quarta-feira, 20 de junho de 2012

DINHEIRO. ESSE É O MOTIVO DA BRIGA ENTRE OS PAÍSES DA UNIÃO (?) EUROPEIA

Motivos de crítica e atrito entre membros da União Europeia aumentam com resgates financeiros
Andrea Rizzi - El Pais
Estudos indicam crescente desconfiança entre os países e as instituições comunitárias da União Europeia. Os analistas alertam que esses sentimentos impedirão a descoberta de soluções para a crise
A célebre libra de carne que o agiota Shylock em "O Mercador de Veneza", de Shakespeare, exigiu como indenização pelo não pagamento de uma dívida oferece muitos motivos de reflexão nestes agitados dias europeus. A carne em questão era do corpo do devedor. Séculos de preconceitos, antissemitismo e desconfiança entre os povos se cristalizam na terrível história desse empréstimo, um relato que 400 anos depois continua deixando a porta aberta para muitas interpretações. Todos os protagonistas - credores e devedores - tinham alguma razão legítima para reclamar e incubar rancor.
Hoje, novas dívidas parecem soprar as brasas de antigos receios entre europeus. Muitos gregos, portugueses e irlandeses - logo acompanhados por espanhóis, italianos e cipriotas - têm a sensação de que suas dívidas acabarão lhes custando quase o sangue, devido às condições impostas pelos credores. Ao mesmo tempo, muitos europeus do norte sentem uma profunda rejeição moral diante da ideia de ter de salvar com seus bolsos os excessos daqueles que viveram irresponsavelmente acima de suas possibilidades.
Como quase sempre na vida, a verdade provavelmente se encontra em algum lugar intermediário e cheio de matizes. Mas, esteja onde estiver a verdade, o risco de um possível ressurgimento da desconfiança, do receio e até do rancor entre povos europeus adquire cada vez maior consistência.
Essa é uma praga que não pode ser medida com a precisão da taxa de risco ou das dívidas pendentes; não tem a dramática visibilidade do desemprego e da pobreza que avançam; mas é um perigo que a cada mês de crise – e, sobretudo, cada resgate, com seu rastro de tensões e condições - se torna mais agudo. A história europeia reclama a gritos que a levem em conta e que se administrem amplas doses de anticorpos contra os populismos que provavelmente virão.
A relação greco-alemã é um sinal de alerta do que pode acontecer. Títulos em jornais, pesquisas de opinião e, infelizmente, as declarações de alguns políticos evidenciam a força de sentimentos pouco lisonjeiros entre os dois países. Por um lado, aumenta a desconfiança de muitos alemães por um país que se endividou até o pescoço e falsificou suas contas; por outro, amplia-se o receio de muitos gregos contra o país considerado o fornecedor da receita de austeridade quase letal que os helênicos estão engolindo.
Um recente estudo do Centro de Pesquisa Pew (centro de pesquisa social independente dos EUA) indica que somente 21% dos gregos têm uma opinião favorável da Alemanha; e somente 27% dos alemães a têm da Grécia.
A boa notícia é que esse é o caso mais extremo de mal-estar recíproco entre opiniões públicas europeias; a má é que, segundo o mesmo estudo, outras relações estão sofrendo uma marcada deterioração. E na medida em que são necessários mais resgates financeiros os motivos de crítica e atrito entre nações aumentam.
À primeira vista, os resgates poderiam ser interpretados como gestos solidários e, portanto, unificadores. Os ricos emprestam dinheiro aos endividados a uma taxa de juros mais aceitável que as do mercado, para que estes não entrem em bancarrota. Mas as condições que os resgates inevitavelmente carregam tendem a pôr na sombra seus aspectos positivos, e a transformar os empréstimos em um "casus belli".
Segundo o estudo do Pew, a Alemanha mantém os níveis de apreciação mais altos entre as cidadanias europeias. No entanto, no último ano - coincidindo com o aguçamento da crise e seu papel de sargento de ferro -, a porcentagem dos que a veem com olhos favoráveis caiu significativamente em alguns países chaves: de 85% para 75% na Espanha; de 90% para 84% na França; de 75% (em 2007) para 67% na Itália. Uma pesquisa da Metroscopia indica que 74% dos espanhóis acreditam que a atitude do governo de Berlim em relação à Espanha não é adequada.
A França de Sarkozy também perdeu crédito entre os italianos (de 73% para 53%) e os espanhóis (de 77% para 68%). Ao contrário, e não é surpreendente dada a sintonia de Sarkozy com o governo de Berlim, o apreço pelos alemães subiu de 74% para 80%.
Em relação à opinião sobre os países devedores, os dados mostram a queda generalizada da confiança na Grécia, e uma clara queda do apreço pela Itália (embora, deva-se notar, não por parte dos alemães). Para a Espanha, o Pew só possui dados deste ano; apesar da crise, são bastante bons, mas não podem ser comparados.
Esse retrato das relações bilaterais é acompanhado de uma contundente e generalizada queda da confiança dos cidadãos europeus na UE, como atestam vários estudos, entre eles os relatórios do Eurobarômetro. Em 2007, 52% dos europeus tinham uma visão favorável da UE. Hoje, só 31%. E a opinião negativa subiu de 15% para 26% nos últimos dois anos. Além disso, em muitos países cresce notadamente a porcentagem de pessoas que creem que pertencer à União não é algo positivo.
Deve-se temer a tendência que esses dados ilustram? Que consequências podem ter na construção europeia?
Bruce Stokes, diretor do departamento Global Economic Attitudes do Pew, acredita que há motivos para se preocupar. "Há razões para isso", diz em uma conversa telefônica. "Os dados mostram que na Europa se enfraquece a convicção de que a integração econômica é vantajosa e se deteriora o apreço entre certos países. Essa situação pode gerar vários problemas. Se em uma sociedade se amplia uma visão crítica de um país em dificuldades, por exemplo, será mais complicado para seus líderes convencer os cidadãos de que é justo ajudar o país em apuros."
Os dados do Pew mostram que, apesar da deterioração, o grau de apreço entre europeus ainda se mantém em bons níveis. "Mas é importante não descuidar do que indica a tendência", diz Stokes. Os dados gregos mostram que não é preciso muito tempo para que surja a raiva. "De fato, quando apresentei o estudo em Bruxelas, alguns funcionários da Comissão me disseram: 'Já não temos muito tempo'."
Frear o fenômeno não é fácil. "Neste assunto", prossegue Stokes, "não sabemos exatamente se certos pontos de vista ganham espaço nas opiniões públicas porque os políticos os incentivam, ou se estes últimos cavalgam os sentimentos que percebem na sociedade; em todo caso, é uma espiral que se retroalimenta e que pode ser difícil de cortar."
László Bruszt, diretor do Departamento de Ciências Políticas e Sociais do Instituto Universitário Europeu, concorda que esses sentimentos estão percorrendo as entranhas da Europa. "Mas o que me preocupa não é a opinião pública, e sim os fatores que geram essas opiniões", comenta o sociólogo, de Florença. "Para resumir, creio que se alimentam de um sistema, como o europeu, em que há um claro déficit de representação. Não há representação política em escala europeia. Nessa situação é perfeitamente racional que se alimentem sentimentos nacionalistas."
"Se os EUA não fossem uma entidade federal", prossegue o professor, "os californianos também estariam incomodados por ter de resgatar Nevada. Mas é um país com uma representação política democrática e unitária. Os políticos da nação podem atuar pelo bem da federação. Em troca, na atual estrutura europeia, os políticos não têm incentivos para representar e defender os interesses do coletivo europeu. Os que os elegem são eleitorados nacionais. A opinião pública é o reflexo desse sistema. E os políticos populistas são um sintoma extremo desse mesmo problema."
Montserrat Guibernau, professora do Departamento de Política da Universidade de Londres, considera que a tendência é "preocupante". "O que ocorre", argumenta do Reino Unido, "é que a UE ofereceu prosperidade, desenvolvimento democrático, promoção dos direitos humanos e do estado do bem-estar... mas tudo isso não construiu uma identidade europeia, um sentimento de pertencer a uma mesma unidade política. O que trouxe é, sobretudo, uma perspectiva de prosperidade econômica. No momento em que o principal atrativo do projeto falha, surgem problemas de desconfiança. E quando as coisas vão mal a tendência é buscar algum culpado. De preferência fora, no exterior. Essa mudança de atitude é importante. Estamos voltando à construção de estereótipos", comenta a acadêmica, especializada no estudo das identidades nacionais.
Guibernau acredita que política e sociedade avançam juntos nesse caminho. "Política e sociedade compartilham, na Europa, um quadro ético que se enfraqueceu. A deterioração de certos valores faz que a demagogia não seja censurada. Além disso, o populismo não é mais exclusivo de partidos extremistas, senão que cala cada vez mais no discurso dos grandes partidos de massas moderados. Esse é um problema sério. Com essa base, é difícil avançar na integração", alerta a professora.






