Andrew Jacobs - NYT
Li Demin/EFE

Processo de "ordenha" para extração da bile pode fazer ursos sofrerem por anos antes de morrer
Li Demin/EFE

Processo de "ordenha" para extração da bile pode fazer ursos sofrerem por anos antes de morrer
À primeira vista, foi uma oferta pública inicial bastante modesta por parte de uma pequena indústria chinesa em busca de expandir a produção do principal ingrediente usado em remédios tradicionais que supostamente diminuem o tamanho das pedras no rim, baixam a febre e aliviam os efeitos colaterais do consumo excessivo de álcool.
Mas a Guizhentang Pharmaceutical, maior produtora de extrato de bile de urso do país, aparentemente esqueceu um fator importante antes de apresentar sua documentação à bolsa de valores de Shenzhen: movimento cada vez mais audacioso pelos direitos dos animais na China.
A proposta da Guizhentang para triplicar a quantidade de ursos em cativeiro, de 400 para 1200, provocou uma tempestade entre aqueles que se opõem à extração da bile, um processo que envolve a inserção de tubos nos abdomens dos ursos e sua "ordenha", às vezes durante anos.
Manifestantes vestidos com fantasias de urso fizeram piquetes em farmácias, hackers derrubaram brevemente o site da Guizhentang e mais de 70 celebridades chinesas, incluindo o astro do basquete Yao Ming e a diva pop Han Hong, fizeram circular um abaixo-assinado pedindo que a bolsa de valores rejeite o IPO.
Para os defensores dos animais na China, a vitória sinalizou a influência crescente de um movimento que frequentemente é ridicularizado como sendo no mínimo burguês e frívolo. Seus oponentes mais contumazes retratam os defensores dos animais como traidores financiados por estrangeiros que acabariam com tradições chinesas consagradas como cozido de carne de cachorro, esculturas em marfim e pênis de veado seco, consumido para aumentar a virilidade.
Deborah Cao, advogada que costuma escrever sobre os direitos dos animais na China, disse que campanhas como a que derrotou a Guizhentang mostram como as mídias sociais reuniram uma geração chineses urbanos e cultos que cresceram com animais domésticos e personagens antropomórficos da Disney. "É um movimento que vem das bases, que está contribuindo para o surgimento de uma sociedade civil cada vez mais consciente dos direitos e deveres individuais, seja para com humanos ou animais", disse ela.
Esse ativismo é ainda mais notável dadas as limitações que o Partido Comunista normalmente impõe sobre o lobby público, protestos de rua ou qualquer organização não autorizada oficialmente.
Os advogados ainda não persuadiram o governo a aprovar uma legislação de proteção aos animais. Mas os otimistas dizem que já começaram a enfraquecer a ideia de longa data de que os animais existem para satisfazer as necessidades médicas e gastronômicas dos seres humanos.
"Ativistas dos direitos dos animais estão sobre uma corda bamba incrivelmente sensível, mas acredito que eles estão chegando a um ponto de virada neste momento", disse Jill Robinson, diretora da Animals Asia, uma organização com sede em Hong Kong que vem fazendo campanha há duas décadas para acabar com a extração de bile.
Ainda assim, apesar do que parece uma oposição pública crescente contra a prática, o governo chinês não está preparado para acabar com o lucrativo comércio de ácido ursodesoxicólico, o ingrediente ativo encontrado na vesícula biliar dos ursos. Embora os cientistas tenham desenvolvido uma alternativa sintética, os tradicionalistas afirmam que ela não tem o efeito terapêutico da bile verdadeira, que pode ser vendida por até US$ 24 mil o quilo, cerca de metade do preço do ouro.
Os cientistas examinaram os efeitos da bile de urso para a saúde, mas não chegaram a conclusões definitivas. Mas vendida sob a forma cápsulas ou tônico, a bile é considerada por muitos como uma espécie de elixir. Os vendedores da bile dizem que ela fortalece o fígado, reduz os sintomas da gripe e melhora a visão.
Yang Tingying, uma vendedora no mercado atacadista de medicamentos chineses em Chengdu, capital da província de Sichuan, insiste que a bile cura todos os tipos de doenças do fígado, inclusive a hepatite. "É a melhor porque vem da natureza", disse ela, mostrando um par de vesículas dissecadas, cuja venda é ilegal.
Além da China, há fazendas de bile de urso no Vietnã, Laos, Mianmar e Coréia do Norte.
Para os defensores dos animais, o desafio é convencer os consumidores chineses que a barbárie da coleta da bile é maior do que os supostos benefícios medicinais da bile natural – ou de que os riscos do consumo da bile de ursos doentes, injetados com antibióticos, são altos.
Além dos vídeos que circulam sobre a prática da coleta da bile, organizações como a Animals Asia têm uma série de armas secretas, incluindo Sun Li, César e Buda. Eles estão entre os 158 ursos resgatados que perambulam pelo santuário construído pelo grupo nos arredores de Chengdu. O centro recebe grupos escolares, celebridades e repórteres chineses, todos invariavelmente atraídos pelos ursos.
