domingo, 2 de junho de 2013

México, Colômbia, Peru e Chile mostram ao Brasil o que deveria ser feito em vez de permanecer atolado no Mercosul
Ricardo Setti - VEJA
É ASSIM QUE SE FAZ -- Enrique Peña Nieto, Juan Manuel Santos, Ollanta Humala e Sebatián Piñera (da esq. para a dir.) celebram a formalização da Aliança do Pacífico, em Cali, na Colômbia. Eles, sim, querem fazer negócios (Foto: Luis Robayo / AFP)
É ASSIM QUE SE FAZ -- Enrique Peña Nieto, Juan Manuel Santos, Ollanta Humala e Sebatián Piñera (da esq. para a dir.) celebram a formalização da Aliança do Pacífico, em Cali, na Colômbia. Eles, sim, querem fazer negócios (Foto: Luis Robayo / AFP)
O QUARTETO FANTÁSTICO
México, Colômbia, Peru e Chile iniciam uma área de livre-comércio ao zerar as tarifas de 90% dos seus produtos de exportação. Enquanto isso, o Mercosul afunda
Duda Teixeira e Tamara Fisch - VEJA
Durante a campanha eleitoral de 2011, o atual presidente do Peru, Ollanta Humala, discursou para uma pequena plateia de agricultores, em Lima. “No tempo dos incas, não havia tratados de livre-comércio e nem por isso as pessoas aqui passavam fome”, disse ele, sob aplausos.
Humala fazia, assim, eco à exaltação de um passado indígena idealizado de sua sigla, o Partido Nacionalista Peruano (PNP), e à aversão da esquerda aos acordos comerciais, que beneficiaram tremendamente o Peru nos últimos anos. No império Inca, ele tinha razão, o que não faltava era batata. E só.
Na quinta-feira 23, o mesmo Humala apareceu para as câmeras fotográficas em uma situação totalmente diferente. Em Cali, na Colômbia. posou ao lado do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, do mexicano Enrique Peña Nieto, e do chileno, Sebastián Piñera, para sacramentar a entrada em vigor da Aliança do Pacífico.
Essa área de livre-comércio, cujo projeto foi anunciado no ano passado, passa a funcionar no dia 30 de junho, quando 90% dos produtos comercializados entre essas nações terão as tarifas zeradas.
A reviravolta de Humala é um exemplo de político que, apesar das preferências ideológicas, se rendeu à realidade. Não há maneira mais eficiente para reduzir a pobreza e distribuir a riqueza de um país do que o livre-comércio.
Já o seu inverso, o protecionismo, é o grande responsável por afugentar os investimentos estrangeiros e a chance de uma economia crescer e de criar empregos. Se ainda estivesse apegado aos ideais bolivarianos do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, Humala provavelmente teria optado por ingressar no Mercosul, o palanque político travestido de união aduaneira, que inclui Brasil, Argentina, Venezuela e Uruguai.
O efeito mais imediato da Aliança do Pacífico para o Brasil é a perda de clientes ao redor do mundo. “Um produto chileno ou mexicano, exportado para a China ou para os Estados Unidos, não pagará tarifas, enquanto um brasileiro arcará com algo entre 20% e 35%”, diz Evaldo Alves, professor de economia internacional na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo.
O segundo impacto é que o fluxo de investimentos estrangeiros será direcionado ainda mais aos países da Aliança, de longe os mais dinâmicos da região. Por oferecerem um clima melhor para negócios e pouca ingerência governamental, são esses os destinos que mais atraem os capitalistas. Enquanto o tempo gasto para abrir uma empresa em São Paulo é de 119 dias e em Caracas é de 141, em Santiago é de apenas sete. Muitas já são as firmas que, em vez de entrar no Brasil, burocrático e caro, optam por produzir nos países da Aliança e exportar para o mundo todo, sem impostos.
O Mercosul e a Aliança do Pacífico possuem identidades opostas. Enquanto no primeiro se fala em incluir países insignificantes como o Suriname, o Equador e a Bolívia, a pretensão na Aliança é costurar mais acordos com países desenvolvidos. Virou vedete mundial.
A cúpula da Aliança da semana passada, compareceram como observadores Espanha, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Portugal e Canadá. Os caribenhos mais evoluídos, Costa Rica e Panamá, pediram para entrar. Os costa-riquenhos já foram aceitos. Como se trata de uma área de livre-comércio, os acordos de redução das tarifas feitos anteriormente por cada país-membro com outras nações ou blocos continuam valendo.
O México, por exemplo, tem tratados com 44 países. No Mercosul, cujo slogan institucional é “nosso norte é o sul”, qualquer novo acordo precisa ser ratificado por unanimidade ou vai para a lata do lixo da história. Os únicos firmados até agora foram com Israel, Palestina e Egito. Nulidades.
O sinal emitido pelo Mercosul para o mundo é de apoio a estatizações de empresas e congelamento de preços na Argentina e na Venezuela. São medidas que deixam uma fatura pesada. Com investimentos em queda, a produção não aumenta. Impostos, gastos governamentais excessivos e comércio limitado elevam o custo de vida. “Se por algum tempo parece que as coisas vão bem, a longo prazo a inflação pode minar todas as conquistas adquiridas”, diz a economista canadense Barbara Kotschwar, especialista em comércio na América Latina, de Washington.
Na semana passada, uma pesquisa da Universidade Católica, de Buenos Aires, mostrou que na Argentina a pobreza aumentou de 31.1% para 38.8% dos jovens entre 2011 e 2012. As causas apontadas são a inflação anual de mais de 25% e a retração econômica — o corolário mais evidente da falta de investimentos.
Tratados de livre-comércio, em média, demoram cinco anos entre a concepção e a entrada em vigor das novas tarifas de importação. Em 1994, quatro países do Leste Europeu deixaram todos de queixo caído por levar apenas dois anos para pôr de pé uma zona de livre-comércio.
O recorde foi batido agora pela Aliança do Pacífico. Entre 0 anúncio das intenções e a eliminação das tarifas passaram-se doze meses. “Nesse tempo exíguo, eles já fizeram muito mais que o Mercosul em duas décadas”. diz o embaixador Rubens Barbosa.
O sucesso da Aliança em contraste com o fracasso do Mercosul é desconcertante em especial para o Brasil, país que poderia estar liderando a região no caminho da prosperidade, mas abriu mão disso para os tresloucados regimes da Venezuela e da Argentina.

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