Uma avassaladora maioria de analistas e políticos concorda que a solução para a crise que abala boa parte do continente está exatamente em uma maior integração entre os países. A Europa atravessa um momento crítico. Como um homem no meio de um rio, não pode ficar onde está: ou consegue avançar decididamente até a outra margem - maior nível de integração -, ou retrocederá inexoravelmente para onde vinha, a margem do passado. Uma margem, seria bom não esquecer, cheia de conflitos.
Uma inteligente manobra legal evitou uma chacina no "Mercador de Veneza". Shylock não cobrou sua libra de carne. A Europa precisa hoje de muita inteligência por parte de seus líderes. Mas também é essencial que os sentimentos populares não obstruam o processo. Cada discurso populista, cada menção a um estereótipo, cada invectiva nacionalista contribui para acender os piores instintos. A lembrança das lições do passado talvez ajude a apagá-los.
O festim dos estereótipos
Eles existem desde a noite dos tempos e em épocas obscuras como esta voltam a brotar como flores na primavera. Os estereótipos são muito resistentes. O recente estudo do Centro Pew, "Unidade europeia nas rochas", dedica um capítulo a comprovar como anda a coisa. O resultado, obviamente, não é nenhuma surpresa.
Os europeus consideram que os mais trabalhadores do continente são os alemães; que os mais corruptos são os italianos; que os menos trabalhadores são os gregos; e os menos corruptos... os alemães, naturalmente.
Mas as estatísticas contam outra história. Segundo um estudo publicado em dezembro passado pelo Departamento Nacional de Estatísticas Britânico, a população que trabalha mais horas por semana é... a grega!
Segundo essa estatística, os gregos trabalham mais de 42 horas por semana, contra 35 dos alemães. A produtividade alemã é superior, mas também não são os primeiros nesse capítulo, senão somente os sextos.
É claro que esses dados devem ser submetidos a muitas matizações. Pode-se observar que o departamento de estatísticas grego talvez não seja tão confiável quanto o alemão (outro estereótipo?). Ou, objetivamente, que a maciça destruição do emprego nos últimos anos force aqueles gregos que mantêm seu emprego a trabalhar tanto. Mesmo assim, há material para pôr em discussão certezas sem fundamentos.
E, para desmentir outro mito, os dados do número de horas trabalhadas mostram que vários países católicos superam outros protestantes, por mais celebrada que seja sua tradicional ética do trabalho.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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