terça-feira, 19 de junho de 2012

ESPANHA: CRÔNICA DA MORTE ANUNCIADA?

Espanha sente o duro peso da realidade
Sandrine Morel - Le Monde
Apesar do anúncio da liberação de um plano de ajuda europeu que oferece até 100 bilhões de euros para recapitalizar seus bancos, a Espanha tem visto seu acesso aos mercados se tornar mais difícil a cada dia.
A taxa de retorno das obrigações espanholas a dez anos bateu mais um recorde, na última semana, atingindo 7%. Um nível que "não é sustentável a longo prazo", admitiu o ministro da Economia, Luís de Guindos. E que se aproxima dos índices que levaram a Irlanda e Portugal (8,1%), bem como a Grécia (8,5%), a pedirem por um plano de ajuda europeu. O ministro, no entanto, quis passar uma mensagem de "tranquilidade", insistindo no "apoio de seus parceiros europeus". "É uma semana complicada antes das eleições gregas", ele disse.
A pressão dos mercados certamente está ocorrendo em um momento crucial da crise do euro, principalmente após vários anúncios nefastos para a Espanha.
A agência de classificação de risco Moody’s rebaixou a nota do país em três níveis, e o colocou a um nível da categoria especulativa. O aumento brusco da dívida espanhola, que levará à injeção de 100 bilhões de euros de empréstimo europeu para os bancos – ela deverá então disparar para 90% do PIB - , mas também a recessão, a dívida privada excessiva e o desemprego recorde preocupam os mercados.
Já o Banco da Espanha publicou o montante dos empréstimos do Banco Central Europeu (BCE) aos bancos espanhóis: eles bateram mais um recorde em maio, chegando a 288 bilhões de euros, ou seja, 9,2% a mais que em abril. O aumento contínuo dessa dívida desde julho, sinal de hiperdependência das entidades financeiras do país em relação ao BCE, é a prova de que eles não têm mais acesso ao mercado interbancário para se financiar, por falta de confiança em sua capacidade de solvência.
Por fim, a agência Reuters apresentou a conclusão das duas consultorias de auditoria independentes, Roland Berger e Oliver Wyman, encarregadas de analisar as necessidades do setor financeiro espanhol: elas chegariam a 60 ou 70 bilhões de euros, sendo que o Fundo Monetário Internacional (FMI) as havia estimado em 40 bilhões de euros.
Nesse contexto, as declarações do comissário europeu para a Concorrência, Joaquín Almunia, só jogaram lenha na fogueira. O socialista espanhol declarou à Reuters que um dos três bancos nacionalizados – Novagalicia, Catalunya Caixa e Banco de Valencia – "está se encaminhando para uma liquidação para que não seja uma preocupação constante após sua reestruturação". Declarações que foram prontamente desmentidas por Guindos e criticadas pelo Partido Popular (PP), que pediu pela demissão do comissário europeu por sua "deslealdade".
O governo espanhol de fato tem encontrado dificuldades para passar a mensagem de "normalidade" que ele pretende, e que hoje soa mais como uma negação da situação extrema na qual o país se encontra. Seu presidente, Mariano Rajoy, manteve sua viagem para a Polônia para assistir à primeira partida da equipe de futebol da Espanha na Eurocopa, após o anúncio da ajuda europeia.
Ele também atribuiu a si mesmo o "mérito" de ter exercido uma pressão sobre seus parceiros europeus para liberar um plano de ajuda que seria favorável a Madri. E ele ainda se recusa a utilizar o termo "resgate" para se referir ao plano de ajuda europeu. "Empréstimo", "ajuda", ou mesmo "o que aconteceu ontem" foram as expressões usadas por Rajoy nos últimos dias. Esse detalhe semântico tem provocado inúmeras comparações, na imprensa, com a recusa do ex-presidente do governo socialista, José Luís Rodriguez Zapatero, de empregar em 2008 a palavra "crise" para classificar a deterioração da economia espanhola.
Na época, o PP lamentava que essa negação de realidade tivesse resultado em decisões mais tardias para conter a crise. Hoje, o poder executivo conservador parece repetir os mesmos erros.
Essa é provavelmente uma maneira de afastar o fantasma de uma perda de soberania para a Europa, mas também de minimizar uma situação decorrente da queda do Bankia, a grande caixa econômica do PP, que, ao pedir 19 bilhões de euros de ajuda ao governo no dia 9 de maio, desencadeou pânico dos mercados e a ajuda europeia.
Tradutor: Lana Lim

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