quinta-feira, 6 de junho de 2013

Jovens de Hong Kong perpetuam lembrança das vítimas da praça da Paz Celestial
Florence De Changy - Le Monde
China tem homenagens nos 24 anos do massacre da Paz Celestial 
Em imagem de arquivo de 5 de junho de 1989, homem se posta diante de tanques de guerra na avenida da Paz Eterna em Pequim. Nesta terça-feira (4) completam-se 24 anos do massacre da praça Tiananmen (praça da Paz Celestial, em português), quando manifestantes pró-democracia foram expulsos da praça, ocupada por sete semanas, resultando no saldo de mortos entre centenas e milhares (faltam informações do governo chinês) Arthur Tsang/Reuters/Arquivo 5.jun.1989
"Não esqueceremos jamais!"; "Lembrem-se do 4 de junho!"...
A maioria das dezenas de milhares de participantes da homenagem às vítimas do massacre da praça da Paz Celestial, aglomeradas sob guarda-chuvas pingando, manteve vigília debaixo da chuva que se abateu poucos minutos antes da abertura oficial do evento.
Há 24 anos, na noite de todo 4 de junho, no parque Victoria, Hong Kong relembra esse aniversário, tabu em todo o resto da China. Este ano, nem as polêmicas e os apelos de boicote que inflamaram os preparativos da manifestação provocaram a queda no número de participantes, estimado em 150 mil segundo os organizadores, 54 mil de acordo com a polícia.
Com as mãos na cabeça, "Long Hair", o deputado mais radical de Hong Kong, líder da Liga Socialdemocrata, se mostra emocionado com esse fervor. "Ver as pessoas continuarem se dirigindo ao parque, apesar da tempestade, mostra até que ponto isso é importante", ele diz. "Pouco importa a chuva, aqueles que hoje homenageamos tiveram de enfrentar balas", afirma com um sorriso Anson Li, uma senhora "que não tem mais idade para trabalhar".

Desordem amigável

Várias horas antes da homenagem, que deveria começar às 20h, Causeway Bay, um dos bairros mais animados de Hong Kong, tinha sua empolgação redobrada. Na confusão dos alto-falantes, os partidos políticos pró-democracia disputavam a atenção com movimentos estudantis, entre eles o grupo Scholars, que em setembro de 2012 fez com que o governo voltasse atrás em seu projeto de programa de educação patriótica chinesa nas escolas.
Com exceção de algumas vozes dissidentes que fizeram seu próprio evento em outro lugar, toda a Hong Kong da luta pela democracia, pelas liberdades fundamentais e pelos direitos humanos estava lá, em uma desordem serena e amigável.
Pela manhã, às 8h45 (8.9 em chinês), cerca de 40 estudantes de dez universidades encerraram sua greve de fome de 64 horas, em referência à data do massacre: 6/4/89 (o dia e o mês são invertidos). Para os participantes, a ideia era obter o reconhecimento do massacre da Paz Celestial, em homenagem às vítimas, e continuar com as reivindicações de 1989 por democracia na China, começando por Hong Kong, se possível.
Antes da tempestade, no parque Victoria, que todo ano empresta seus seis campos de futebol aos manifestantes, o clima era calmo, até contemplativo. No meio da esplanada foi erguida uma reprodução da "deusa da democracia" da praça da Paz Celestial. Participantes rezavam diante de coroas de flores, como as que se usam em enterros.
"Estamos tristes esta noite. Viemos para pedir que Pequim reconheça os fatos, assuma suas responsabilidades e peça desculpas. Senão, não há nenhuma esperança de progresso", afirma Heiming Ng, um estudante cercado de colegas, alguns lá pela primeira vez.

Insatisfação

Outros comparecem todos os anos. Kanis Tse vem desde que ela estava na barriga de sua mãe. Seu pai, operário, acompanhou os acontecimentos e apoiou o movimento de solidariedade que se formou em Hong Kong em resposta às reivindicações dos estudantes de Pequim.
Vinte e quatro anos mais tarde, é ainda a Aliança de Hong Kong pelo Apoio aos Movimentos Democráticos Patrióticos da China que organiza o evento, mas as gerações mais jovens parecem determinadas a garantir sua continuidade, cada vez mais certas de que não é de Pequim que as liberdades virão. Segundo um estudo recente do prof. DeGolyer, da Universidade Batista, os adolescentes são de longe a categoria mais pró-democracia (80%), seguidos de perto pelos jovens adultos.
Desde que o novo chefe do Executivo, Leung Chun-ying, assumiu seu cargo, no dia 1º de julho de 2012, as reformas que deveriam levar a eleições para 2017 foram deixadas de lado, uma tática de postergação já bem conhecida. Uma pesquisa, realizada pela Universidade de Hong Kong, deveria servir de alerta para os dirigentes. O índice de insatisfação dos habitantes de Hong Kong se aproxima do nível de 2003, quando 500 mil pessoas marcharam nas ruas exigindo a demissão do chefe do Executivo, Tung Chee-hwa. Ele acabou renunciando no meio de seu segundo mandato.

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