, quase 30 mil casos foram registrados em 2012, o que faz dessa a doença infecciosa mais frequente depois da Aids (55 mil casos). "Na verdade, provavelmente ocorrem cerca de 300 mil casos a cada ano", afirma Raphael Stricker, vice-presidente da International Lyme and Associated Diseases Society (Ilads).
Na Nova Inglaterra, foco tradicional da doença de Lyme (nome da cidade no Estado de Connecticut onde a doença foi identificada), está se tornando difícil evitar contato com o Ixodes scapularis. "Os carrapatos adoram as zonas mistas, os arbustos que cercam os jardins", explica o professor Mather. Mas agora eles podem ser encontrados em doze outros Estados, até na Califórnia.
Lorraine Johnson contraiu a doença sem perceber. Ela bem que notou uma reação alérgica enquanto fazia uma trilha na Califórnia, mas as dores artríticas só começaram duas semanas mais tarde, juntamente com lapsos de memória. "Sou advogada, estou acostumada com argumentações detalhadas", ela conta. "Eu não conseguia mais concatenar as ideias. Eu nem conseguia mais encontrar meu carro no estacionamento." Ela levou dois anos para encontrar um médico que estivesse "suficientemente disposto a passar tempo" com ela para identificar sua patologia. E mais quatro anos de tratamento para ser curada. "Levei anos até voltar a ter uma vida normal", ela conta.
Hoje, a jurista dirige a LymeDisease.org, uma organização que luta por um melhor acesso a tratamentos médicos e que distribui a única publicação impressa dedicada à doença, a "The Lyme Times". Em virtude das recomendações da Infectious Diseases Society of America (IDSA), o uso de antibióticos geralmente é prescrito para somente 28 dias. Os pacientes que não se curam após esse tratamento se veem privados de antibióticos e remetidos a uma doença crônica que médicos não sabem muito bem como tratar, e que às vezes eles atribuem a manifestações psicossomáticas.
Como a doença não para de se espalhar, os pacientes se organizaram em grupos de pressão. A briga entre os defensores dos antibióticos e o establishment médico assumiu um viés conflituoso. O descobridor da doença, o reumatologista Allen Steere, 70, costuma ser criticado por militantes por ter relativizado a utilidade dos antibióticos.
Uma segunda sociedade médica, a Ilads, surgiu para contestar as recomendações da IDSA, que foram adotadas com entusiasmo pelas companhias de seguro, felizes por não terem de reembolsar as aplicações intravenosas de antibióticos. "Posso prescrever antibióticos para o resto da vida para uma acne severa, mas não para a doença de Lyme", explica Stricker, vice-presidente da Ilads.
O médico já viu passarem pelo seu consultório em San Francisco 2.500 pacientes afetados pela doença. As pessoas vêm do país inteiro, sabendo que ele não se recusa a prolongar o uso de antibióticos, apesar do custo do tratamento --mais de US$ 1 mil (cerca de R$ 2.200) por mês. Ao contrário do Estado de Nova York, onde vários médicos são alvo de inquéritos disciplinares por terem prescrito antibióticos de forma excessiva, a lei californiana protege os profissionais.
Nessa guerra civil, batizada de "Lyme war" pelos jornais, o professor Mather prefere se manter neutro, concentrando-se na prevenção. Ele é procurado por gente de todos os lugares, como uma moradora do Nebraska que, apavorada, lhe enviou no dia 21 de junho uma foto de círculos concêntricos que ela apresentava nas costas. Ele tentou tranquilizá-la. O Nebraska ainda não costa no mapa dos carrapatos infectados.
Tradutor: UOL
Segundo o Center for Disease Control and Prevention (CDC), a agência americana de proteção da saúde pública, quase 30 mil casos foram registrados em 2012, o que faz dessa a doença infecciosa mais frequente depois da Aids (55 mil casos). "Na verdade, provavelmente ocorrem cerca de 300 mil casos a cada ano", afirma Raphael Stricker, vice-presidente da International Lyme and Associated Diseases Society (Ilads).
Na Nova Inglaterra, foco tradicional da doença de Lyme (nome da cidade no Estado de Connecticut onde a doença foi identificada), está se tornando difícil evitar contato com o Ixodes scapularis. "Os carrapatos adoram as zonas mistas, os arbustos que cercam os jardins", explica o professor Mather. Mas agora eles podem ser encontrados em doze outros Estados, até na Califórnia.
Lorraine Johnson contraiu a doença sem perceber. Ela bem que notou uma reação alérgica enquanto fazia uma trilha na Califórnia, mas as dores artríticas só começaram duas semanas mais tarde, juntamente com lapsos de memória. "Sou advogada, estou acostumada com argumentações detalhadas", ela conta. "Eu não conseguia mais concatenar as ideias. Eu nem conseguia mais encontrar meu carro no estacionamento." Ela levou dois anos para encontrar um médico que estivesse "suficientemente disposto a passar tempo" com ela para identificar sua patologia. E mais quatro anos de tratamento para ser curada. "Levei anos até voltar a ter uma vida normal", ela conta.
Hoje, a jurista dirige a LymeDisease.org, uma organização que luta por um melhor acesso a tratamentos médicos e que distribui a única publicação impressa dedicada à doença, a "The Lyme Times". Em virtude das recomendações da Infectious Diseases Society of America (IDSA), o uso de antibióticos geralmente é prescrito para somente 28 dias. Os pacientes que não se curam após esse tratamento se veem privados de antibióticos e remetidos a uma doença crônica que médicos não sabem muito bem como tratar, e que às vezes eles atribuem a manifestações psicossomáticas.
Como a doença não para de se espalhar, os pacientes se organizaram em grupos de pressão. A briga entre os defensores dos antibióticos e o establishment médico assumiu um viés conflituoso. O descobridor da doença, o reumatologista Allen Steere, 70, costuma ser criticado por militantes por ter relativizado a utilidade dos antibióticos.
Uma segunda sociedade médica, a Ilads, surgiu para contestar as recomendações da IDSA, que foram adotadas com entusiasmo pelas companhias de seguro, felizes por não terem de reembolsar as aplicações intravenosas de antibióticos. "Posso prescrever antibióticos para o resto da vida para uma acne severa, mas não para a doença de Lyme", explica Stricker, vice-presidente da Ilads.
O médico já viu passarem pelo seu consultório em San Francisco 2.500 pacientes afetados pela doença. As pessoas vêm do país inteiro, sabendo que ele não se recusa a prolongar o uso de antibióticos, apesar do custo do tratamento --mais de US$ 1 mil (cerca de R$ 2.200) por mês. Ao contrário do Estado de Nova York, onde vários médicos são alvo de inquéritos disciplinares por terem prescrito antibióticos de forma excessiva, a lei californiana protege os profissionais.
Nessa guerra civil, batizada de "Lyme war" pelos jornais, o professor Mather prefere se manter neutro, concentrando-se na prevenção. Ele é procurado por gente de todos os lugares, como uma moradora do Nebraska que, apavorada, lhe enviou no dia 21 de junho uma foto de círculos concêntricos que ela apresentava nas costas. Ele tentou tranquilizá-la. O Nebraska ainda não costa no mapa dos carrapatos infectados.
Tradutor: UOL
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