domingo, 3 de junho de 2012

POLÔNIA

Apesar do avanço econômico do país, alguns poloneses vão ficando para trás
Stefan Kaiser - Der Spiegel
A Polônia, um dos países que vão receber o Campeonato Europeu de Futebol, vem prosperando graças a um rigoroso programa de modernização. Mas nem todos estão se beneficiando do sucesso econômico. Com os aluguéis subindo e os idosos reclamando de aposentadorias menores, o ressentimento cresce.
Apesar das centenas de rugas em seu rosto, Barbara Przybyz não parece uma mulher pobre. Com 83 anos, ela está com o cabelo arrumado, uma blusa cor de lavanda e uma bolsa preta pendurada no braço. Ela explica que foi funcionária de um grande banco em Wroclaw, no oeste da Polônia. Ela não tem muito em sua velhice. Agora recebe uma aposentadoria de $ 1.000 zlotys (em torno de R$ 600).
“Eu não sobreviveria sem o apoio financeiro da minha filha”, diz ela.
É um dia quente de maio, e Przybyz fez a viagem de Wroclaw para Varsóvia de ônibus para protestar em frente ao Parlamento. A viagem foi organizada pelo Solidarnosc --ou Solidariedade. A organização de trabalhadores lendária que promoveu a queda do regime comunista reuniu algumas centenas de pessoas de toda a Polônia para o protesto. Elas estavam se manifestando contra um projeto de reforma da aposentadoria, que a câmara baixa do parlamento, a Sejm, em breve votará.
O governo do primeiro-ministro Donald Tusk quer aumentar a idade de aposentadoria --que hoje é de 65 anos para homens e de 60 anos para mulheres-- para 67. A medida faz parte de um programa de modernização econômica desenvolvido há anos pelos líderes liberais do país e que conquistou elogios internacionais ao país.
A Polônia atravessou a crise financeira em melhor forma do que qualquer outro país na Europa. A economia vem crescendo e produzindo uma classe média razoavelmente próspera. O Campeonato Europeu de Futebol, que vai começar em Varsóvia no dia 8 de junho, dará ao país mais um impulso.
Mas nem todos vem usufruindo do milagre econômico. Muitos saíram perdendo --inclusive os que são dependentes do Estado, como idosos e enfermeiras, cujos salários não acompanharam o crescimento econômico.
A Polônia está se tornando cada vez mais ocidentalizada, especialmente nas grandes cidades, e está ficando mais rica. Ainda assim, há um vão entre as pessoas que se beneficiam da modernização e as que estão ficando de fora. “O segmento da população que está ficando para trás está crescendo”, diz Cornelius Ochmann, especialista em Polônia do Bertelsmann Stiftung.
Como resultado, atualmente o Solidarnosc não combate mais o comunismo e sim os efeitos colaterais do capitalismo.
"Deus, Honra, Nação"
Barbara Przybyz diz que entrou para o movimento do Solidariedade em 1980, logo após sua criação. “Esperava que seria possível expulsar os comunistas e levar uma vida digna”, diz ela. Em vez disso, em sua opinião, o atual regime econômico liberal é como o comunista: despreza as pessoas comuns.
Ainda restam muitas diferenças entre o movimento do Solidarnosc e os similares europeus. Muitos membros dos sindicato polonês são eleitores conservadores. No comício em frente ao Parlamento, muitos manifestantes pararam para rezar. Um homem carregava uma cruz de madeira com a imagem do falecido papa polonês, João Paulo 2º. Nela, as palavras: “Deus, Honra, Nação”. O sindicato dos metalúrgicos alemão, IG Metall, consideraria tal gesto fútil.
“O papa nos mostra o caminho”, diz outro homem, que acredita que a Polônia precisa recuperar os valores tradicionais, como a honestidade, que ele acredita que foram perdidos na nova Polônia. O homem não quis ser identificado, mas revela que trabalha em uma fábrica em Wroclaw que produz refrigeradores para uma empresa norte-americana. “Tenho que esperar outros dois anos para poder me aposentar”, diz ele. Depois, deve receber uma aposentadoria de 800 zlotys por mês. “Não vejo por que eu tenho que receber tão pouco só porque os comunistas arruinaram a economia”, diz ele, fazendo um gesto no ar com as mãos. Ele está usando um boné bege e um colete branco do Solidariedade sobre sua jaqueta.
