quinta-feira, 27 de junho de 2013

Que opção Obama está buscando ao querer armar rebeldes na Síria?
Thomas L. Friedman - NYT      
Se você olhar de uma distância de 9.000 metros, o que estamos de fato enfrentando no Oriente Médio atualmente são as consequências tardias do fim do Império Otomano. Quando o Império Otomano ruiu em consequência de sua derrota na 1ª Guerra Mundial, as potências coloniais do Reino Unido e França estavam lá, por interesse próprio, para impor sua própria ordem às diversas tribos, seitas e religiões que formam o Leste Árabe. Quando os britânicos e franceses partiram após a 2ª Guerra Mundial, eles entregaram o poder, em muitos casos, a monarcas que, em muitos casos, o entregaram para generais que, em todos os casos, mantiveram suas populações diversas na linha com mão de ferro.
Quando o presidente Barack Obama diz que planeja armar os rebeldes anti-Bashar al-Assad na Síria, esse é o vórtice no qual ele está inserindo os Estados Unidos. Ainda não está claro para mim em que direção o presidente seguirá na Síria, mas eu vejo apenas três estratégias possíveis: a realista, a idealista e a "Deus, eu espero que tenhamos sorte".
A realista diz: eu realmente não vejo nenhuma esperança de construção de uma Síria unida, multissectária e democrática –não após dois anos de guerra civil e mais de 90 mil mortos. A meta americana deveria ser simplesmente armar os rebeldes o suficiente para que possam ferir e prender no atoleiro dois dos principais adversários regionais dos Estados Unidos –o Hezbollah e o Irã– e negar a eles uma vitória fácil ao lado de Assad na Síria.
A longo prazo, entretanto, essa estratégia muito provavelmente levaria a uma divisão da Síria em uma zona alauita ao longo da costa, uma zona curda no nordeste e uma zona sunita no restante do país. A zona sunita, entretanto, quase certamente se veria envolvida em uma disputa de poder entre os sunitas seculares, que nós apoiaríamos, e os vários sunitas islamitas, financiados por mesquitas, caridades e governos no golfo árabe. Apesar de a divisão poder ser a opção mais estável e humanitária a longo prazo –a divisão da Síria em unidades menores capazes de se autogovernarem–, chegar até lá seria feio e o pedaço muçulmano sunita poderia facilmente acabar dominado pelos jihadistas, não "nosso pessoal".
A abordagem idealista argumenta que, se nossa meta é uma Síria unida, multissectária e democrática, então simplesmente armar os "bons rebeldes" não seria suficiente para se conseguir isso. Nós (ou a Otan) teríamos que ter soldados em solo para ajudá-los a derrubar Assad e então permanecerem por anos para impedir as partes hostis de matarem umas às outras, para reprimir os extremistas violentos em cada comunidade e ajudar os moderados a redigirem e implantarem um novo contrato social sobre como viverem juntos.
Aqueles que desejam uma Síria unida, multissectária e democrática, uma meta nobre, precisam ser honestos a respeito do que seria necessário para se chegar de onde estamos agora até isso. Seria necessária outra intervenção da escala do Iraque –algo que não fizemos bem e que muito poucos americanos votariam por repetir.
Alguns diriam que não precisamos de soldados no solo, como provado pela intervenção na Líbia. Sério? A Líbia é um exemplo da abordagem "vamos enviar algumas armas para eles e torcer pelo melhor". Vamos remover o regime de Gaddafi do espaço aéreo, armar os rebeldes em solo e então esperar que se unam e produzam uma democracia pluralista e decente. Até o momento, nós não tivemos muita sorte. Nosso debate sobre a Líbia tem se concentrado totalmente no ataque à nossa instalação em Benghazi, mas o debate apropriado deveria ser por que havia –e continua havendo– um vácuo de segurança no leste da Líbia.
O governo de transição não foi forte o bastante para impor a ordem na Líbia e houve uma metástase da instabilidade lá. Como a agência de notícias "Reuters" noticiou de Benghazi na quarta-feira, "a Líbia continua anárquica e repleta de armas quase dois anos após" a derrubada de Muammar Gaddafi. A boa notícia é que os líbios moderados reagiram contra suas milícias jihadistas e tribais ilegais, mas sem ajuda externa é uma luta morro acima.
Na Síria, nós esperaríamos que, apenas levemente armados, os rebeldes poderiam ao menos combater Assad & Amigos até um impasse, a ponto do regime concordar em negociar a saída de Assad. Mas mesmo se por algum milagre isso acontecesse, muito mais sangue seria derramado ao longo do caminho e seria necessária uma força de paz internacional para arbitrar qualquer acordo de divisão de poder pós-Assad. Todos os voluntários ergam a mão, por favor.
Essas são as opções que vejo. Nenhuma parece muito boa, porque as pessoas na Síria que estão realmente lutando por um resultado democrático são incrivelmente corajosas, mas fracas e divididas. Lutar por valores democráticos –e não pela família, seita, tribo ou pela Shariah– ainda é uma coisa nova nessas sociedades. Aqueles que estão lutando por um resultado sectário ou islamita, entretanto, são cheios de energia e bem financiados. É por isso que se manter fora garante apenas que coisas ainda piores acontecerão, mas entrar, de modo grande ou pequeno, não garante o sucesso. E esse é o motivo para eu querer saber qual opção Obama está buscando e por que ele acha que ela será bem-sucedida.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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