Pressão familiar e patrimônio influenciaram depoimento de Palocci, avaliam petistas
Integrantes do partido apostavam que delação de ex-ministro de Lula e Dilma seria blefe
Sérgio Roxo - O Globo
Quinze anos após derrubar a resistência do mercado financeiro a Lula com a “Carta ao Povo Brasileiro”, o ex-ministro Antonio Palocci quebrou
a lei do silêncio que os militantes históricos do PT se impõem e
disparou, na última quarta-feira, o mais duro ataque ao ex-presidente na
Lava-Jato. Na avaliação de petistas, dois fatores
foram fundamentais para que o médico sanitarista de 56 anos, preso desde
setembro do ano passado, resolvesse abrir fogo contra o partido: a
pressão da família e o vultuoso patrimônio acumulado na última década.
Ao
longo de quase 40 anos na política, Palocci cumpriu as três etapas da
militância partidária: lutou contra a ditadura no movimento estudantil,
foi duas vezes prefeito de Ribeirão Preto (SP), uma das principais
cidades administradas pelo PT no período pré-Planalto, e ocupou
postos-chave nos governos Lula e Dilma. Considerado um estrategista
brilhante, com capacidade única de ler a conjuntura política, o
ex-ministro não poupou os colegas de legenda para buscar o objetivo que
vem perseguindo nos últimos cinco meses: fechar um acordo de delação
premiada e sair da cadeia.
Em abril, quando contratou um advogado especialista em
colaboração com a Justiça, um dirigente do PT apostava que o movimento
era apenas um blefe de Palocci para fazer com que instituições
financeiras, que poderiam temer uma delação sua, pressionassem o Supremo
Tribunal Federal (STF) a lhe conceder um habeas corpus. Ao verem que
não era uma artimanha, petistas foram contaminados por perplexidade e
medo.
A pressão familiar que levou Palocci a buscar esse caminho
tem origem em um episódio ocorrido em 2006, quando ele foi acusado de
frequentar uma casa usada por lobistas no Lago Sul, em Brasília. A
mulher do então ministro da Fazenda, Margareth, se irritou com a
exposição do caso, principalmente devido a relatos de que o local
abrigava festas com garotas de programa. Esse histórico levou Palocci a
se ver obrigado a ceder aos apelos da mulher por uma delação. A situação
familiar se agravou no meio do ano, após o Ministério Público Federal
passar a investigar suspeita de lavagem de dinheiro na compra de dois
imóveis adquiridos com dinheiro doado pelo ex-ministro, por sua filha e
sua enteada.
O DINHEIRO DA CONSULTORIA
Ex-companheira
de Palocci na organização estudantil trotskista Liberdade e Luta
(Libelu), Margareth trabalhou como assessora da presidência da Fundação
Nacional de Saúde no primeiro governo do PT. Depois do escândalo, saiu
da política e chegou a ser sócia na Projeto, empresa de consultoria que
permitiu a Palocci mudar o seu padrão de vida.
Para ser delator, tem que ter dinheiro. Quem vai dar
emprego para uma pessoa em que não pode confiar? Palocci não precisa
mais trabalhar — diz um dirigente petista, que conhece o ex-ministro
desde o movimento estudantil.
Segundo relatório da Receita Federal obtido pela Lava-Jato, o
ex-ministro recebeu R$ 11,7 milhões da Projeto entre 2005 e 2015. Além
disso, o apartamento de 500 metros quadrados, quatro suítes e cinco
vagas de garagem em que ele mora nos Jardins, em São Paulo, está em nome
da empresa.
Foi a revelação da compra desse imóvel por R$ 6,6 milhões
que levou Palocci à sua segunda queda, já no mandato de Dilma Rousseff.
Em 2006, na última eleição que disputou, ele havia declarado patrimônio
de R$ 295 mil, muito menor do que o preço do apartamento. Dilma demitiu
seu ministro da Casa Civil menos de seis meses após sua posse.
Muitos petistas avaliam que o destino da própria Dilma
poderia ter sido outro se Palocci não tivesse saído. Segundo
ex-ministros, ele era o único que sabia lidar com o temperamento
explosivo da chefe e conseguia apresentar suas opiniões.
LULA FOI ÚNICO VÍCULO MANTIDO
Antonio
Palocci se afastou da política após deixar o governo Dilma, em 2011. O
único vínculo que não conseguiu cortar foi com Lula. A convite do
ex-presidente, era presença constante em reuniões em seu instituto.
Discreto, entrava de carro pela garagem, driblando jornalistas.
A relação de amizade fez com que Lula desacreditasse
inicialmente que Palocci tinha intenção de delatar, mesmo quando o
ex-ministro deu sinais de que havia se cansado da vida na cadeia.
“Palocci é meu amigo, uma das maiores inteligências políticas do país.
Ele tá trancafiado, mas não tenho nenhuma preocupação com delação dele”,
postou Lula, em rede social, no dia 26 de abril. O depoimento de
quarta-feira mostrou que ele estava errado.
Lula já havia sido acusado por pessoas de seu círculo de
amizades, como o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, mas ninguém tão
próximo quanto o ex-ministro.
— O Palocci estava em um outro patamar na relação com o Lula — conta um petista.
Essa relação se estreitou a partir de 2002, quando Palocci
assumiu a coordenação do programa de governo da campanha presidencial no
lugar de Celso Daniel, assassinado em janeiro daquele ano. Palocci
ganhou destaque ao sugerir e comandar a redação da “Carta ao Povo
Brasileiro”, transformou-se num grande interlocutor do empresariado
nacional e se credenciou para ser nomeado ministro da Fazenda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário