'Nova política' e vida real
O Estado de S.Paulo
Sabatinado por este jornal, o candidato a
vice-presidente na chapa de Marina Silva, deputado federal Beto
Albuquerque, do PSB gaúcho, tentou aparentemente transformar um círculo
em um quadrado, ao reconhecer que "ninguém governa sem o PMDB",
ressalvando, porém, que "não é preciso entregar o governo para ter
governabilidade". A questão foi levantada porque toca no nervo exposto
da candidatura Marina - o disseminado ceticismo sobre as suas chances,
se eleita, de formar uma equipe de governo que não seja um ajuntamento
de estranhos no ninho e de construir uma base parlamentar que lhe
permita aprovar os projetos que lhe forem mais caros.
O
que se pode chamar de bancada marineira na Câmara dos Deputados - as
cadeiras hoje ocupadas pela coligação que reúne, além do PSB do falecido
Eduardo Campos, o PPS e quatro siglas nanicas - soma 32 em um total de
513. Na melhor das hipóteses, segundo projeções publicadas pelo jornal
Valor, os socialistas sairão das urnas com o mesmo número de vagas (34)
conquistadas em 2010 para fazer parte de uma Casa provavelmente ainda
mais fragmentada que a atual, de 22 siglas. Diz a candidata, em
desespero de causa, que fará um governo com os "melhores" nomes do
espectro partidário que compõe o Legislativo. É de rogar aos céus que
ela própria descreia de suas palavras.
Do contrário
revelará um desconhecimento abissal de como funciona a política, não
obstante seus dois mandatos de senadora. Melhores, piores e mais ou
menos, os parlamentares vivem todos numa teia de lealdades a quem os
tenha feito chegar ao Congresso Nacional. E ali estão sujeitos a uma
complexa estrutura de poder alicerçada no sistema de lideranças que
mantêm a coesão interna das bancadas. Uma coisa e outra restringem a
liberdade de movimentos de seus membros mais do que possa conceber a vã
filosofia da "nova política". Descartada, por ingênua ou insincera, a
retórica do tal governo dos melhores, resta o governo possível com a
expressão organizada do Parlamento.
No "presidencialismo de
coalizão" brasileiro, essa fórmula leva uma dose de afinidade
programática, outra de convergência com os grupos de interesses do
Congresso e oito partes de realpolitik - o acatamento da relação de
forças entre os partidos, resultante de cada ciclo eleitoral. O que,
teoricamente, abriria três possibilidades para Marina em 2015: fazer as
pazes com o PT, achegar-se ao PMDB ou se aliar à frente PSDB-DEM. Na
primeira e mais remota hipótese, será mais do que mais do mesmo para o
País: o pior dos dois mundos. Na terceira, que poderá começar pelo apoio
tucano à candidata que ameaça despejar Dilma Rousseff - a menos que o
senador Aécio Neves consiga superá-la -, o produto será um governo de
minoria, mas com razoável grau de coerência e capacidade de atração de
outras legendas médias.
Já um acerto com um PMDB - que
deverá continuar com a segunda maior bancada da Câmara, depois do PT, e
com a maior do Senado - equivalerá a um pedido de Marina para que
esqueçam o que não se cansou de repetir sobre a renovação dos costumes
políticos nacionais. E não será nenhuma pechincha, diga o que disser o
deputado Beto Albuquerque sobre governar com o PMDB sem lhe dar o
governo. Na entrevista ao Estado, ele perguntou retoricamente por que
teria de consultar o presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre quem
deveria ser indicado para uma Transpetro, por exemplo. Porque é disso
que os oligarcas do PMDB alimentam o seu poder, antes e depois das
urnas. Nesse jogo duro, o conselho que deixou de ser solicitado é um ato
de menoscabo que não pode passar em branco.
"Nosso
governo", promete o candidato a vice, "não vai indicar gente inapta
porque é pedido de alguém." Na vida real, é mais complicado. No mercado
de apoios políticos, o interessado pode sair com o filé que desejava,
desde que leve também uma porção de carne de pescoço. Enquanto o PMDB
for o partido que trocou a disputa pelo Planalto por estar no Planalto
em qualquer governo - embora os seus hierarcas falem em lançar um nome
em 2018 -, e enquanto for hegemônico no Congresso, só restará a uma
presidente Marina tentar a proeza de se entender com o diabo sem sair
abrasada do entendimento.
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