A maioria dos animais vieram de fazendas fechadas pelas autoridades porque tinham menos de 50 ursos, uma violação das regras do setor. A maior parte dos animais são ursos negros asiáticos, uma espécie ameaçada mais conhecida como urso-lua, por causa distinta meia-lua branca que eles têm atravessando o peito.
Nicola Field, veterinário-chefe do santuário, disse que os ursos costumam chegar magros, com o abdômen cheio de infeções, hérnias e tumores, característicos de um processo de extração que exige que eles fiquem com feridas abertas para as ordenhas que acontecem três vezes ao dia.
Os dentes dos ursos normalmente estão desgastados por roerem as barras de suas jaulas e os seus pés costumam estar num estado lamentável uma vez que poucos animais chegam a andar sobre o solo. "A lista de abusos que eles sofrem é terrível", diz Field.
Os anos de sofrimento e confinamento são tão traumatizantes que alguns dos ursos resgatados passam horas intermináveis batendo a cabeça contra a parede ou mordendo suas próprias patas.
Apoiadores do setor montaram sua própria campanha de relações públicas pró-bile, ressaltando a história da medicina tradicional da China e sugerindo que os defensores dos direitos dos animais estão fazendo a defesa de empresas farmacêuticas estrangeiras para promover a medicina ocidental à custa dos remédios caseiros.
Suas declarações saíram pela culatra, produzindo uma onda de ridicularização nas mídias sociais e refutações de especialistas que disseram que é impossível os criadores de ursos deixarem os animais saírem de suas jaulas. "Os ursos são inteligentes como os cães e se lembram da dor", disse Zhang Xiaohai, que visitou uma série de fazendas de ursos como investigador disfarçado para a Animals Asia. "Eles nunca voltariam por vontade própria para serem ordenhados novamente."
Mas Zhang e outros veem esperança nas atitudes de jovens chineses como Guan Zhiling, que visitou o santuário com seus colegas de escola. "É brutal e desrespeitoso para com os ursos, e uma desgraça para a espécie humana", disse ela.
Tradutor: Eloise de Vylder
Mas a Guizhentang Pharmaceutical, maior produtora de extrato de bile de urso do país, aparentemente esqueceu um fator importante antes de apresentar sua documentação à bolsa de valores de Shenzhen: movimento cada vez mais audacioso pelos direitos dos animais na China.
A proposta da Guizhentang para triplicar a quantidade de ursos em cativeiro, de 400 para 1200, provocou uma tempestade entre aqueles que se opõem à extração da bile, um processo que envolve a inserção de tubos nos abdomens dos ursos e sua "ordenha", às vezes durante anos.
Manifestantes vestidos com fantasias de urso fizeram piquetes em farmácias, hackers derrubaram brevemente o site da Guizhentang e mais de 70 celebridades chinesas, incluindo o astro do basquete Yao Ming e a diva pop Han Hong, fizeram circular um abaixo-assinado pedindo que a bolsa de valores rejeite o IPO.
Prazo
Depois que alguns dos maiores meios de comunicação de notícias da China divulgaram cenas angustiantes gravadas secretamente revelando ursos em gaiolas tão apertadas que mal podiam se mover, a Guizhentang retirou seu requerimento no mês passado, dizendo que precisava de mais tempo para preparar sua documentação.Para os defensores dos animais na China, a vitória sinalizou a influência crescente de um movimento que frequentemente é ridicularizado como sendo no mínimo burguês e frívolo. Seus oponentes mais contumazes retratam os defensores dos animais como traidores financiados por estrangeiros que acabariam com tradições chinesas consagradas como cozido de carne de cachorro, esculturas em marfim e pênis de veado seco, consumido para aumentar a virilidade.
Deborah Cao, advogada que costuma escrever sobre os direitos dos animais na China, disse que campanhas como a que derrotou a Guizhentang mostram como as mídias sociais reuniram uma geração chineses urbanos e cultos que cresceram com animais domésticos e personagens antropomórficos da Disney. "É um movimento que vem das bases, que está contribuindo para o surgimento de uma sociedade civil cada vez mais consciente dos direitos e deveres individuais, seja para com humanos ou animais", disse ela.
Esse ativismo é ainda mais notável dadas as limitações que o Partido Comunista normalmente impõe sobre o lobby público, protestos de rua ou qualquer organização não autorizada oficialmente.
Os advogados ainda não persuadiram o governo a aprovar uma legislação de proteção aos animais. Mas os otimistas dizem que já começaram a enfraquecer a ideia de longa data de que os animais existem para satisfazer as necessidades médicas e gastronômicas dos seres humanos.
Pressão
Ativistas apontam para a crescente visibilidade das campanhas de sensibilização contra o consumo de nadadeiras de tubarão, bem como uma recente onda de esforços de resgate que impediram caminhões carregados de gatos e cães de chegarem aos matadouros. Em dezembro, a emissora estatal CCTV fez uma série de reportagens sobre o consumo ilegal de lagartos, macacos rhesus, veados e outros animais selvagens, e as batidas policiais subsequentes contra traficantes no mercado negro."Ativistas dos direitos dos animais estão sobre uma corda bamba incrivelmente sensível, mas acredito que eles estão chegando a um ponto de virada neste momento", disse Jill Robinson, diretora da Animals Asia, uma organização com sede em Hong Kong que vem fazendo campanha há duas décadas para acabar com a extração de bile.
