quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Prisão da irmã foi gota d'água para Funaro decidir delatar
Doleiro se preparava emocionalmente para suportar ao menos três anos encarcerado


A delação de Funaro rompe, de vez, uma das mais longevas parcerias firmadas para sangrar os cofres públicos. O operador que irritava-se ao ser chamado de doleiro conheceu Eduardo Cunha no início dos anos 2000, quando chegou ao Rio para prospectar negócios na área de câmbio. Foi um encontro de interesses. Só Funaro foi capaz de montar a engenharia financeira destinada a drenar, sem levantar suspeita, os recursos da Prece, o fundo de pensão dos funcionários da Cedae, entregue a Cunha pelo então aliado Anthony Garotinho.
A sociedade secreta iniciada na Cedae era o ponto central da estratégia de poder de Cunha. Ele conheceu o novo parceiro quando deixava a condição de terceiro suplente na Assembleia Legislativa para eleger-se deputado federal em 2002. Atravessaram juntos o governo Rosinha até que o rompimento de Cunha com Garotinho e, posteriormente, com Sergio Cabral, em 2006, levou o deputado federal, já no PMDB, a desistir da política local.
A essa altura, já no segundo mandato federal, Cunhasonhava com um lugar no cenário político nacional. Entendeu como poucos a regra do jogo no Congresso. Estudou com avidez o regimento interno. Prospectou negócios. Mas sofreu um sobressalto que quase barrou-lhe a ascensão, em 2005, quando a CPI dos Correios acuou Funaro, acusando-o pelas operações na Prece.
Mas o operador não o decepcionou na época. Funaro entregou à CPI uma delação premiada que, em momento algum, citou Cunha, o principal responsável pelo golpe na previdência dos servidores da Cedae. A investigação não avançou, pelos motivos que só agora tornaram-se claros, e os dois puderam seguir com a escalada de negócios com dinheiro público e interesses privados que abriu caminho para Cunha chegar ao topo: da bancada evangélica, progrediu para liderar o baixo clero. Em seguida, seduziu os caciques do PMDB.
Cunha contava com o silêncio do parceiro. Porém, por conhecer Funaro há quase duas décadas, percebeu que a prisão da irmã do operador destruiria este pacto. Tentou então disputar com o próprio parceiro o interesse das autoridades pela delação mais implacável. Pelo visto, perdeu a corrida. Muitos nomes aparecem nos anexos de Funaro, mas é sem dúvida Eduardo Cunha o personagem mais pronto e acabado das revelações do ex-parceiro.

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