Stéphane Foucart - Le Monde
"Eu pertenço à raça branca, você pertence à raça negra". Assim Eric Zemmour traçou, em novembro de 2008, no canal Arte, uma linha de demarcação entre ele e sua interlocutora, a militante antirracismo Rokhaya Diallo. Cinco anos depois, a escritora Nancy Huston e o biólogo Michel Raymond (CNRS) acabam de oferecer gentilmente ao polemista um tremendo apoio científico e intelectual.
Em um artigo ("Le Monde" de 19 de maio), os dois autores imaginam um paralelo audacioso. Eles basicamente dizem que, da mesma forma que a biologia constata um dimorfismo sexual na espécie humana --homens e mulheres diferem em certas características--, ela documenta diferenças genéticas entre as diversas populações. Essas diferenças são comprovadas cientificamente e validam o fato de que, em se tratando da espécie humana, a noção de raça é pertinente, afirmam Huston e Raymond. Assim, querer eliminar o termo "raça" da legislação francesa --como François Hollande se comprometeu a fazer-- recairia em um igualitarismo conformista, manifestação de uma forma moderna de lysenkismo.
A crítica é tão forte quanto as argumentações são pobres. O primeiro argumento apresentado pelos autores é um notável contrassenso. Como existem diferentes raças de cachorro --o que todos concordam em constatar--, não há razões válidas para que não existam raças humanas. Sendo assim, os autores se esquecem de lembrar que a diversidade das raças caninas é fruto de uma seleção efetuada há muito tempo pelo homem, para obter animais adaptados a determinadas funções. Se adotarmos esse paralelo com o cão, então a raça seria consequência de uma criação. O que incorre nesse acidente retórico: hipotéticas raças humanas seriam resultado de uma forma de higiene racial. Não haveria raças sem uma vontade deliberada de manter determinados traços ou características.
Os autores não ficam só no cachorro: eles mencionam o chimpanzé, a girafa, o guaxinim e suas várias subespécies, que eles também apresentam como análogos animais às supostas raças humanas...
Mesmo assim o argumento é enganoso. Porque no reino animal essas subespécies só dizem respeito à ocupação de nichos ecológicos distintos. Só que uma das singularidades do Homo sapiens é que ele é fundamentalmente migrador. Ele se libertou de todos os ambientes que encontrou após suas sucessivas saídas da África, se adaptando a todos os biótopos, criando assim uma continuidade de povoamento, trópicos nas regiões paleárticas. Nessa continuidade, onde situar as fronteiras?
É claro, a seleção nunca parou. Diferenças de fenótipo apareceram no decorrer dos últimos milênios. Portanto, na verdade é absurdo, como ressaltam justamente os autores, contestar a realidade dessas diferenças. Mas como as migrações e as misturas de população nunca pararam, essas diferenças entram em um contínuo de diversidade que é impossível encerrar em uma classificação rígida e sistemática. A etnia, noção complexa que leva em conta considerações socioculturais, linguísticas etc., às vezes pode ser invocada, mas a raça, como categoria biológica, é uma ilusão.
Essa lacuna entre percepção e realidade biológica está no cerne do mal-entendido. Aquilo que no balcão do bar se chama de "raça" não recobre nenhuma realidade biológica precisa, mas é resultado de uma construção social e/ou de percepções visuais: os "negros" não constituem um grupo biologicamente homogêneo ou coerente, tampouco os "brancos", os "amarelos" etc.
Um indivíduo nascido de um homem de pele negra e de uma mulher de pele branca é inevitavelmente visto pela sociedade como um negro, ao passo que se olharmos pela genética, ele não é mais negro do que branco. Portanto, aquilo que chamamos de "raça" em linguagem corrente não tem nenhum fundamento científico. Por exemplo: a nomenclatura administrativa americana considera que existe uma "raça" de "brancos hispânicos". Deve-se ver ali uma realidade biológica ou a tradução de um temor da América do Norte anglo-saxã diante da pressão migratória da América do Sul hispanófona? Na Europa, ninguém pensaria em discriminar uma raça "hispânica"...
