domingo, 17 de junho de 2012

Na tentativa de entrar na Europa, imigrantes ilegais são vítimas de agressões na Grécia
Benoît Vitkine - Le Monde 
Um deles arrasta o pé, inchado e roxo. O outro mostra seu punho deslocado e lamenta: "Como vou poder trabalhar quando estiver na Europa?" O terceiro se esconde; está em boa saúde, mas assustado. Os três foram atacados há menos de uma semana pelos "racistas", homens à paisana que eles não conseguem identificar, quando voltavam de sua enésima tentativa de se infiltrar no porto de Patras, a terceira maior cidade da Grécia, para embarcar em um navio que partia para a Itália - a Europa.
Rashid, Khaled e Rafik não têm mais forças para fugir. Enquanto os outros partiram, os três argelinos ficaram. Desde então, eles ocupam as ruínas da fábrica de Peiraiki Patraiki, imensa área de paredes quebradas, sapatos e panelas abandonadas onde viviam, até que foram expulsos no final de maio, quase mil refugiados afegãos, paquistaneses, bengalis, africanos e magrebinos.
No dia 19 de maio, em uma briga a 200 metros de lá, um imigrante afegão apunhalou até a morte um jovem grego. Durante três noites, a fábrica foi tomada de assalto por moradores em fúria, além de 300 jovens de capacetes e armados com barras de ferro, que ocupavam ônibus inteiros, militantes da Aurora Dourada, o partido neonazista que entrou no Parlamento com as eleições do dia 6 de maio. A polícia interveio, e cada um dos lados recolheu seus feridos. Depois os policiais voltaram para expulsar os imigrantes.
Desde então, os milhares de imigrantes em trânsito por Patras têm se escondido, expulsos do centro pelas recorrentes agressões e pela hostilidade geral. "Antes nós é que tínhamos medo, é a vez deles de se esconderem", comemora Kostas, vendedor de frutas e legumes. A Aurora Dourada chegou à cidade há quatro meses, instalando seu quartel-general na rua da Alemanha. Desde que o escritório foi saqueado por militantes anarquistas, em março, sua porta blindada permanece fechada na maior parte do tempo.
"Dezenas de pessoas imediatamente aderiram ao partido ou a outros grupos racistas, como se só estivessem esperando por isso", conta Harry, da Praxis, associação de ajuda aos imigrantes menores de idade. A associação, bem como as três outras que existem na cidade, teve de suspender suas atividades após os incidentes: os assistentes sociais, ameaçados, não saem mais à procura dos imigrantes, e estes limitam seus deslocamentos.
Soufiane, 33, arrisca ir até o centro pela primeira vez em cinco dias. O jovem, que chegou há um ano e meio, espera para ir à França, mas de qualquer forma está frequentando o curso de grego oferecido pela Praxis. "Caso eu precise ficar", explica. Ele ainda não se recobrou totalmente de seu último encontro com "os fascistas". "Você é marroquino?", eles lhe perguntaram, antes de deixá-lo ir: "Primeiro vamos cuidar dos afegãos, depois será sua vez".
Para voltar a encontrar sinais dos afegãos, é preciso sair da cidade e penetrar nos matagais que recobrem as dunas do Golfo de Corinto. Lá, vemos cerca de trinta adolescentes, largados à sombra de uma lona em um prédio de teto rasgado. Metade deles veio depois que foram expulsos de Peiraiki Patraiki. Abdullah, 17, é quase um veterano: ele chegou à Grécia há sete anos com seu irmão mais velho, que depois partiu para a Suécia. Os dois tiveram de pagar 4 mil euros para viajar desde Cabul atravessando o Evros, rio que marca a fronteira entre a Grécia e a Turquia.
Em 2011, foram interceptadas 57 mil pessoas pela polícia grega e pela missão europeia Frontex ao longo dessa fronteira natural de 200 quilômetros de extensão. Desde que a Itália e a Espanha endureceram seus controles, a Frontex calcula que 90% dos imigrantes ilegais que entram na União Europeia transitem pela Grécia. Patras é, de certa forma, a outra extremidade do funil: suas balsas que partem diariamente para a Itália fazem dela uma das principais portas de saída do país.
Após os incidentes e com a aproximação das eleições do dia 17 de junho, a prefeitura quis fazer uma faxina. Centenas de imigrantes foram interpelados e enviados aos quatro cantos do país. É o caso de Ahmed, 19, que dez dias antes havia embarcado em um ônibus na direção de Atenas. Ele voltou a pé. De acordo com certas fontes, muitos ônibus não chegam até a capital: os imigrantes são deixados no meio do mato, depois de terem seu dinheiro e telefones apreendidos. Essas mesmas fontes também falam em espancamentos. "Quando vamos à delegacia fazer pedidos de asilo, acontece de encontrarmos imigrantes com o rosto machucado", afirma Katerina Skilakou, do Instituto Regional das Migrações. "Mas não podemos saber o que aconteceu com eles".
"Eu achava que na Europa os homens respeitavam os homens", diz simplesmente Abbas, 23, enquanto Abdullah, que sofreu um ataque duas semanas antes, sai para preparar o chá, mancando. Abbas deixou a província de Ghazni há três anos. Depois de esquecer seu sonho de estudar em Oxford, ele encontrou emprego na construção civil: 23 euros por dia, por dois ou três dias de trabalho por semana.
Um ano atrás, ele conseguiu chegar a Ancona, escondido em um caminhão frigorífico. "Uma vez no porto italiano, fiquei sem oxigênio. Bati nas paredes, pensando que ia morrer". Os policiais italianos o tiraram dali e depois o deportaram para a Grécia, em virtude dos Acordos de Dublin 2, dispositivo que responsabiliza o Estado-membro através do qual um solicitador de asilo entrou na União Europeia.
Diante das faltas de Atenas, que dispõe de um único centro de retenção, e após condenações do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, vários países europeus pararam de deportar os imigrantes. A Grécia tem se revelado incapaz de cuidar dos cerca de 400 mil clandestinos que vivem em seu território – além do 1 milhão de imigrantes legais, em uma população de 11 milhões de habitantes. Os que são detidos recebem a ordem de deixar o território dentro de trinta dias e depois desaparecem. Já os pedidos de asilo são tratados a conta-gotas, e a resposta pode levar anos. Na praia, um pouco adiante, encontramos Firoz e Bashir, 16, que chegaram juntos da província de Kunduz, oito meses atrás. Eles vão cada vez menos tentar a sorte no porto: "Ficou quase impossível partir, eles instalaram câmeras e os guardas estão cada vez mais violentos. Estamos numa armadilha, aqui!"
Voltando para a cidade, os acampamentos improvisados dão lugar aos guarda-sóis dos moradores de Patras que vão tomar sol. Fred circula entre as toalhas, tentando vender a 7 euros seus relógios falsificados comprados a 5 euros. Esse nigeriano é uma exceção: em seu exílio, ele escolheu a Grécia, "país da cultura". Ele, que chegou há seis meses, passou quatro deles sendo arrastado de delegacias para centros de detenção. "Saí de lá tão magro como um esqueleto, e sem entender do que eu estava sendo acusado". Nas embalagens de suas rações de prisioneiro, Fred escreveu canções: "A Grécia é um país maravilhoso/Senhor, dai-lhe sabedoria", ele cantarola.
Tradutor: Lana Lim

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