quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A lição da Finlândia para a Ucrânia
René Nyberg* - NYT
Getty Images
Imagem da cidade de Helsinque, na Finlândia Imagem da cidade de Helsinque, na Finlândia
Se você quiser irritar um finlandês, comece a falar sobre "finlandinização" e a subserviência dos países pequenos aos seus vizinhos maiores. O conselheiro de segurança nacional americano, Zbigniew Brzezinski, usou o termo para sugerir que aceitar o domínio russo é o único caminho para a Ucrânia. Eu discordo.
Finlandinização –ou o desafio de sobreviver como país pequeno à sombra de um maior– pode ser uma inspiração para a Ucrânia, mas não funciona da forma como Brzezinski pensa.
A Rússia teve problemas ao longo dos últimos 20 anos com todos os seus vizinhos, com uma notável exceção –a Finlândia. E trata-se de um feito finlandês, não russo.
Apesar de ter escapado da ocupação durante e depois da Segunda Guerra Mundial, a sobrevivência da Finlândia dependeu da forma como lidou com os herdeiros de Stálin sem se tornar subserviente a eles. Países pequenos que vivem à sombra de vizinhos maiores e mais fortes precisam encontrar um meio próprio de sobrevivência. E a experiência da Finlândia é única, devido ao fato crucial de nunca ter sido ocupada pelo Exército Vermelho. A finlandinização não é sinônimo de capitulação; é a chave para administrar uma relação de poder assimétrica.
Como argumentou o historiador sueco Kristian Gerner, séculos de história russa demonstram que Moscou tem duas abordagens em relação aos países vizinhos: os modelos Kazan e Manchu. Segundo o primeiro modelo, a Rússia absorve, sobrepuja ou continua fazendo bullying contra seu vizinho, como fez em 1552, quando Ivã, o Terrível, conquistou o canato de Kazan. De acordo com o segundo modelo, ela reconhece o vizinho como igual ou grande demais para enfrentar, como fez com o Tratado de Nerchinsk de 1689, o primeiro tratado de fronteira da Rússia com a China. Por séculos, não havia nada intermediário. Mas a Finlândia provou nos anos do pós-guerra ser a exceção.
Não é difícil separar os atuais vizinhos da Rússia segundo as categorias de Gerner. A Rússia demonstrou em várias ocasiões, na sua forma de lidar com os conflitos na Geórgia, Moldova e Ucrânia, que não tem escrúpulo em relação a atacar vizinhos mais fracos e tomar território.
A Finlândia sobreviveu e prosperou depois da Segunda Guerra Mundial porque estava à frente de seu tempo. Em uma era de polarização quase total, ela adaptou os princípios da defesa assimétrica à sua situação geográfica muito difícil. A Finlândia estava longe de ser vassala da União Soviética. Ela manteve sua democracia, uma defesa militar discreta e, acima de tudo, sua orientação ocidental. Como nós conseguimos fazer isso é a verdadeira história da finlandinização.
A estratégia funcionou porque a Finlândia permaneceu fiel a seus princípios: defesa crível e um forte sistema de livre mercado. Depois da morte de Stálin, o presidente da Finlândia, Urho Kekkonen, fez uso de dois argumentos para virar o jogo sobre Nikita Khruschov e Leonid Brejnev.
Primeiro, ele deixou claro aos soviéticos, sem dizer explicitamente, que a Finlândia defenderia sua independência, como fez ao repelir dois ataques soviéticos em 1939 e 1944. Segundo, ele os convenceu de que a economia da Finlândia sofreria e que os próprios interesses da Rússia seriam prejudicados se a União Soviética impedisse a integração da Finlândia aos arranjos econômicos da Europa Ocidental no pós-guerra, como a Associação Europeia de Livre Comércio e a Comunidade Econômica Europeia. A Finlândia continuou sendo a maior parceira comercial ocidental da União Soviética até os anos 70. O ingresso na União Europeia em 1995 foi um regresso ao lar.
Segundo esse perspectiva, o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, está seguindo o caminho certo. Após tomar posse, ele buscou rapidamente assinar o acordo de associação com a União Europeia, não deixando dúvida sobre a opção de Ucrânia de ser parte do Ocidente. Ao mesmo tempo, Poroshenko fortaleceu as defesas da Ucrânia contra uma intervenção militar russa no leste.
Um resultado da agressão de Moscou foi o surgimento de uma forte identidade nacional ucraniana. A Rússia tomou a Crimeia e desestabilizou o leste da Ucrânia –mas perdeu os ucranianos. Em um mundo globalizado, a Rússia não pode prosperar como uma ilha raivosa, por maior que seja. A Rússia já estragou suas relações com a Europa e com os Estados Unidos. Sanções bancárias são particularmente dolorosas e sua economia sofrerá.
O interesse renovado da Suécia e Finlândia em ingressar na Otan, da qual não faziam parte, é apenas uma das consequências não previstas. Como nós observamos nos últimos meses, a Rússia está se voltando para a China. Mas isso não ajuda em nada a diminuir o isolamento da Rússia; o papel de parceira minoritária do Reino Médio não é invejável.
A inabilidade da Rússia em lidar com seus vizinhos é seu defeito. A máxima de definir a segurança por meio do controle total de seu perímetro e tentar determinar à força as políticas de seus vizinhos não é solução para os problemas modernos da Europa. Isso não proporciona nem segurança e nem estabilidade.
O melhor que a Rússia pode esperar agora é por um acordo na forma de um tratado de paz, que lhe desse de fato o direito à Crimeia. Caso contrário, a Crimeia permanecerá tóxica para os investidores e um destino vedado –prejudicando a Rússia mais que a Ucrânia.
A melhor defesa da Ucrânia é se unir e mostrar, como a Finlândia fez nos anos 60 e 70, que a insistência da Rússia em impedir a integração econômica da Ucrânia com a Europa promoverá disfunção e caos com os quais Moscou não pode arcar. 
*René Nyberg foi embaixador da Finlândia na Rússia de 2000 a 2004 e na Alemanha de 2004 a 2008.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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