Assim, o exercício ao qual os autores se dedicam consiste em fazer as pessoas acreditarem que existem determinantes biológicos objetivos que ratificam categorias socialmente construídas pelas vicissitudes de nossa história ou pela mesquinharia de nossos preconceitos. Esse erro tem precedentes históricos conhecidos. Haveria também um meio mais fácil para refutar as certezas dos dois autores. Vocês dizem que existem raças humanas? Então as enumerem...
Tradutor: UOL
A crítica é tão forte quanto as argumentações são pobres. O primeiro argumento apresentado pelos autores é um notável contrassenso. Como existem diferentes raças de cachorro --o que todos concordam em constatar--, não há razões válidas para que não existam raças humanas. Sendo assim, os autores se esquecem de lembrar que a diversidade das raças caninas é fruto de uma seleção efetuada há muito tempo pelo homem, para obter animais adaptados a determinadas funções. Se adotarmos esse paralelo com o cão, então a raça seria consequência de uma criação. O que incorre nesse acidente retórico: hipotéticas raças humanas seriam resultado de uma forma de higiene racial. Não haveria raças sem uma vontade deliberada de manter determinados traços ou características.
Os autores não ficam só no cachorro: eles mencionam o chimpanzé, a girafa, o guaxinim e suas várias subespécies, que eles também apresentam como análogos animais às supostas raças humanas...
Mesmo assim o argumento é enganoso. Porque no reino animal essas subespécies só dizem respeito à ocupação de nichos ecológicos distintos. Só que uma das singularidades do Homo sapiens é que ele é fundamentalmente migrador. Ele se libertou de todos os ambientes que encontrou após suas sucessivas saídas da África, se adaptando a todos os biótopos, criando assim uma continuidade de povoamento, trópicos nas regiões paleárticas. Nessa continuidade, onde situar as fronteiras?
É claro, a seleção nunca parou. Diferenças de fenótipo apareceram no decorrer dos últimos milênios. Portanto, na verdade é absurdo, como ressaltam justamente os autores, contestar a realidade dessas diferenças. Mas como as migrações e as misturas de população nunca pararam, essas diferenças entram em um contínuo de diversidade que é impossível encerrar em uma classificação rígida e sistemática. A etnia, noção complexa que leva em conta considerações socioculturais, linguísticas etc., às vezes pode ser invocada, mas a raça, como categoria biológica, é uma ilusão.
No cerne do mal-entendido
Para os autores, a variedade de reações a determinados tratamentos médicos dependendo das populações ou as diferentes suscetibilidades a certas doenças vêm corroborar "cientificamente" a noção de raça. Mas... as populações do grande oeste da França têm uma grande tendência à luxação congênita do quadril: estamos falando em uma raça "francesa-ocidental"? As das ilhas e da região mediterrânea são mais sujeitas à talassemia (uma doença sanguínea): estamos falando de uma "raça mediterrânea"?Essa lacuna entre percepção e realidade biológica está no cerne do mal-entendido. Aquilo que no balcão do bar se chama de "raça" não recobre nenhuma realidade biológica precisa, mas é resultado de uma construção social e/ou de percepções visuais: os "negros" não constituem um grupo biologicamente homogêneo ou coerente, tampouco os "brancos", os "amarelos" etc.
Um indivíduo nascido de um homem de pele negra e de uma mulher de pele branca é inevitavelmente visto pela sociedade como um negro, ao passo que se olharmos pela genética, ele não é mais negro do que branco. Portanto, aquilo que chamamos de "raça" em linguagem corrente não tem nenhum fundamento científico. Por exemplo: a nomenclatura administrativa americana considera que existe uma "raça" de "brancos hispânicos". Deve-se ver ali uma realidade biológica ou a tradução de um temor da América do Norte anglo-saxã diante da pressão migratória da América do Sul hispanófona? Na Europa, ninguém pensaria em discriminar uma raça "hispânica"...
Assim, o exercício ao qual os autores se dedicam consiste em fazer as pessoas acreditarem que existem determinantes biológicos objetivos que ratificam categorias socialmente construídas pelas vicissitudes de nossa história ou pela mesquinharia de nossos preconceitos. Esse erro tem precedentes históricos conhecidos. Haveria também um meio mais fácil para refutar as certezas dos dois autores. Vocês dizem que existem raças humanas? Então as enumerem...
Tradutor: UOL
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