Prisão da irmã foi gota d'água para Funaro decidir delatar
Doleiro se preparava emocionalmente para suportar ao menos três anos encarcerado
Chico Otavio - O Globo
Lúcio Funaro se via disposto a um longo período de
encarceramento. Quem o conhece bem — se há alguém que possa dizer isso —
garante que o operador financeiro se preparava, emocionalmente, para
suportar pelo menos uns três anos em regime fechado e mais alguma coisa
em semi-aberto até progredir, com sorte, para a prisão domiciliar. A
prisão da irmã, Roberta, em maio, na “Operação Patmos”, abalou-lhe a
convicção e finalmente soltou a sua língua.
A delação de Funaro rompe, de vez, uma das mais longevas parcerias
firmadas para sangrar os cofres públicos. O operador que irritava-se ao
ser chamado de doleiro conheceu Eduardo Cunha no início dos anos 2000,
quando chegou ao Rio para prospectar negócios na área de câmbio. Foi um
encontro de interesses. Só Funaro foi capaz de montar a engenharia
financeira destinada a drenar, sem levantar suspeita, os recursos da
Prece, o fundo de pensão dos funcionários da Cedae, entregue a Cunha
pelo então aliado Anthony Garotinho.
A sociedade secreta iniciada na Cedae era o ponto central da
estratégia de poder de Cunha. Ele conheceu o novo parceiro quando
deixava a condição de terceiro suplente na Assembleia Legislativa para
eleger-se deputado federal em 2002. Atravessaram juntos o governo
Rosinha até que o rompimento de Cunha com Garotinho e, posteriormente,
com Sergio Cabral, em 2006, levou o deputado federal, já no PMDB, a
desistir da política local.
A essa altura, já no segundo mandato federal, Cunhasonhava com um
lugar no cenário político nacional. Entendeu como poucos a regra do jogo
no Congresso. Estudou com avidez o regimento interno. Prospectou
negócios. Mas sofreu um sobressalto que quase barrou-lhe a ascensão, em
2005, quando a CPI dos Correios acuou Funaro, acusando-o pelas operações
na Prece.
Mas o operador não o decepcionou na época. Funaro entregou à CPI uma
delação premiada que, em momento algum, citou Cunha, o principal
responsável pelo golpe na previdência dos servidores da Cedae. A
investigação não avançou, pelos motivos que só agora tornaram-se claros,
e os dois puderam seguir com a escalada de negócios com dinheiro
público e interesses privados que abriu caminho para Cunha chegar ao
topo: da bancada evangélica, progrediu para liderar o baixo clero. Em
seguida, seduziu os caciques do PMDB.
Cunha contava com o silêncio do parceiro. Porém, por conhecer Funaro
há quase duas décadas, percebeu que a prisão da irmã do operador
destruiria este pacto. Tentou então disputar com o próprio parceiro o
interesse das autoridades pela delação mais implacável. Pelo visto,
perdeu a corrida. Muitos nomes aparecem nos anexos de Funaro, mas é sem
dúvida Eduardo Cunha o personagem mais pronto e acabado das revelações
do ex-parceiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário