Ao enxergar como “golpe” possível impeachment do presidente do Paraguai, e silenciar contra os golpes à democracia efetivamente aplicados pelo ditador da Venezuela, o governo brasileiro usa dois pesos e duas medidas
Ricardo Setti - VEJA
Amigos, vou dizendo logo de cara: não simpatizo com as ideias políticas do presidente do Paraguai, o ex-bispo católico Fernando Lugo.
Mas estou achando muito esquisito esse processo de impeachment de um presidente eleito em eleições livres, promovido pela Câmara dos Deputados e que terá seu desfecho amanhã, sexta, no Senado.
Houve um massacre de sem-terras e uma matança de policiais, horrível, por certo.
Agora, impeachment, por “mau desempenho de suas funções”? O presidente já aceitou até uma comissão da Organização dos Estados Americanos (OEA) para apurar responsabilidades.
É óbvio que por baixo disso há uma luta política que nada tem a ver com as vidas perdidas.
Daí, porém, a um governo tachar como “golpe” como ocorre no Paraguai — como o caso vem sendo tratado, internamente, pelo governo brasileiro — vai uma distância muito longa.
Pergunto: se Lugo não tivesse lá suas cores de “bolivariano”, seus pés não fossem fincados na esquerda e não fosse ele visto como “progressista” e amigo do lulo-petismo, o Itamaraty esboçaria posição tão dura?
Pergunto de outra forma: por que o Itamaraty, ou setores do governo brasileiro, nunca trataram como “golpe” os diversos golpes efetivamente praticados contra a democracia pelo ditador da Venezuela, Hugo Chávez, amigão do lulalato?
Ou seja, agir contra um presidente “bolivariano”, como faz o Congresso paraguaio, ainda que dentro da Constituição do Paraguai, seria “golpe”.
Já um presidente “bolivariano” agir contra as instituições e a democracia, como Chávez faz a três por dois na Venezuela – podando os poderes de governadores da oposição, interferindo em decisões judiciais, prendendo arbitrariamente dissidentes do regime, estatizando emissoras que não rezam por sua cartilha — não tem nada demais?
Basta lembrar um só fato: a mexida vergonhosa na lei eleitoral que permitiu que o chavismo, mesmo obtendo menos votos do que a oposição, ganhasse folgadamente as eleições parlamentares de setembro de 2010, elegendo 98 deputados de um total de 165.
Dois pesos, duas medidas.
Sem contar que, levando-se em conta a hostilidade contra o “gigante brasileiro” existente em setores consideráveis do Paraguai, o Brasil meter o bedelho no assunto pode até apressar o defenestramento do presidente Lugo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário