Juan Arias - El Pais
Um fato novo surgiu no convulso e por enquanto vitorioso protesto de rua no Brasil: a ele começou a somar-se a população pobre das favelas, que até agora era só testemunha de uma revolta organizada por membros da classe média.
Mil pessoas de uma das favelas mais emblemáticas do Rio, a da Rocinha, desceram na noite de terça-feira (25) para um bairro nobre da cidade, o Leblon, acompanhadas por policiais que não precisaram agir porque os favelados deram um exemplo de cidadania com uma marcha pacífica. Aos mil da Rocinha uniram-se pelo caminho outros 1.500 de outra favela, e juntos eles se dirigiram à residência do governador do Rio, Sérgio Cabral. Desde sexta-feira passada ele não dorme em sua casa, diante da qual um grupo de manifestantes armou suas barracas de campanha.
As lojas de luxo do Leblon e os escritórios de empresários haviam fechado as portas diante do anúncio de que a favela "estava baixando". E todos foram pegos de surpresa, porque aquela gente acostumada a estar aprisionada entre a violência dos narcotraficantes e a da polícia fez a marcha mais pacífica até agora nos protestos de rua.
Com seus cartazes pedindo paz, gritaram seus slogans e voltaram ordenadamente a suas casas, sem ter quebrado um prato. Correspondeu à jovem estudante de 21 anos Érica dos Santos apresentar suas reivindicações, que se uniram ao mar de petições do protesto nacional. Ao contrário do que se dizia, que o Estado havia feito inúmeras obras sociais na favela da Rocinha, hoje destino inclusive do turismo internacional, seus habitantes desmentiram a versão idílica do governo.
"Quando Dilma esteve na favela nos prometeu melhoras na infraestrutura de saúde pública, que não se realizaram; as creches não funcionam e no posto de saúde pública o atendimento aos doentes é péssimo", disse a jovem em nome da favela.
Reivindicações concretas, precisas, sem um fio de utopias impossíveis, que faziam eco aos protestos gerais. O despertar da favela ao protesto nacional é um fato novo que agora pode assustar a classe política e desmente o fato de que os pobres, agradecidos pelo que receberam nestes anos de governos progressistas de Lula e Dilma, não se somariam às queixas da classe média.
Começaram a fazê-lo. E com a surpresa de sua atitude de diálogo e paz, embora se trate de gente dura, acostumada a que as balas silvem por cima de suas cabeças, que se não fosse escutada poderia mostrar com maior força que a classe média sua raiva acumulada em uma longa história de abandono.
Por enquanto, sua primeira atuação foi um exemplo para todos. Uma lição de protesto pacífico veio de onde menos se esperava. Um dos mil paradoxos desse despertar do Brasil.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Mil pessoas de uma das favelas mais emblemáticas do Rio, a da Rocinha, desceram na noite de terça-feira (25) para um bairro nobre da cidade, o Leblon, acompanhadas por policiais que não precisaram agir porque os favelados deram um exemplo de cidadania com uma marcha pacífica. Aos mil da Rocinha uniram-se pelo caminho outros 1.500 de outra favela, e juntos eles se dirigiram à residência do governador do Rio, Sérgio Cabral. Desde sexta-feira passada ele não dorme em sua casa, diante da qual um grupo de manifestantes armou suas barracas de campanha.
As lojas de luxo do Leblon e os escritórios de empresários haviam fechado as portas diante do anúncio de que a favela "estava baixando". E todos foram pegos de surpresa, porque aquela gente acostumada a estar aprisionada entre a violência dos narcotraficantes e a da polícia fez a marcha mais pacífica até agora nos protestos de rua.
Com seus cartazes pedindo paz, gritaram seus slogans e voltaram ordenadamente a suas casas, sem ter quebrado um prato. Correspondeu à jovem estudante de 21 anos Érica dos Santos apresentar suas reivindicações, que se uniram ao mar de petições do protesto nacional. Ao contrário do que se dizia, que o Estado havia feito inúmeras obras sociais na favela da Rocinha, hoje destino inclusive do turismo internacional, seus habitantes desmentiram a versão idílica do governo.
"Quando Dilma esteve na favela nos prometeu melhoras na infraestrutura de saúde pública, que não se realizaram; as creches não funcionam e no posto de saúde pública o atendimento aos doentes é péssimo", disse a jovem em nome da favela.
Reivindicações concretas, precisas, sem um fio de utopias impossíveis, que faziam eco aos protestos gerais. O despertar da favela ao protesto nacional é um fato novo que agora pode assustar a classe política e desmente o fato de que os pobres, agradecidos pelo que receberam nestes anos de governos progressistas de Lula e Dilma, não se somariam às queixas da classe média.
Começaram a fazê-lo. E com a surpresa de sua atitude de diálogo e paz, embora se trate de gente dura, acostumada a que as balas silvem por cima de suas cabeças, que se não fosse escutada poderia mostrar com maior força que a classe média sua raiva acumulada em uma longa história de abandono.
Por enquanto, sua primeira atuação foi um exemplo para todos. Uma lição de protesto pacífico veio de onde menos se esperava. Um dos mil paradoxos desse despertar do Brasil.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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