O apoio ao casamento gay pode fazer com que Obama perca o voto dos negros?
Marc Hujer - Der Spiegel
Ao apoiar abertamente o casamento gay, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ofendeu muitos afro-americanos do país, que estão em grande número entre seus mais fiéis defensores. Vários líderes religiosos comunitários chegaram a pedir às suas congregações que retirassem o apoio que seria crucial para sua reeleição.
Em geral, são apenas 20 minutos de carro do lado sul de Chicago até o impressionante mundo financeiro da cidade, ou seja, da Igreja Trinity United até o centro. Mas, neste domingo, dia 21 de maio, com a reunião de cúpula da Otan no Centro McCormick na cidade, esses dois mundos estão a horas de distância. Os manifestantes fizeram o trânsito parar e barricadas da polícia bloqueiam muitas ruas. O presidente Barack Obama, que já esteve à vontade entre a grande igreja afro-americana da cidade, agora viaja com uma equipe de segurança.
Hoje, um conhecido do presidente está se dirigindo à congregação a qual Obama pertenceu. O reverendo Otis Moss 3º é pastor da Igreja Trinity United há quatro anos e conhecia Obama antes de ele se tornar presidente, quando sentava-se nesses bancos entre outros homens vestidos de preto e mulheres com chapéus coloridos e vestidos farfalhantes.
A missa dura três horas, a congregação ora unida e dança ao som de música gospel. O serviço deste domingo não é diferente daqueles do tempo em que Obama fazia parte dessa congregação --e era a grande esperança de muitos afro-americanos. Será que ainda é?
Por quatro anos, o reverendo Moss manteve silêncio quando perguntado sobre Obama, recusando-se a dar entrevistas e evitando debates controversos, sabendo que as mensagens nesses sermões só teriam causado mais problemas ao presidente. Para os eleitores brancos, parece muito radical quando os ministros afro-americanos lembram da culpa histórica dos brancos e do legado da escravidão. Mesmo o lema da igreja --“desavergonhadamente negra”-- pode facilmente deter brancos. Mas, neste domingo, quem está ameaçado não são mais os eleitores brancos. O perigo está nas congregações afro-americanas como a Trinity darem as costas ao presidente.
Traição
Obama, festejado como o “primeiro presidente negro”, agora foi chamado de “primeiro presidente gay” pela “Newsweek”. A capa da revista durante a reunião da Otan mostrou o presidente com um halo com as cores do arco-íris, símbolo do movimento dos direitos de gays, lésbicas e transgêneros. Os programas de televisão estão todos discutindo a atitude corajosa de Obama em falar em favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que até hoje só é legal em alguns Estados. O passo marca uma reinvenção da candidatura de Obama e trouxe nova vida à sua tentativa de reeleição. Mas, para muitos eleitores afro-americanos, a maioria dos quais são estritamente opostos ao casamento do mesmo sexo, a declaração de Obama pareceu uma traição.
Obama deve ter sabido do risco que estava correndo quando decidiu, há três semanas, assumir essa posição, rompendo com sua postura anterior de apoiar apenas uniões civis para casais do mesmo sexo. A homossexualidade continua um assunto tabu para comunidades afro-americanas, com 65% dos afro-americanos considerando o casamento do mesmo sexo errado, comparados com 48% dos brancos. Quando o Estado da Califórnia avaliou o casamento do mesmo sexo em 2008, cerca de 70% dos afro-americanos californianos foram a favor da proibição.
Quando Barack Obama assumiu a Casa Branca em janeiro de 2009, o mundo todo celebrou o primeiro presidente negro dos EUA. Mas a eleição de Obama teve maior significado para os afro-americanos. Um total de 96% dos eleitores negros apoiou Obama, muitos deles indo votar especificamente por entusiasmo com o candidato e muitos deles votando pela primeira vez.
Muitos continuam a apoiá-lo, apesar dos desapontamentos que seu mandato trouxe. O desemprego entre os afro-americanos permanece em 13%, consideravelmente maior do que a média nacional de 8%. Além disso, 11% dos afro-americanos perderam seus lares na crise financeira. Ainda assim, apenas agora Obama tem sérios motivos para temer a perda do apoio dos afro-americanos. E sem eles, o presidente não vai alcançar a reeleição em novembro.
Controle de danos
A declaração de Obama de apoio ao casamento de mesmo sexo fez as comunidades afro-americanas reagirem. Muitas vivem em uma cultura que valoriza figuras masculinas fortes e despreza o homossexualismo. “Aprendemos que a instituição da escravidão nos roubou nossa masculinidade e que temos que preservar o que restou”, escreveu o autor afro-americano Charles Stephens para o “Huffington Post” em março, após incidentes de violência contra gays dentro da comunidade.
E poucas coisas têm maior influência na sensibilidade afro-americana do que as igrejas, que servem de centros de vida comunitária. Entre os negros americanos, 22% frequentam a missa mais de uma vez por semana --o dobro dos americanos brancos. Muitos colocam sua fé naquilo que seus pastores dizem e no que está escrito na Bíblia, inclusive na declaração que o casamento só pode ser entre uma mulher e um homem.
Obama fez todo o possível para minimizar os danos que sua decisão causaria. Imediatamente após a declaração, ele ligou para oito pastores afro-americanos, inclusive Otis Moss Jr., pai de Otis Moss 3º e colega de Martin Luther King Jr. Ainda assim, Obama encontrou fortes críticas, até dos que o haviam apoiado anteriormente. O pastor Dwight McKissic, de Arlington, Texas, declarou: “Obama traiu a Bíblia”. O pastor William Owens, de Menphis, Tennessee, condenou o que ele descreveu como “o sequestro do movimento de direitos civis pela comunidade homossexual”, acrescentando, “não escolhi ser negro e você não escolheu ser branco --os homossexuais fazem uma escolha de serem homossexuais. Então por que comparar o que passamos com a sua situação? Não é a mesma coisa; não tem comparação.”
Owens agora está ameaçando sabotar a reeleição de Obama e ele e muitos outros ministros estão usando seus sermões de domingo para se oporem ao apoio de Obama ao casamento de mesmo sexo. Owens fundou um grupo de 13 pastores afro-americanos em Tennessee contra Obama. Eles estão determinados a negar seus votos a Obama, caso ele não desista.
O direito sagrado ao voto
Mas Otis Moss, pastor da antiga igreja de Obama, discorda. “Devemos apoiar o presidente e apoiar os direitos de todos em uma democracia pluralista que somos convidados a amar”, disse à “Spiegel” em recente entrevista. E em uma carta aberta, ele escreve: “A instituição do casamento não está sob ataque como resultado das palavras do presidente. O casamento estava sob ataque anos atrás, por homens que viam as mulheres como propriedade e os filhos como troféus de seus poderes sexuais”.
No domingo da reunião de cúpula da Otan, Moss leu a carta à sua congregação, depois citou seu pai: “Nossos ancestrais oraram por 389 anos para colocar uma pessoa de cor na Casa Branca. Eles lideraram mais de 200 revoltas de escravos, lutaram em 11 guerras, sendo uma guerra civil na qual de 600 mil pessoas morreram... não vou permitir a ministros de mente estreita ou a políticos retrógrados a satisfação de me afastarem do meu direito sagrado de votar para formatar o futuro para meus netos.”
Moss prosseguiu: “Achar que o presidente dos Estados Unidos deve ter a sua posição teológica é absurdo. Ele é o presidente dos Estados Unidos da América, não o presidente da convenção Batista ou da Igreja Sagrada. Ele é chamado a proteger os direitos de judeus e não judeus, homens e mulheres, jovens e velhos, homossexuais e heterossexuais, negros e brancos, ateus e agnósticos”.
Mais céticos desta vez
Moss soa um pouco como Obama na campanha de 2008, quando ele era o grande salvador, o homem que prometeu mudança e reconciliação a uma nação em briga consigo mesma, o político que declarou em seu famoso discurso de 2004 na Convenção Nacional Democrática: “Não existe uma América negra e uma América branca e latina e asiática; há apenas os Estados Unidos da América”.
A luta de Obama pelo casamento de mesmo sexo oferece novamente esse tipo de promessa grande, um rompimento claro na antiga guerra cultural dos EUA. Presumivelmente, Obama tomou essa decisão em parte na esperança de recapturar a mágica de 2008.
Ainda assim, há mais céticos desta vez do que na primeira eleição de Obama. Muitos eleitores veem esse passo como uma tentativa calculada de conquistar o apoio dos homossexuais ricos, que podem ser grandes doadores para a campanha. Após quase quatro anos de presidência, esses eleitores acham que a promessa de Obama --de construir um país aberto a todos-- soa vazia.
Muitos de seus antigos defensores, enquanto isso, parecem consideravelmente menos entusiasmados atualmente. O professor afro-americano Cornel West, por exemplo, foi fã total de Obama. “Quando você mobiliza o legado de Martin King e coloca um busto dele no Escritório Oval, as pessoas elevam suas esperanças. Martin King não é qualquer um”, disse ele ao “Financial Times no início do mês. “É como um romancista obcecado com Tolstói ou Proust que depois termina escrevendo contos que mal entram em uma revista inferior. Ei, você atiçou nossas esperanças, cara! Eu esperava Proust ou Tolstói, e isso daí mal entraria na 'Newsweek'”.
Tradutor: Deborah Weinberg
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