Gardiner Harris - NYT
Quando a noite cai nesta capital, quadrilhas vasculham as ruas escuras à procura de uma presa fácil entre a uma parte da vasta população de rua da cidade; milhares foram pegas e levadas em caminhões nos últimos anos.
A polícia diz que aumentou as patrulhas e montou bloqueios nas estradas, num esforço para acabar com o tráfico. Em alguns casos, policiais se infiltraram nas quadrilhas na esperança de pegá-las no ato. Mas os sequestros brutais continuam, e as vítimas – vacas magras, que estão lentamente perdendo seu status sagrado entre alguns habitantes da Índia – são abatidas e vendidas pela carne e couro.
O roubo de gado, chamado de "levantamento" em Déli, é um problema crescente em Nova Déli, à medida que os indianos cada vez mais ricos desenvolvem um gosto pela carne, até mesmo das vacas, que são consideradas sagradas pelo hinduísmo. Os criminosos já arrebanharam cerca de 40 mil animais que perambulavam pelas ruas da megalópole para vendê-los aos matadouros ilegais, localizados em aldeias não muito longe dali.
Muitos das vacas de Nova Déli fazem parte da produção de laticínios e seus proprietários não têm nem terra nem dinheiro para mantê-las presas. Assim, os animais pastam em canteiros gramados na cidade ou nas onipresentes pilhas de lixo. Outras, velhas demais para serem ordenhadas, são muitas vezes abandonadas e ficam vagando pelas ruas até morrer – ou serem pegas pelos ladrões.
Grupos de policiais perseguem os criminosos, mas estes – dirigindo caminhões de lixo envenenados – não se incomodam em abalroar os carros da polícia ou romper barricadas. Eles até empurram vacas na frente de seus perseguidores, obrigando os oficiais horrorizados a desviarem do caminho para evitar o que ainda é considerado um pecado grave por muitos.
"Essas quadrilhas vão principalmente atrás do gado perdido, mas também roubam motos e scooters", disse o policial Bhisham Singh numa entrevista. "Recentemente, eles sequestraram e estupraram coletivamente uma mulher."
A maior parte da carne exportada é de búfalo (a Índia tem a metade da população de búfalos do mundo), que não é considerado um animal sagrado. Mas as autoridades em Andhra Pradesh estimaram recentemente que há 3.100 matadouros ilegais no estado, e apenas seis licenciados, e uma investigação jornalística recente descobriu que dezenas de milhares de cabeças de gado são vendidas anualmente para o abate num mercado em apenas um dos 64 distritos do estado. Matar vacas é ilegal na maior parte da Índia, e alguns estados proibem a posse de carne de vaca.
A maior parte da carne ilegal é provavelmente vendida como sendo de búfalo, uma maneira fácil de esconder um sacrilégio. Mas às vezes ela chega aos vendedores em Déli, cujos números de celular são repassados aos sussurros. A carne de vaca pode ser encomenda de vendedores ilegais em transações que são realizadas como no tráfico de drogas.
A carne de gado também é amplamente consumida pelos muçulmanos e os dalits, que estão entre os cidadãos mais marginalizados da Índia. De fato, o consumo de carne está crescendo mais entre os pobres, mostram as estatísticas do governo, e o consumo geral de carne cresceu 14% de 2010 a 2012.
Anuj Agrawal, 28, disse que cresceu numa família hindu estritamente vegetariana, mas experimentou frango pela primeira vez em sua adolescência quando foi a um restaurante com os amigos. Ele agora come todos os tipos de carne, inclusive bifes e hambúrgueres. "Uma vez que você experimenta a carne, você não volta a comer só frutas e legumes", disse Agrawal.
Ele diz que muitos de seus amigos fizeram transições semelhantes. Mas ele nunca come carne com seus avós: "eu seria excomungado se fizesse isso, então fico totalmente vegetariano quando estou com eles. Não quero ser deserdado."
"As vacas significam negócios e dinheiro hoje, e não religião", disse Pauws. "Elas são todas levadas para os matadouros. É terrível."
Isso não quer dizer que comer carne de gado é algo amplamente aceito. A grande maioria dos hindus ainda reverenciam as vacas, e o Partido Bharatiya Janata, um dos dois principais partidos políticos do país, demandou que as leis contra o abate do gado sejam reforçadas.
Alguns proprietários até se recusar a alugar casas para aqueles que confessam gostar de carne.
Mas a demanda por carne bovina continua aumentando, dizem muitos, e com ela, o roubo de gado. No ano passado, a polícia de Déli prendeu 150 ladrões, um número recorde. Este ano, as prisões continuaram crescendo, disse Singh.
