sábado, 16 de junho de 2012

Turquia divide dois mundos em processo de desmoronamento
Thomas L. Friedman
Turquia não é a "ponte" tampouco o "fosso divisório" entre a Europa e Oriente Médio; o país apenas assiste a crise que tem levado esses dois mundos para "buraco"
Durante vários anos, estrategistas discutiram se a Turquia seria uma "ponte" ou um "fosso divisório" entre a Europa predominantemente cristã e o Oriente Médio árabe e muçulmano. Se a Turquia fosse admitida na União Europeia, ela seria uma ponte de união entre esses dois mundos. E se fosse mantida fora da união, ela se transformaria em um fosso separando os dois universos. Mas atualmente a Turquia não é nem uma ponte nem um fosso. Ela é uma ilha. Uma ilha de relativa estabilidade entre dois grandes sistemas geopolíticos que estão desmoronando: tanto a zona do euro, que surgiu após o fim da Guerra Fria, quanto o sistema de Estados árabes, que se materializou depois da 1ª Guerra Mundial, estão se desintegrando.
O nervosismo toma conta de todos. As reações variam desde assassinatos verdadeiramente terríveis cometidos pela família mafiosa de Assad que se agarra ao poder na Síria até a perturbadora briga que irrompeu na semana passada em um programa matinal de entrevista de TV na Grécia, quando o porta-voz de um partido de extrema direita jogou água na face de uma mulher de um partido de esquerda e a seguir deu três tapas no rosto de uma outra participante do programa.
A ilha da Turquia tornou-se um dos melhores locais para se observar esses mundos. A leste, vemos a União Monetária Europeia naufragando sob o peso da sua autoconfiança exagerada – líderes que extrapolaram ao criar uma moeda comum sem que houvesse um governo comum para sustentá-la. E, ao sul, vemos a Liga Árabe desintegrando-se sob o peso da sua própria decomposição – líderes que jamais se comprometeram com a governança decente e com a educação moderna que são pré-requisitos para a prosperidade na era da globalização.
Os europeus fracassaram na tentativa de construir a Europa, e isto é agora um grande problema porque, à medida que a moeda comum sofre pressões e a União Europeia mergulha cada vez mais na recessão, o mundo inteiro sofre os efeitos disso. Os sírios fracassaram na tarefa de construir a Síria, os egípcios na de construir o Egito, os líbios na de construir a Líbia, os iemenitas na de construir o Iêmen. E estes são problemas ainda maiores porque quando esses Estados ficam sobrecarregados de problemas ou desintegram-se, ninguém sabe como reconstruí-los.
Colocando a situação de outra forma: na Europa, o projeto supranacional não funcionou e, agora, até certo ponto, ela está se fragmentando em Estados individuais. No mundo árabe, o projeto nacional fracassou, de forma que os Estados árabes estão retrocedendo para facções, tribos, regiões e clãs.
Na Europa, o projeto supranacional não deu certo porque os Estados Europeus jamais se mostraram preparados para ceder o controle sobre os seus orçamentos a uma autoridade central que garantiria uma política fiscal compartilhada por todos os países para apoiar uma moeda comum.
No mundo árabe, o projeto nacional não funcionou – em muitos, mas não em todos os casos – porque as tribos, as facções, os clãs e os grupos regionais que compõem os Estados árabes, cujas fronteiras foram traçadas pelas potências coloniais, não se dispuseram ou não foram capazes de formar comunidades genuinamente estatais.
Assim, a União Europeia tem atualmente muitos cidadãos, mas não conta com nenhum Estado-Nação supranacional ao qual todos estivessem dispostos a ceder a autoridade econômica. E o mundo árabe possui vários Estados nacionais, tendo, entretanto, poucos cidadãos. Na Síria, no Iêmen, no Iraque, na Líbia e em Bahrein, o que se vê é uma facção ou tribo governando as outras facções e tribos pela força – e não porque elas criaram um contrato social voluntário mútuo. No Egito e na Tunísia, vemos sociedades mais homogêneas e um senso de cidadania mais forte, e é por isso que esses países têm mais chance de implementar a transição rumo a uma política mais consensual.
É bem verdade que na Síria, no Bahrein, no Iêmen, na Líbia e no Iraque existem mais pessoas, particularmente jovens rebeldes, desejosos de se tornar cidadãos. Esses indivíduos desejam viver em Estados nos quais as pessoas tenham direitos e obrigações, e nos quais existam partidos multiétnicos. Mas não se sabe se estes países possuem a liderança e as classes médias de alto nível educacional necessárias para a criação de identidades políticas modernas a partir de identidades atávicas.
Uma questão sobre a qual os historiadores se debruçarão diz respeito ao motivo pelo qual esses dois grandes sistemas geopolíticos sofreram fraturas de forma simultânea. A resposta, acredito eu, é o efeito de agregação provocado pela globalização e a revolução da tecnologia da informação, que fez com que o mundo ficasse bem mais aberto nos últimos cinco anos, à medida que nós passamos da conexão para a hiperconexão. No mundo árabe, esta hiperconectividade fez, simultaneamente, com que os jovens tivessem mais condições de perceber o quanto eles se encontravam defasados – com toda a ansiedade provocada por tal descoberta – e permitiu que eles se comunicassem e colaborassem para fazer algo quanto a isso, fraturando os seus Estados ossificados.
Já na Europa, a hiperconectividade revelou o grau de falta de competitividade de algumas das suas economias, e ao mesmo tempo mostrou até que ponto essas economias se tornaram interdependentes. Esta foi uma combinação letal. Quando países com culturas tão diferentes tornam-se interconectados e interdependentes – quando eles compartilham a mesma moeda não a mesma ética de trabalho, idades de aposentadoria ou disciplina orçamentária – acaba-se que poupadores alemães criticam trabalhadores gregos, e vice-versa.
E, quanto a nós? O sistema federativo flexível dos Estados Unidos é, teoricamente, apropriado para prosperar em um mundo hiperconectado, mas somente se nós colocarmos em ordem a nossa casa macroeconômica e melhorarmos a qualidade do nosso sistema educacional. Nós deveríamos ser a ilha de estabilidade do mundo atual. Mas não somos. Conforme disse Mohamed el-Erian, diretor-executivo do grande banco de investimentos Pimco, "Nós somos apenas a camisa menos suja que está em circulação".
Tradutor: UOL
Thomas L. Friedman
Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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