Espanha ganha tratamento privilegiado da União Europeia
Alain Salles - Le Monde
Luis de Guindos, ministro das finanças da Espanha, anuncia durante coletiva de imprensa em que vai oficializar o pedido de ajuda às entidades financeiras europeias para capitalizar os bancos espanhóis
A Espanha receberá até 100 bilhões de euros da União monetária para recapitalizar seus bancos. Em contrapartida, seus parceiros lhe pedem que ela saneie seu setor bancário prejudicado pelo estouro da bolha imobiliária. Representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e da Autoridade Bancária Europeia (EBA) serão enviados a Madri para fazer uma avaliação da situação e supervisionar a reestruturação do setor financeiro e de suas práticas.
Diferentemente da Grécia, da Irlanda e de Portugal, os três outros países sob assistência, Madri não foi colocada sob tutela de seus financiadores. As contrapartidas que lhe foram pedidas deverão se limitar ao setor bancário, enquanto Atenas, Dublin e Lisboa precisaram aceitar planos de austeridade e reformas bem mais amplas.
Na Grécia, uma janela está se abrindo. A uma semana das eleições legislativas gregas do dia 17 de junho, o acordo fechado com Madri é visto como uma "janela espanhola para a renegociação", segundo o jornal próximo do Nova Democracia (ND, direita), "Eleftheros Typos".
Todos os partidos estão correndo para essa janela, esperando por uma mudança da Europa e uma reorientação da posição dos alemães, que permitiria afrouxar o cinto da austeridade. "Os desdobramentos na Espanha confirmam a posição que defendemos desde o início", indicou Alexis Tsipras, líder da coalizão da esquerda radical (Syriza) em uma entrevista ao jornal "Avgi". "Ou seja: a crise é um problema europeu e a maneira como ele foi tratado até o momento foi completamente ineficaz e desastrosa no plano social". O Syriza pede pela anulação do Memorandum, o texto assinado com a União Europeia e o Fundo Monetário que lista as contrapartidas pedidas a Atenas em troca da ajuda de 240 bilhões de euros concedida pela "troika" de seus financiadores (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI).
Para o presidente da Nova Democracia, Antonis Samaras, o exemplo espanhol mostra que há uma possibilidade de renegociar o plano em vez de "romper tudo e isolar a Grécia da Europa". O Syriza e o Nova Democracia estão ombro a ombro na disputa pelo primeiro lugar, no próximo domingo (17).
Evangelos Venizelos, o presidente do Partido Socialista grego (Pasok), que vem perdendo fôlego, também defende uma renegociação substancial do Memorandum. "O exemplo espanhol dá outra dimensão à crise que é de toda a Europa. Ela não é grega, não é portuguesa, não é irlandesa", explicou o ex-ministro das Finanças.
Na Irlanda, a oposição reclama. Os irlandeses ficaram furiosos após o anúncio do plano de resgate dos bancos espanhóis. A oposição, em especial, acredita que Madri obteve condições de ajuda muito mais favoráveis que Dublin. As crises dos dois países são muito parecidas, no entanto: em ambos os casos houve o estouro da bolha imobiliária, que levou à queda dos bancos e forçou o Estado a ajudá-los.
"A Espanha vai pagar menos por seus empréstimos do que o governo irlandês. A estratégia de redução da dívida e do déficit continuará sendo determinada por seu próprio governo. A troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) não inspecionará o país", se revolta Pearse Doherty, do Sinn Fein, o partido mais antiausteridade da Irlanda. "Muitos irlandeses vão se perguntar por que há certas condições para nós e outras para a Espanha", diz Doherty.
Já o governo irlandês decidiu aplaudir o acordo espanhol. Isso porque Dublin precisa de estabilidade na zona do euro para esperar voltar aos mercados de obrigações no início de 2014, como prevê seu plano de resgate. Ademais, a ajuda aos bancos espanhóis, mesmo que não venha acompanhada de um plano de rigor, será contabilizada em sua dívida pública. Madri esperava escapar disso, mas Berlim recusou. Do ponto de vista contábil, a conta do plano de salvamento virá da mesma forma que na Irlanda.
Não há certeza de que esses argumentos convencerão os irlandeses de que eles não são as vítimas de um sistema que trata de forma diferente os "pequenos" e os "grandes" países europeus.
O dilema português
O primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, não quer prejudicar sua imagem de bom exemplo entre os países colocados sob tutela europeia. Aquele que tem proclamado continuamente, desde que foi eleito em 2011, que não ia pedir "nem mais tempo nem mais dinheiro" à Europa, e que segue sem falta o caminho traçado pela troika para restaurar suas contas públicas, tomou o cuidado de cortar logo de início a polêmica suscitada pelo plano de ajuda que poderia beneficiar a Espanha.
Enquanto a oposição socialista insiste para que seja renegociado o plano de salvamento de 78 bilhões de euros concedido a Portugal em maio de 2011 em troca de um amplo plano de austeridade, ele declarou que não havia "nenhuma razão para pedir por novas condições". Ele se mostrou tranquilo ao afirmar ter "certeza" de que se a Espanha recebesse condições vantajosas, elas seriam "estendidas ao resto dos países sob assistência".
Essas declarações respondem às críticas do secretário-geral do Partido Socialista português (PS), Antonio José Seguro, que insistiu na necessidade de que a "União Europeia trate todos os Estados-membros da mesma maneira. Não pode haver Estados de primeira e de segunda categoria".
Para o líder socialista, que repete que o país "não aguenta mais", sufocado pelo rigor, o plano de ajuda espanhol representa, sobretudo, uma chance: "O reconhecimento de parte da União Europeia de que a austeridade não é o caminho a ser seguido".
O plano de salvamento de Portugal veio acompanhado de severos cortes orçamentários. O consumo se encontra em queda livre, a recessão continua e o produto interno bruto (PIB) deverá recuar ainda 3% em 2012, com um desemprego que poderá ter o índice recorde de 16%. Resultado: os partidos antitroika vão conquistando terreno nas pesquisas. Um tratamento privilegiado espanhol só os fortaleceria.
Tradutor: Lana Lim
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