Eu avisei
Janot insiste em agir como se a PGR fosse acabar ao fim de seu mandato,
típico de indivíduo cuja ascensão tem como escada o rebaixamento da
instituição que representa
Carlos Andreazza - O Globo
É
inacreditável que ainda seja procurador-geral da República; que não
tenha renunciado depois daquela que escolheu como grife para sua gestão à
frente do Ministério Público Federal, o acordo de colaboração do bando
da J&F, ter ruído por obra de sua — sou generoso — incompetência.
Mas o Janot que se aferra à réstia de seu mandato, que dispara denúncias
ineptas para se defender e que — neste momento — bebe cerveja com o
advogado de Joesley Batista é representação mais próxima do que ele
verdadeiramente seja do que aquele arqueiro corajoso libertado pelo
impeachment de Dilma Rousseff, em junho de 2016.
Convém lembrar,
pois, a conduta do valente à época em que ainda não fora obrigado a
surfar a onda da Lava-Jato imposta desde Curitiba. Em dezembro de 2014,
por exemplo, a revista “IstoÉ” informava que havia sete meses
Janot mantinha excêntricos encontros com prepostos das empreiteiras
agentes no esquema de corrupção na Petrobras então incipientemente
investigado pela operação.
Àquela altura, o procurador-geral,
empossado em setembro 2013, parecia simpático à tese formulada pelo
ex-ministro lulista Márcio Thomaz Bastos segundo a qual as empreiteiras
deveriam se antecipar: assumir que formavam um cartel — para
superfaturar contratos com a petroleira — e propor um acordo que lhes
permitisse continuar disputando obras públicas e encerrasse as
investigações em troca do pagamento de multa. E — digo eu — antes que a
devassa chegasse ao governo petista.
Essa proposta de conchavo
embutia um presente ao PT: porque, ao admitir a cartelização na pilhagem
à estatal, as empresas reduziriam o papel do governo ao de vítima do
petrolão, protagonizado por empresários, burocratas e políticos
desgarrados. “Se arrecadar R$ 1 bilhão para fazer dez penitenciárias,
estou satisfeito” — teria dito Janot a Bastos a propósito do acordo,
segundo relato do advogado José Francisco Grossi e conforme publicado
por este O GLOBO em março de 2016.
Seria provavelmente o fim da
Lava Jato — e certamente sem que qualquer político relevante fosse pego.
O arranjo, porém, não prosperou; porque logo viria a delação de Paulo
Roberto Costa, que fez enfim pipocar nomes de políticos, e a pressão
vinda da força-tarefa curitibana — vigorosa, mas nem sempre virtuosa —
sobrepôs-se à acomodação de Brasília.
Naquele tempo, Janot,
conciliador-geral, tinha margem de adaptação — inclusive para se tornar
herói de feitos alheios. Hoje, sob desconfiança, não mais. É à luz dessa
condição — a de um homem acuado — que suas recentes flechadas devem ser
compreendidas. Ou alguém acha que viria a público tratar dos novos
áudios encontrados no gravador de Joesley se tivesse opção?
Que
nos lembremos: ele não queria que a geringonça fosse periciada; Fachin
tampouco considerara importante. A dupla quase derrubou um presidente
sem que o aparelho tivesse sido examinado. Mas a Polícia Federal o fez; e
conseguiu recuperar o material apagado. O resto é Joesley, com medo,
correndo para entregar as gravações que ocultara. O resto é Janot, com
medo, correndo para tentar conter a própria danação.
Ah, sim: ele
pediu a prisão (atenção) temporária de Joesley e de Ricardo Saud, o que,
aceito por Fachin, suspendeu a imunidade prevista no acordo que
firmaram com o MPF. Estão já presos. (A prisão do ex-procurador Marcelo
Miller não foi decretada.) Muito bem. É notícia velha. Mas há quem ainda
veja decência na ação de Janot. No entanto, pergunto: tinha
alternativa? Poderia nada fazer sobre a cambada da J&F, o que
significaria deixar que sua sucessora tomasse as providências — todas,
desde o início — a respeito?
Que não nos esqueçamos: ele passará o
comando da PGR, na próxima segunda, a Raquel Dodge — que não é sua
aliada. Daí por que indago: poderia arriscar que ela desse
encaminhamento mais severo à apuração sobre a bizarria em que consiste o
contrato de colaboração dos Batista etc.? Poderia arriscar ver sua
substituta dar à investigação sobre as origens e a cronologia do acordo —
sobre as relações entre Janot e Miller, e deste com Joesley e Saud — o
mesmo peso dado ao pedido de prisão dos açougueiros?
A resposta é não.
Ainda
assim, insiste em se comportar como se a PGR fosse acabar ao fim de seu
mandato — modo típico de indivíduo cuja ascensão tem como escada o
rebaixamento da instituição que representa. Objetivamente, entretanto,
desde que se ouviu o conteúdo da gravação em que Joesley e Saud se
referem ao trato com o MPF como instrumento para a realização de
negócios, tudo quanto Janot fizesse estaria sob suspeita, seria
enfraquecido e só teria algum efeito se para a narrativa desesperada com
a qual tenta não ser incriminado — o que resultaria em impacto
deletério sobre os interesses do Brasil.
Isso serve — acima de
tudo — para as denúncias que apresentou a partir de então. Ou haverá
outra forma de se encarar, por exemplo, a que lançou contra os petistas —
e por que só agora? — senão como um favor a Lula, Dilma etc.?
Esse
é o lugar ao qual seu — sou generoso — projeto de poder levou a PGR. A
novidade é que, antes do que se imaginava, ele também encontrou seu
lugar, sua nota de rodapé, na história — a forma como o maior inimigo da
Lava-Jato será lembrado ainda em 2017: Janot do Joesley.
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