Normalmente, os ladrões andam pela cidade durante a noite. Quando os criminosos detectam gado perdido e poucas testemunhas, eles param o caminhão, abrem uma rampa e usam uma corda para guiar as vacas ao seu destino fatal.
Os ladrões geralmente colocam cerca de 10 vacas num caminhão, e cada uma rende 5 mil rúpias – cerca de US$ 94. Num país onde mais de 800 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 2 por dia, o roubo de única noite, no valor de mais de US$ 900, representa uma séria tentação.
Um homem que ajudou a polícia na vizinha Uttar Pradesh disse que os ladrões costumam subornar para permanecerem em liberdade. "Mesmo quando são mandados para a prisão, eles saem em 10 a 15 dias e voltam a cometer os mesmos crimes", disse o homem, que não quis ser identificado por medo de represálias.
Às vezes, o socorro chega tarde demais. Brijinder Sharma, o gerente do abrigo, cujo escritório tem paredes decoradas com desenhos do deus Krishna abraçando um bezerro, mostrou um vídeo de um caminhão carregado com gado que foi apreendido no caminho para um matadouro ilegal. Muitas das vacas já haviam morrido de hipertermia.
"O status social e religioso das vacas tem sido atacado na Índia", disse Sharma. Ele espera que este abrigo, que tem um orçamento anual de US$ 5,4 milhões, vindos quase inteiramente de indianos ricos que emigraram para os Estados Unidos, ajudará a reverter essa tendência.
A alimentação da tarde no abrigo atraiu uma multidão de alegres curiosos. O tratador Abhishek, chamou no meio da multidão que mugia: "Sakhi! Sakhi!" Uma vaca grande com chifres enormes correu para a frente do rebanho, e Mr. Abhishek a beijou no focinho. A vaca respondeu lambendo o seu rosto, e Mr. Abhishek sorriu. (colaborou Hari Kumar)
Tradutor: Eloise De Vylder
A polícia diz que aumentou as patrulhas e montou bloqueios nas estradas, num esforço para acabar com o tráfico. Em alguns casos, policiais se infiltraram nas quadrilhas na esperança de pegá-las no ato. Mas os sequestros brutais continuam, e as vítimas – vacas magras, que estão lentamente perdendo seu status sagrado entre alguns habitantes da Índia – são abatidas e vendidas pela carne e couro.
O roubo de gado, chamado de "levantamento" em Déli, é um problema crescente em Nova Déli, à medida que os indianos cada vez mais ricos desenvolvem um gosto pela carne, até mesmo das vacas, que são consideradas sagradas pelo hinduísmo. Os criminosos já arrebanharam cerca de 40 mil animais que perambulavam pelas ruas da megalópole para vendê-los aos matadouros ilegais, localizados em aldeias não muito longe dali.
Muitos das vacas de Nova Déli fazem parte da produção de laticínios e seus proprietários não têm nem terra nem dinheiro para mantê-las presas. Assim, os animais pastam em canteiros gramados na cidade ou nas onipresentes pilhas de lixo. Outras, velhas demais para serem ordenhadas, são muitas vezes abandonadas e ficam vagando pelas ruas até morrer – ou serem pegas pelos ladrões.
Grupos de policiais perseguem os criminosos, mas estes – dirigindo caminhões de lixo envenenados – não se incomodam em abalroar os carros da polícia ou romper barricadas. Eles até empurram vacas na frente de seus perseguidores, obrigando os oficiais horrorizados a desviarem do caminho para evitar o que ainda é considerado um pecado grave por muitos.
"Essas quadrilhas vão principalmente atrás do gado perdido, mas também roubam motos e scooters", disse o policial Bhisham Singh numa entrevista. "Recentemente, eles sequestraram e estupraram coletivamente uma mulher."
Paradigmas
Por trás do roubo de gado há uma profunda mudança na sociedade indiana. O consumo de carne – de frango, principalmente – está se tornando aceitável mesmo entre os hindus. A Índia é hoje o maior produtor de leite do mundo, o maior produtor de gado e maior exportador de carne bovina, tendo ultrapassado Brasil em 2012, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.A maior parte da carne exportada é de búfalo (a Índia tem a metade da população de búfalos do mundo), que não é considerado um animal sagrado. Mas as autoridades em Andhra Pradesh estimaram recentemente que há 3.100 matadouros ilegais no estado, e apenas seis licenciados, e uma investigação jornalística recente descobriu que dezenas de milhares de cabeças de gado são vendidas anualmente para o abate num mercado em apenas um dos 64 distritos do estado. Matar vacas é ilegal na maior parte da Índia, e alguns estados proibem a posse de carne de vaca.
