No G20, europeus dizem não quer "lição de moral"
David Revault D’allones - Le Monde
Líderes posam para foto oficial da cúpula do G20, grupo que reúne as vinte principais economias do mundo, realizada em Los Cabos, no México
À primeira vista, tudo é luxo, calma e volúpia na estação balneária mexicana de Los Cabos, que desde a última segunda-feira (18) recebe a sétima cúpula do G20.
Olhando mais de perto, percebe-se que esse sofisticado resort situado na extremidade do Estado de Baja California se encontra sob vigilância, como mostram o balé de helicópteros do Exército e os soldados de uniforme camuflado que patrulham as praias de areia branca.
Seria uma metáfora da tensão que tem reinado em torno desse fórum das grandes potências e dos países emergentes, que deveria supostamente restabelecer um mínimo de confiança na economia mundial?
Mais do que nunca, os dirigentes da zona do euro, intimados a finalmente encontrarem uma saída perene para a crise da dívida, estão na berlinda. Um ministro francês presente no México admitiu: "Em outras circunstâncias, falava-se em dificuldades americanas. Nesse caso, muitos consideram que o problema é a zona do euro".
Algumas horas antes da abertura da cúpula, José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, e Herman Van Rompuy, presidente da União Europeia, se empenhavam em preparar o terreno. "Não somos responsáveis por todos os problemas econômicos do mundo", contra-atacava Van Rompuy, apoiado por Barroso, que lembrava que "essa crise vem da América do Norte". Os dois, colocados em posição de culpados, decidiram responder de maneira ofensiva: "Não viemos ao G20 para receber lições de democracia", criticou Barroso.
Nesse contexto, as declarações desse negociador francês sobre as relações franco-alemãs antes da cúpula de Bruxelas, nos dias 28 e 29 de junho, pareciam otimistas: "Não digo que tudo seja simples, mas não há tensão", garantia esse conselheiro do chefe do Estado, que falava em "verdadeiras convergências e um verdadeiro consenso europeu".
Parecia o melhor dos mundos possíveis, mas essa apresentação só resistiu moderadamente à prova dos fatos e das declarações, particularmente as de David Cameron, que preconizou que "o cerne da zona do euro, inclusive o Banco Central Europeu, deve fazer mais para sustentar a demanda e dividir o fardo dos ajustes".
Paralelamente ao G20, o primeiro-ministro britânico ainda se permitiu zombar da tributação de 75% sobre rendas superiores a 1 milhão de euros, proposta pelo presidente François Hollande, chegando a ponto de sugerir que "estenderia um tapete vermelho" para as empresas francesas que desejassem fugir para lá. "Não sei como fazer para estender um tapete vermelho através" do Canal da Mancha, "ele pode se molhar", riu o ministro francês do Trabalho, Michel Sapin, que acabara de encontrar os parceiros sociais no G20.
Portanto, muito logicamente a zona do euro e suas dissensões constituíram o cerne dos trabalhos do G20. Muitos participantes enfatizaram a questão, mas de maneira menos agressiva que o esperado, com os países emergentes anunciando suas próprias dificuldades como a China, ou dando suas receitas para sair delas, como a Colômbia.
A chanceler Angela Merkel afirmou que a Alemanha estava ciente de suas responsabilidades e da "necessidade da integração e da união bancária". O presidente Barack Obama deu muitos conselhos tanto aos europeus quanto aos emergentes, mas sem detalhar a maneira como os Estados Unidos fariam para reduzir sua dívida, que o presidente russo, Vladimir Putin, disse considerar tão ameaçadora quanto a dívida europeia. O primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, foi o que mais "lições" deu à zona do euro.
Em seu discurso, Hollande ressaltou quatro necessidades: coordenar as políticas econômicas; "reduzir os déficits orçamentários, mas a um ritmo razoável, sem o qual teríamos o efeito inverso", ao mesmo tempo em que se estimula o crescimento; preservar a estabilidade dos preços das matérias-primas e das movimentações de capitais; e, por fim, instaurar uma regulamentação financeira complementada por defesas europeias e mundiais.
Desse ponto de vista, o G20 fez um novo gesto para tranquilizar os mercados: com a ajuda dos países emergentes, 37 membros do Fundo Monetário Internacional (FMI) prometeram um reforço de US$ 455,9 bilhões (R$ 921 bilhões) para a intervenção do Fundo em caso de crise. Eram esperados 430 bilhões.
Os que emprestarão os maiores valores são a zona do euro (197,9 bilhões), o Japão (60 bilhões), a China (43 bilhões), a Arábia Saudita, a Coreia do Sul e o Reino Unido (cada um com 15 bilhões). Esses fundos serão liberados quando os US$ 380 bilhões ainda em caixa tiverem se esgotado.
Tradutor: Lana Lim
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