Abalar o andor
Dora Kramer - OESP
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
costuma dizer que no Brasil a sociedade se movimenta a partir de algum
curto-circuito, produto de uma faísca qualquer em geral decorrente de
algo imprevisível.
É a análise do sociólogo, que
poderia se encaixar na onda de preferência do eleitorado por Marina
Silva, mas que certamente não seria conveniente ao discurso do político
engajado na campanha do tucano Aécio Neves.
De qualquer
modo, a tese permanece e suscita uma indagação. Seria Marina capaz de
desencadear o tal curto-circuito renovador ou sua força se encerra no
brilho da faísca?
Nas próximas cinco semanas o esforço da
campanha do PSB será o de consolidar a primeira hipótese no coração do
eleitorado, enquanto o PT e o PSDB vão apelar para a racionalidade do
público a fim de demonstrar que a segunda é a mais correta.
Em
resumo, na versão dos adversários o voto em Marina Silva seria um
contrato de alto risco para o Brasil. Se o eleitor vai se deixar
convencer são outros quinhentos.
Muitos políticos
experientes e vários analistas de pesquisas não querem ainda emitir
opiniões definitivas em público, mas nos bastidores a impressão
predominante é a de que a onda veio para ficar e ela está eleita.
Isso
não significa que nas campanhas as toalhas já tenham sido jogadas. O PT
aposta na força do governo. O PSDB desenvolve o raciocínio de que
Marina estaria vivendo o auge do entusiasmo pelo desejo do "novo" e que a
partir de agora a tendência do eleitor seria a de prestar mais atenção a
questões objetivas de governabilidade.
Os dois
adversários já abandonaram o tratamento cerimonioso e desde o fim de
semana passaram a citar Marina nominalmente em suas críticas. O tucano
dedicou o horário eleitoral do sábado a levar o público a refletir sobre
dois tipos de escolha: a emotiva e a realista.
Começou
por atacar a questão do voto útil, dizendo: "Não basta tirar o PT do
poder". Fez um gesto de delicadeza - "respeito muito a Marina" - a fim
de não se atritar com os eleitores dela, mas pôs em dúvida sua
capacidade de governar.
Tanto tucanos quanto petistas
agarram-se à esperança de que Marina neste mês e alguns dias até a
eleição seja levada a descer do altar em que se encontra entronizada,
pela necessidade de se confrontar com o mundo real.
O
combate será no campo das cobranças de conteúdo. Aí suas contradições,
acreditam, ficariam expostas como vulnerabilidades graves para o
exercício da Presidência.
Mau momento. Candidato
ao Senado pela Bahia, integrante da ala do PMDB anti-PT, Geddel Vieira
Lima atribui a "setores insanos do partido" a notícia de que os
pemedebistas aliados a Aécio Neves já estariam se movimentando para
aderir à candidatura de Marina Silva.
"Eleição em dois
turnos obedece a um ritual. Se o meu candidato (Aécio) não passar para o
segundo turno, aí discutimos uma posição. Agora, com o processo do
primeiro turno ainda em curso, tocar nesse assunto é puro oportunismo."
Aos fatos.
A presidente Dilma Rousseff diz que está muito preocupada com o
programa de governo de Marina, "no que se refere tanto à criação de
empregos quanto à questão da indústria nacional".
Na
realidade, "no que se refere" à candidata do PSB a preocupação da
presidente é mesmo quanto à questão dos índices de intenções de votos
das pesquisas.
Linha torta. A candidata do
PSB usou sete palavras - "uma falha processual na editoração do texto" -
e uma construção confusa para explicar a retirada do apoio a causas
LGBT inscritas no programa de governo. Para falar claro bastaria um
"erramos".
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