A maior parte da carne ilegal é provavelmente vendida como sendo de búfalo, uma maneira fácil de esconder um sacrilégio. Mas às vezes ela chega aos vendedores em Déli, cujos números de celular são repassados aos sussurros. A carne de vaca pode ser encomenda de vendedores ilegais em transações que são realizadas como no tráfico de drogas.
A carne de gado também é amplamente consumida pelos muçulmanos e os dalits, que estão entre os cidadãos mais marginalizados da Índia. De fato, o consumo de carne está crescendo mais entre os pobres, mostram as estatísticas do governo, e o consumo geral de carne cresceu 14% de 2010 a 2012.
Anuj Agrawal, 28, disse que cresceu numa família hindu estritamente vegetariana, mas experimentou frango pela primeira vez em sua adolescência quando foi a um restaurante com os amigos. Ele agora come todos os tipos de carne, inclusive bifes e hambúrgueres. "Uma vez que você experimenta a carne, você não volta a comer só frutas e legumes", disse Agrawal.
Ele diz que muitos de seus amigos fizeram transições semelhantes. Mas ele nunca come carne com seus avós: "eu seria excomungado se fizesse isso, então fico totalmente vegetariano quando estou com eles. Não quero ser deserdado."
Vacas "irreverentes"
Em certa medida, a crescente aceitação da carne é resultado de intenso foco do governo em aumentar a produção de leite, o que levou a uma proliferação de raças estrangeiras de gado que não são alvo da mesma reverência que as vacas locais, disse Clementien Pauws, presidente da Sociedade Karuna para os Animais e a Natureza, um grupo de defesa dos animais de Andhra Pradesh."As vacas significam negócios e dinheiro hoje, e não religião", disse Pauws. "Elas são todas levadas para os matadouros. É terrível."
Isso não quer dizer que comer carne de gado é algo amplamente aceito. A grande maioria dos hindus ainda reverenciam as vacas, e o Partido Bharatiya Janata, um dos dois principais partidos políticos do país, demandou que as leis contra o abate do gado sejam reforçadas.
Alguns proprietários até se recusar a alugar casas para aqueles que confessam gostar de carne.
Mas a demanda por carne bovina continua aumentando, dizem muitos, e com ela, o roubo de gado. No ano passado, a polícia de Déli prendeu 150 ladrões, um número recorde. Este ano, as prisões continuaram crescendo, disse Singh.
Normalmente, os ladrões andam pela cidade durante a noite. Quando os criminosos detectam gado perdido e poucas testemunhas, eles param o caminhão, abrem uma rampa e usam uma corda para guiar as vacas ao seu destino fatal.
Os ladrões geralmente colocam cerca de 10 vacas num caminhão, e cada uma rende 5 mil rúpias – cerca de US$ 94. Num país onde mais de 800 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 2 por dia, o roubo de única noite, no valor de mais de US$ 900, representa uma séria tentação.
Um homem que ajudou a polícia na vizinha Uttar Pradesh disse que os ladrões costumam subornar para permanecerem em liberdade. "Mesmo quando são mandados para a prisão, eles saem em 10 a 15 dias e voltam a cometer os mesmos crimes", disse o homem, que não quis ser identificado por medo de represálias.
Refúgio
O destino infeliz das vacas de Déli levou alguns hindus a montarem abrigos para o gado na periferia da região metropolitana. Um dos maiores é o Shri Mataji Gaushala, onde milhares de cabeças de gado vivem em cerca de 42 acres.Às vezes, o socorro chega tarde demais. Brijinder Sharma, o gerente do abrigo, cujo escritório tem paredes decoradas com desenhos do deus Krishna abraçando um bezerro, mostrou um vídeo de um caminhão carregado com gado que foi apreendido no caminho para um matadouro ilegal. Muitas das vacas já haviam morrido de hipertermia.
"O status social e religioso das vacas tem sido atacado na Índia", disse Sharma. Ele espera que este abrigo, que tem um orçamento anual de US$ 5,4 milhões, vindos quase inteiramente de indianos ricos que emigraram para os Estados Unidos, ajudará a reverter essa tendência.
A alimentação da tarde no abrigo atraiu uma multidão de alegres curiosos. O tratador Abhishek, chamou no meio da multidão que mugia: "Sakhi! Sakhi!" Uma vaca grande com chifres enormes correu para a frente do rebanho, e Mr. Abhishek a beijou no focinho. A vaca respondeu lambendo o seu rosto, e Mr. Abhishek sorriu. (colaborou Hari Kumar)
Tradutor: Eloise De Vylder
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