Ainda assim, apesar do que parece uma oposição pública crescente contra a prática, o governo chinês não está preparado para acabar com o lucrativo comércio de ácido ursodesoxicólico, o ingrediente ativo encontrado na vesícula biliar dos ursos. Embora os cientistas tenham desenvolvido uma alternativa sintética, os tradicionalistas afirmam que ela não tem o efeito terapêutico da bile verdadeira, que pode ser vendida por até US$ 24 mil o quilo, cerca de metade do preço do ouro.
Os cientistas examinaram os efeitos da bile de urso para a saúde, mas não chegaram a conclusões definitivas. Mas vendida sob a forma cápsulas ou tônico, a bile é considerada por muitos como uma espécie de elixir. Os vendedores da bile dizem que ela fortalece o fígado, reduz os sintomas da gripe e melhora a visão.
Yang Tingying, uma vendedora no mercado atacadista de medicamentos chineses em Chengdu, capital da província de Sichuan, insiste que a bile cura todos os tipos de doenças do fígado, inclusive a hepatite. "É a melhor porque vem da natureza", disse ela, mostrando um par de vesículas dissecadas, cuja venda é ilegal.
Meta de redução
Para a angústia de seus adversários, a indústria tem crescido de forma significativa nos 13 anos desde que as autoridades chinesas se comprometeram pela primeira vez a reduzir gradualmente o número de ursos cativos de 7 mil para 1.500. Hoje, estima-se que existam cerca de 20 mil ursos em quase 100 fazendas, uma expansão fomentada em parte pelos esforços de marketing que promovem novos usos para a bile de urso, como uma cura para ressaca para empresários abastados que costumam fazer noitadas.Além da China, há fazendas de bile de urso no Vietnã, Laos, Mianmar e Coréia do Norte.
Para os defensores dos animais, o desafio é convencer os consumidores chineses que a barbárie da coleta da bile é maior do que os supostos benefícios medicinais da bile natural – ou de que os riscos do consumo da bile de ursos doentes, injetados com antibióticos, são altos.
Além dos vídeos que circulam sobre a prática da coleta da bile, organizações como a Animals Asia têm uma série de armas secretas, incluindo Sun Li, César e Buda. Eles estão entre os 158 ursos resgatados que perambulam pelo santuário construído pelo grupo nos arredores de Chengdu. O centro recebe grupos escolares, celebridades e repórteres chineses, todos invariavelmente atraídos pelos ursos.
A maioria dos animais vieram de fazendas fechadas pelas autoridades porque tinham menos de 50 ursos, uma violação das regras do setor. A maior parte dos animais são ursos negros asiáticos, uma espécie ameaçada mais conhecida como urso-lua, por causa distinta meia-lua branca que eles têm atravessando o peito.
Nicola Field, veterinário-chefe do santuário, disse que os ursos costumam chegar magros, com o abdômen cheio de infeções, hérnias e tumores, característicos de um processo de extração que exige que eles fiquem com feridas abertas para as ordenhas que acontecem três vezes ao dia.
Os dentes dos ursos normalmente estão desgastados por roerem as barras de suas jaulas e os seus pés costumam estar num estado lamentável uma vez que poucos animais chegam a andar sobre o solo. "A lista de abusos que eles sofrem é terrível", diz Field.
Os anos de sofrimento e confinamento são tão traumatizantes que alguns dos ursos resgatados passam horas intermináveis batendo a cabeça contra a parede ou mordendo suas próprias patas.
Apoiadores do setor montaram sua própria campanha de relações públicas pró-bile, ressaltando a história da medicina tradicional da China e sugerindo que os defensores dos direitos dos animais estão fazendo a defesa de empresas farmacêuticas estrangeiras para promover a medicina ocidental à custa dos remédios caseiros.
Indolor?
Durante uma coletiva de imprensa no ano passado convocada para combater as críticas, Fang Shuting, presidente da Associação de Medicina Tradicional Chinesa, sugeriu que os ursos gostam do processo, que ele comparou a abrir uma torneira. "Natural, fácil e sem dor", disse ele. "Depois que acabam, os ursos podem até brincar alegremente do lado de fora."Suas declarações saíram pela culatra, produzindo uma onda de ridicularização nas mídias sociais e refutações de especialistas que disseram que é impossível os criadores de ursos deixarem os animais saírem de suas jaulas. "Os ursos são inteligentes como os cães e se lembram da dor", disse Zhang Xiaohai, que visitou uma série de fazendas de ursos como investigador disfarçado para a Animals Asia. "Eles nunca voltariam por vontade própria para serem ordenhados novamente."
Mas Zhang e outros veem esperança nas atitudes de jovens chineses como Guan Zhiling, que visitou o santuário com seus colegas de escola. "É brutal e desrespeitoso para com os ursos, e uma desgraça para a espécie humana", disse ela.
Tradutor: Eloise de Vylder
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