E, para piorar as coisas, diz ele, o governo liberal agora quer que seus filhos trabalhem mais tempo --para que, algum dia, possam receber uma aposentadoria reduzida como a dele. “As pessoas comuns são as perdedoras”, diz ele. “A liberalização da política deixou-as em pior situação”.
Luta pelos direitos dos inquilinos
A revolta é maior entre os que se consideram deixados para trás --e há muitos deles. O índice de desemprego caiu durante o boom econômico dos últimos anos, para 10%, mas ainda é comparativamente alto.
De acordo com os números mais recentes do Eurostat, que fornece estatísticas em nome da Comissão Europeia, em 2010, mais de 17% dos poloneses corriam o risco de cair na pobreza. Na vizinha República Tcheca, enquanto isso, esse número era de 9%.
O vão social é particularmente notável no bairro de Warsaw, em Praga. Por muito tempo, a modernização esqueceu esta parte da cidade, que fica próxima ao novo estádio de futebol. Até três anos atrás, as pessoas mais pobres podiam morar ali de forma barata, em casas depredadas. “Em 2009, houve um aumento muito grande dos alugueis”, diz Jakub Gawlikowski, de um grupo local que defende os direitos dos inquilinos. “Subitamente, os apartamentos ficaram de 200% a 300% mais caros. Muitos dos moradores mais antigos não puderam pagar e foram despejados."
Na época, Gawlikowski --e outros em sua comunidade-- fundou o comitê dos inquilinos. Eles queriam fazer alguma coisa diante daquela injustiça. Agora, eles organizam atos de resistência durante os despejos forçados e aconselham os moradores desalojados.
Sua sede é uma pequena sala no porão de um prédio dilapidado. O reboco está caindo da fachada do prédio. Dentro da sala, há dois sofás rasgados, uma poltrona florida, uma mesa de madeira e duas cadeiras. Os cartazes na parede trazem retratos de pessoas com os pulsos levantados aos céus e duas fotografias de uma mulher. “Era uma moradora”, diz Gawlikowski. “Ela foi a última na casa e resistiu quando os novos proprietários tentaram retirá-la”. No ano passado, o corpo queimado dela foi encontrado na floresta. As autoridades disseram que foi suicídio, mas Gawlikowski e seus companheiros não acreditaram
Gawlikowski, jovem com cabelos castanhos cacheados e um casaco de capuz, está sentado em um dos dois sofás na sede minúscula. Ao lado dele está Marek Jasinki, outro membro do comitê. Juntos, eles aconselham muitos inquilinos desesperados, ameaçados de despejo. “O número continua crescendo”, diz Jasiski. Atualmente, eles recebem cerca de 200 pessoas por mês, pedindo ajuda.
Um forte contraste
Em breve, poderá haver mais. O governo está planejando uma nova lei que tornará mais fácil retirar inquilinos à força de prédios que eram do Estado, uma vez transferidos para seus proprietários originais.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Estado polonês desapropriou muitos imóveis e instalou moradias comunitárias em seu lugar. Por anos, muitos dos proprietários originais vinham pedindo seus imóveis de volta. A política da cidade de Varsóvia é transferi-los aos donos originais assim como a investidores privados. “Se o novo proprietário aumentar o aluguel, os inquilinos antigos vão ficar sem teto”, diz Jasinki. Ele diz que a cidade só oferece outro apartamento aos mais pobres, e o resto tem que considerar se deve ficar. Uma razão, diz ele, é que a prefeitura não fornece habitações sociais há anos. “A ideia de habitação social foi pervertida”, diz, irritadamente.
Aqui em Praga, os conflitos gerados pela mudança social do país já são aparentes. Entre os prédios velhos e dilapidados, novos apartamentos estão surgindo para a classe média abastada. Enquanto isso, exatamente na frente do prédio depredado do comitê dos inquilinos, um palácio de vidro está sendo erguido. O prédio será a sede de um jornal empresarial chamado “Puls Biznesu” --ou “o pulso dos negócios”.
Tradutor: Deborah Weinberg

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