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Amanhã,
em Brasília, estarei palestrando sobre o cenário econômico brasileiro,
em evento patrocinado pelo Conselho Federal de Economia. As seis
perguntas me foram enviadas com antecedência, e as estarei republicando
aqui. A primeira pergunta, base desse texto, é sobre o cenário
macroeconômico.
COFECON: A
economia brasileira termina 2014 com o cenário conhecido: baixo
crescimento da renda, implicando em redução de geração de emprego e
receitas fiscais decrescentes; inflação renitente, com repressão de
preços; resultado fiscal primário incerto e previsivelmente insuficiente
para a dinâmica da relação dívida/PIB; carga tributária em torno de 36%
do PIB; nível de desemprego baixo; e melhor distribuição de renda. A
partir desse quadro, como a política econômica deverá ser conduzida a
partir do ano que vem?
O
grande problema do baixo crescimento da renda está na falta de aumento
de produtividade no país. São vários os fatores conhecidos que ocasionam
uma baixa produtividade da economia: má alocação de recursos, baixa
capacitação do fator humano, baixa poupança disponível para investimento
de longo prazo, falta de avanço tecnológico, altos custos de transação e
falta de especialização, entre outros fatores. Podemos ver a atuação
perniciosa do atual Governo em todos esses campos.
A
política de crescimento pelo consumo, base da gestão econômica do PT,
não é uma boa política econômica. Não é o consumo que deve alavancar a
produção, mas a produção que deve alavancar o consumo. Quando o Governo
estimula o consumo na tentativa de alavancar a produção, seja através da
disponibilização de crédito, seja através do gasto público,
deteriora-se a poupança interna e, caso não haja poupança suficiente,
ainda ocorre o endividamento estatal, que inexoravelmente será pago às
custas de poupança e produção futuras.
No
entanto, quando o aumento da produção gera o aumento do consumo, esse
aumento de consumo é sustentável e não dilapida a poupança nacional, não
cria endividamento e garante os recursos necessários para um
reinvestimento futuro em ganhos tecnológicos.
Esse
cenário mostra claramente que o Brasil optou por um sistema de
crescimento de curto prazo e insustentável, que funciona muito bem para
ganhar eleições em curto espaço de tempo, já que o aumento do consumo
gera uma sensação fictícia de prosperidade, mas hipoteca o futuro do
país. Essa conta chegou.
A
criação de inflação é proposital para sustentar a transferência de
poupança da sociedade civil para o Governo. Desde 2002, os governos
petistas sextuplicaram a base monetária brasileira, usando o Banco
Central de maneira ativa na compra de títulos da dívida pública, ainda
que de maneira indireta, tendo um dealer primário como “corretor”. O
resultado da expansão monetária foi que o valor real do dinheiro novo
criado pelo Banco Central roubou muito dinheiro da poupança nacional,
fenômeno conhecido como imposto inflacionário, e injetou esses recursos
no mercado através de gastos públicos, transformando a poupança nacional
em consumo.
E
o mais grave foi ver o FMI chancelando essa operação podre. Em junho
deste ano, o FMI entendeu ser procedente a alegação do Banco Central
para desconsiderar do cálculo da dívida bruta do país os débitos
públicos lastreados em títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional
que estão em posse do Banco Central brasileiro. Ou seja, está avalizando
o entendimento de que é ético o Governo se autofinanciar através da
emissão de moeda. Segundo o próprio Governo, tal entendimento reduz a
dívida pública em quase 10%, o que significa, na prática, que esses
títulos jamais serão pagos de fato, sendo no máximo alavancados
futuramente.
Ainda
dentro do problema fiscal do país, vemos com péssimos olhos a atual
prática governamental de contabilidade criativa, considerando receita
extraordinária como receita corrente para fins de busca de um superávit
primário que sequer consegue ser alcançado, como visto em alguns meses
do presente ano. Desrespeitar contratos é indignidade para com pessoas
de todo o país que acreditaram na boa-fé do Governo ao comprar títulos
da dívida pública. Os gastos públicos encontram-se descontrolados e cada
vez mais o Governo busca interferir em mais áreas do mercado, sempre
custeado pela vexatória carga tributária que varia entre 36 e 38%,
dependendo do órgão pesquisador. Isso é verdadeiro confisco, o que é
vedado pela Constituição Brasileira, e precisa ser revertido, o que só
ocorrerá se houver uma conscientização nacional de que a gestão pública
de produção e distribuição de bens e serviços possui incentivos muito
inferiores aos incentivos da iniciativa privada. É para produzir essa
conscientização que toda a classe de economistas deveria lutar.
Há
de se falar ainda a respeito do baixo nível de desemprego e da melhor
distribuição de renda, que seriam as grandes justificativas do atual
modelo econômico. Ambas são uma farsa. O baixo nível de desemprego está
intimamente ligado aos fenômenos da geração “nem-nem” (nem trabalha, nem
estuda) e dos altos índices de empregabilidade no setor informal da
economia, os chamados “bicos”, frutos diretos do excesso de paternalismo
mal dirigido e do excesso de burocracia com altos custos de transação.
Esse sistema vai acabar explodindo em médio prazo com o aumento
exponencial de custos da rubrica de assistência social do orçamento
federal. Já um estudo do IPEA mostra que, de acordo com os dados mais
confiáveis da receita federal, nos últimos anos houve uma concentração
de renda nas mãos dos 5% mais riscos do país, passando de 40 para 44% da
renda total do país.
Precisamos acabar
com essa falta de vergonha. O próximo Governo precisará adotar com
urgência, na nossa opinião, as seguintes metas:
1
– Busca pelo aumento da poupança nacional sem controle de preços de
juros, com incentivo ao investimento em avanço tecnológico;
2 – Corte de gastos públicos e corte de impostos, inclusive com propostas concretas para tal finalidade;
3
– Aumento da liberdade econômica com desburocratização agressiva e
criação de um grande sistema de Simples tributário para todas as
empresas;
4 – Fim do uso da inflação para fins tributários;
5 – Fim da expansão desmedida da base monetária;
6 – Verdadeira responsabilidade fiscal, e meta de superávit nominal;
7
– Discussão sobre os principais gastos públicos no país: dívida e
previdência, com esforço para extensão dos prazos de pagamento da dívida
sem rompimento de contratos e adoção de um modelo autossustentável de
previdência;
8 – Estímulo à reintrodução dos “nem-nem” no mercado de trabalho;
9 – Fim do uso do Estado como agente concentrador de renda;
10
– Outras ações em defesa de uma economia sólida, com respeitos aos
direitos de propriedade, não burocratizada e que gere confiança para o
investidor.
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