quinta-feira, 14 de junho de 2012

A ALEMANHA CONSEGUIRÁ SALVAR O EURO?

Intenções da Alemanha não garantem a sobrevivência do euro
Charles Grant - Herald Tribune
Os alemães salvarão o euro? Muitas pessoas dentro da União Europeia e de mais longe estão pedindo para que Berlim adote medidas ousadas para assegurar o futuro da moeda. Elas estão frustradas com a aparente inação dos alemães.
Mas o ponto de vista dos autores de políticas alemães –como me foi informado em uma visita recente a Berlim– é de que o governo fará o que for necessário para salvar o euro. O que ele não fará, eles disseram, é expor em público as medidas que está preparado para tomar, para que isso não encoraje os países com problemas da zona do euro a relaxarem em seus esforços para reduzir os déficits orçamentários e promover reformas.
Entretanto, as melhores intenções dos autores de políticas alemães não garantem a sobrevivência do euro. Quaisquer medidas que considerem necessárias teriam que ser aprovadas pelo Bundestag, onde muitos membros são contrários a uma maior generosidade alemã com o sul da Europa, e depois pelo tribunal constitucional, que tende a contestar a transferência de mais poderes à União Europeia.
O tribunal da opinião pública também conta, mas os líderes alemães raramente explicam aos eleitores como o euro escora a prosperidade deles. E no caso de um pânico financeiro, talvez provocado por uma saída da Grécia do euro, os políticos da Alemanha conseguiriam responder com a rapidez necessária?
Segundo um alto funcionário alemão, as pessoas chave na chancelaria e no Ministério das Finanças têm pouco entendimento dos mercados financeiros. Berlim fica a aproximadamente 450 quilômetros do centro financeiro da Alemanha, Frankfurt, enquanto em Londres e Paris, políticos, funcionários do governo e financistas vivem próximos. Isso pode levar o governo alemão, alerta o funcionário, a subestimar a velocidade com que os mercados podem se mover e o seu potencial destrutivo.
As autoridades alemãs sabem que um euro saudável exige uma maior integração da zona do euro. Elas reconhecem a necessidade de algum tipo de "união bancária". Elas aceitam que terão que discutir a respeito dos "títulos do euro" –um pool de tomada de empréstimos para a zona do euro– mas dizem que uma união fiscal para fiscalizar a disciplina orçamentária deve vir primeiro. Elas querem uma "união econômica" que leve os países mais fracos da zona do euro a se tornarem mais competitivos. Isso significaria dar à Comissão Europeia os meios para persuadir os governos a alterarem políticas em áreas como aposentadoria, mercado de trabalho, privatização e taxação das empresas.
Essas mudanças afetariam apenas os países da zona do euro, mas exigiriam que todos os 27 países membros da UE concordassem com as emendas aos tratados da União. As autoridades alemãs temem que o Reino Unido possa bloquear um novo tratado, como fez em dezembro passado, forçando os outros países a montarem estruturas paralelas às da UE. Esse resultado, elas acreditam, enfraqueceria tanto o mercado único quanto a influência do Reino Unido dentro da União. Como a contribuição do Reino Unido para a solução da crise tem sido sermões em vez de dinheiro, os alemães não acham que devem favores à Londres.
Quando comentaristas "anglo-saxões" criticam a Alemanha por impor austeridade excessiva, a resposta pode se aproximar da paranoia. Um indivíduo chave, quando lhe foi dito que muitos dos países do G20 concordavam com as críticas, disse que era porque os anglo-saxões dominavam a mídia global. Palavras semelhantes podem ser ouvidas em Pequim e Moscou.
O Reino Unido pode ser um incômodo, mas o país que causa maior preocupação é a França. François Hollande revelou ser mais difícil de lidar do que o esperado, ao pedir repetidamente pelos títulos do euro, por exemplo. As autoridades alemãs se irritam com o fato dos socialistas franceses não entenderem a fraqueza econômica de seu país, e por não estarem falando a sério sobre a reforma estrutural econômica ou sobre a redução do déficit orçamentário. "Se os mercados virem a França e a Alemanha discordarem a respeito do euro, eles terão mais dúvidas a respeito da moeda, de modo que os franceses deveriam parar com suas guerras de propaganda contra a Alemanha", disse uma autoridade.
Os alemães estão particularmente irritados com o fato de a França ter se aliado à Itália e outros na defesa de um relaxamento da austeridade. Vários meses atrás, os alemães eram fãs de Mario Monti, o primeiro-ministro economista da Itália. Mas as críticas públicas dele à política alemã para o euro, somadas às suas fracas reformas no mercado de trabalho, incomodaram seus antigos amigos em Berlim.
A divergência entre a Alemanha (e aliados como a Finlândia e a Holanda) e um grupo liderado pela França e Itália sobre como lidar com a crise do euro sugere um meio-termo óbvio. A França e o sul da Europa deveriam aceitar a reforma estrutural, a disciplina orçamentária e a perda de soberania em alguns aspectos da política econômica. A Alemanha deveria dar aos países membros mais tempo para atingir as metas orçamentárias, deixar os europeus do sul cancelarem mais dívidas e aceitar alguma mutualização da dívida.
A Alemanha poderia aceitar uma grande barganha dessas? Talvez, disse uma autoridade. "Algumas pessoas ao redor de Hollande veem o que a França precisa fazer, mas poderia ser politicamente difícil para os franceses aceitar uma união fiscal." Essa barganha também seria politicamente difícil para a Alemanha.
Até mesmo alguns admiradores da chanceler Angele Markel admitem que ela carece de visão, não gosta de grandes ideias, é extremamente cautelosa e tem pouca ligação emocional à UE. Ela não gosta que estrangeiros lhes digam o que fazer e acha que o conselho deles pode atender apenas aos seus interesses. Mas ela também é exímia em táticas políticas e não deseja ser a chanceler que permitiu o colapso do euro.
Hans Eichel, um ex-ministro das finanças do Partido Social Democrata de oposição, disse que seu partido apoiaria Merkel em fazer tudo o que for necessário para salvar o euro. "Os alemães são céticos em relação ao euro, mas não querem um retorno ao marco, logo, se Merkel tiver coragem de integrar ainda mais a Alemanha à Europa, o Partido Social Democrata, as empresas e os sindicatos seguirão -mas ela precisa liderar."
Muitos alemães esperam que os males da zona do euro possam ser curados sem que precisem pagar demais. Mas algumas autoridades em Berlim entendem que a Alemanha terá que pagar um alto preço. Se Merkel e outros líderes políticos puderem explicar essa verdade dolorosa ao povo, as perspectivas do euro melhorarão.
* Charles Grant é diretor do Centro para a Reforma Europeia e autor do relatório “Rússia, China e a governança global”.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

Nenhum comentário: